Agricultor a trabalhar num campo agrícola ao pôr do sol, rodeado por grandes folhas verdes, simbolizando agricultura sustentável e produção no campo Foto Shutterstock

Agroalimentar português vale quase 35 mil milhões de euros, mas défice comercial ultrapassa cinco mil milhões

A fileira agroalimentar portuguesa representa um volume de negócios de 34.946 milhões de euros, emprega mais de 327 mil pessoas e integra cerca de 124.500 empresas. Apesar da sua importância económica, Portugal mantém um défice estrutural da balança comercial agroalimentar superior a cinco mil milhões de euros, evidenciando a dependência externa em várias áreas essenciais do abastecimento alimentar.

Os números constam do documento “Alimentar Portugal – Ciência e Inovação para a Segurança, Soberania e Competitividade Nacional”, submetido à Agência para a Investigação e Inovação (AI²), que defende o reconhecimento formal da agricultura e da alimentação como um domínio estratégico da política nacional de investigação e inovação.

A iniciativa reúne contributos de instituições científicas, empresas e associações dos sectores agroalimentar e agroflorestal, propondo uma estratégia integrada que abranja toda a cadeia de valor, desde a produção agrícola até à transformação, distribuição e consumo.

Indústria alimentar e das bebidas representa 24,5 mil milhões de euros

De acordo com os dados económicos apresentados no documento, referentes a 2024, a fileira agroalimentar gerou um valor acrescentado bruto de 7.919 milhões de euros.

A indústria alimentar e das bebidas assume um papel particularmente relevante, com um volume de negócios de 24.550 milhões de euros, um valor acrescentado bruto de 4.751 milhões de euros e 116.483 trabalhadores distribuídos por 11.623 empresas. Segundo o documento, esta atividade representa cerca de 14% do valor acrescentado bruto e 14,3% do volume de negócios da indústria transformadora nacional.

A importância económica estende-se igualmente aos mercados externos. As exportações agroalimentares portuguesas atingiram 10.551 milhões de euros em 2025, representando 13,3% das exportações nacionais de bens, segundo os dados da AICEP e do INE utilizados na proposta.

Apesar do desempenho exportador, os responsáveis pela iniciativa alertam que a dimensão das importações continua a expor Portugal a riscos associados à instabilidade geopolítica, às alterações climáticas e à volatilidade dos mercados internacionais.

Dependência externa exige maior capacidade produtiva

O défice comercial agroalimentar superior a cinco mil milhões de euros constitui um dos principais argumentos para reforçar a investigação aplicada à produção e transformação alimentar. A proposta defende que Portugal deve aumentar a sua capacidade de resposta às necessidades internas, diversificar a produção e desenvolver soluções tecnológicas que permitam reduzir dependências em matérias-primas e produtos considerados estratégicos. A segurança e a soberania alimentar são apresentadas como questões que ultrapassam a dimensão económica, envolvendo também a capacidade de garantir o abastecimento em situações de crise.

Entre os desafios identificados encontram-se a escassez de recursos hídricos, a degradação dos solos, a perda de biodiversidade, o aparecimento de novas pragas e doenças e as dificuldades de adaptação dos sistemas produtivos às alterações climáticas.

O documento identifica a inteligência artificial, a digitalização, a biotecnologia e a bioeconomia como áreas fundamentais para reforçar a competitividade do sector. Na produção agrícola, as novas tecnologias poderão contribuir para a utilização mais eficiente da água e de outros recursos, a antecipação de riscos e a adaptação das culturas a condições climáticas mais exigentes.

Na indústria alimentar, a investigação deverá favorecer o desenvolvimento de novos ingredientes, métodos de conservação, soluções de embalagem e tecnologias de transformação.

A iniciativa destaca ainda o potencial da fermentação de precisão, das microalgas, da biomassa microbiana e do cultivo de células animais para o desenvolvimento de proteínas alternativas e ingredientes funcionais.

A valorização de subprodutos agrícolas e agroalimentares é igualmente apresentada como uma oportunidade para criar novos negócios, reduzir desperdícios e promover modelos de economia circular.

Investigação tem de chegar às empresas

Uma das principais fragilidades identificadas pela iniciativa Alimentar Portugal é a dificuldade em transformar conhecimento científico em produtos e processos com aplicação industrial. Apesar da existência de universidades, centros de investigação e empresas com competências relevantes, persistem obstáculos na transferência de tecnologia e na passagem das soluções desenvolvidas em laboratório para a produção em escala industrial.

Para ultrapassar estas limitações, a proposta recomenda a criação de infraestruturas partilhadas de investigação e experimentação, incluindo unidades piloto, instalações de demonstração e equipamentos especializados.

Defende ainda mecanismos de cofinanciamento entre instituições científicas e empresas, programas de transferência de tecnologia e financiamento plurianual que permita desenvolver projetos com resultados económicos a médio e longo prazo.

A eficácia dos investimentos deverá ser avaliada não apenas pela produção científica, mas também pelas tecnologias adotadas pelas empresas, pelos novos produtos colocados no mercado, pelo investimento privado mobilizado e pela redução das dependências externas.

Estratégia construída com o sector

A proposta resulta da agregação de nove contributos apresentados durante o encontro Ciência e Inovação 2026 e da consulta Alimentar Portugal, realizada a 18 de setembro, na Universidade de Évora. O encontro reuniu cerca de 200 participantes, incluindo investigadores, docentes, estudantes, representantes empresariais, associações de produtores e entidades da administração pública. A ambição passa por estabelecer uma estratégia nacional que aproxime ciência, empresas e políticas públicas, colocando o agroalimentar no centro das prioridades de inovação.

Num contexto em que a autonomia estratégica ganha importância na agenda europeia, o documento defende que reforçar a produção, transformar mais matérias-primas em Portugal e incorporar conhecimento tecnológico pode contribuir para aumentar a competitividade das empresas e a resiliência do abastecimento alimentar nacional.

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