Paris, mais de 60 mil visitantes, a maior presença portuguesa de sempre, reuniões que multiplicam o previsto ao longo do primeiro dia. Os números falam por si. A Wine Paris 2026 consolidou o que a indústria portuguesa já suspeita há alguns anos: o eixo das grandes feiras internacionais de vinho está em plena deslocação, de Düsseldorf para a capital francesa.
Produtores de norte a sul do país, de adegas cooperativas a projetos boutique, estiveram presentes na edição deste ano e saíram, na sua maioria, com o mesmo diagnóstico. Algo mudou e de forma provavelmente irreversível. “Esta feira está num ciclo virtuoso“, afirmou Maria Miguel Manão, responsável de marketing e comercial da Adega de Cantanhede, ao descrever a dinâmica que se vive hoje na Wine Paris. A lógica é simples: os produtores têm interesse em estar e, por esse motivo, os importadores continuam a vir. “É uma pescadinha de rabo na boca”, disse, com pragmatismo. “Todos ganhamos“.
Maior delegação portuguesa de sempre
Para Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, o balanço não deixa margem para dúvidas. “A participação portuguesa na Wine Paris pode ser claramente classificada como um sucesso. Portugal apresentou a maior delegação de sempre, beneficiando de uma localização premium no recinto, com um stand amplamente elogiado por visitantes e profissionais do sector“. Com mais de 60 mil visitantes a percorrer os corredores da feira, os números superam de forma expressiva os das edições anteriores.
Na prática, os produtores ouvidos durante a feira confirmam a tendência. Filipe Cardoso, enólogo da Quinta do Piloto, que marcou presença pela segunda vez consecutiva, descreveu o início da feira como “uma agradável surpresa“. Tendo entrado no primeiro dia com apenas três reuniões pré-agendadas, acabou com 12.
Idêntico entusiasmo vivia-se no stand da Tiago Cabaça Winery, que regressava às feiras internacionais após vários anos centrada no mercado nacional. “Era o dia mais fraco que tínhamos em agenda“, admitiu Pedro Ceroude, export manager da empresa. “Tínhamos quatro reuniões marcadas. Acabámos com umas dez até às três da tarde“. A adega, que chegou a ter a exportação como 25% do negócio e que hoje representa apenas 3%, viu na Wine Paris 2026 o ponto de partida para recuperar terreno.
ProWein no banco dos réus
Enquanto Paris regista recordes, a ProWein vive uma espécie de “ressaca” silenciosa. As razões são múltiplas e interligadas. Dora Simões, presidente da CVR Vinhos Verdes, aponta para a “inflexibilidade” da organização alemã face ao Novo Mundo, que levou à retirada de vários países há alguns anos, e para o peso crescente dos custos logísticos numa feira realizada numa cidade não central na Europa. “Düsseldorf não tem voo direto de muitos países“, resumiu Maria Miguel Manão. “O nosso agente no Canadá diz que para Paris tem voo direto, para Düsseldorf não tem“.
Para a responsável da Adega de Cantanhede, a curva descendente da ProWein é evidente. “Em seis anos, anulou-se um bocadinho“. A adega mantém presença nas duas feiras, mas admite que poderá equacionar ficar apenas em Paris se o decréscimo continuar. “Se o crescimento que houve de 2024 para 2025 acontecer na mesma linha, para o ano, equacionaremos estar só na Wine Paris“.
Pedro Ribeiro, CEO e winemaker da Rocim, descreve a diferença entre as duas feiras de forma sucinta. “A Wine Paris é mais relacional e a ProWein mais abrangente“. Para o responsável, ambas cumprem papéis complementares, mas reconhece que a decisão depende cada vez mais dos mercados prioritários de cada produtor. “A Wine Paris tem mostrado um ambiente mais dinâmico e, diríamos, mais ‘curado’ em termos de visitantes, com forte presença de mercados francófonos e um crescente interesse de mercados fora da Europa“.
Ainda assim, nem todos querem abandonar Düsseldorf. Filipe Cardoso, da Quinta do Piloto, vê na menor presença portuguesa na ProWein uma possível oportunidade. “Como há muito menos presença portuguesa, os importadores que venham à procura de Portugal vão concentrar-se em menos produtores“. Uma lógica contraintuitiva, mas que faz sentido num mercado onde a diferenciação é tudo.
Paris, uma feira francesa, e daí o perigo
Num dos comentários mais lúcidos da edição, Pedro Ceroude, da Tiago Cabaça Winery, lançou um alerta que poucos querem ouvir. “Paris é uma feira de vinhos franceses. Os vinhos franceses vão ter sempre primazia. Se os portugueses esquecerem isto, amanhã ficam sem plataforma para poderem estar ao mesmo nível dos vinhos franceses“. Para este export manager, Düsseldorf serve precisamente para compensar esse desequilíbrio, sendo “mais democrática para os outros países“.
Dora Simões, dos Vinhos Verdes, partilha uma perspetiva algo diferente em relação à coexistência com os franceses. Para a presidente da CVRVV, estar lado a lado com outras regiões produtoras do mundo – Washington State, Napa Valley, Argentina – é em si mesmo uma vantagem:.”Cria circulação de pessoas, e pessoas com diferentes interesses, curiosas de conhecer mais. Estamos aqui com um país no meio de outros países. Isso é mais interessante“.
Tendências: o sector à procura do seu caminho
A Wine Paris foi também palco de debates em torno das grandes tendências que hoje agitam o sector. Vinhos sem álcool, novos formatos de packaging, sustentabilidade, castas autóctones, todos os tópicos circularam, gerando reações tão diversas quanto os próprios produtores.
Sobre os vinhos low e no-alcohol, a feira dedicou um pavilhão exclusivo a esta categoria, num sinal claro de que a tendência não pode ser ignorada. Mas entre os produtores portugueses, a cautela predomina. “Para quem é um produtor de vinho apaixonado pelo produto, isso faz um bocadinho de impressão“, admitiu Maria Miguel Manão. “Ter um vinho sem álcool parece que não tem alma“. Pedro Ribeiro, da Rocim, é mais pragmático: “É uma tendência que não pode ser ignorada“, disse, sublinhando que exige “muito rigor técnico para garantir qualidade“.
Filipe Cardoso, da Quinta do Piloto, vai mais longe na crítica às aparentes contradições do mercado. “As pessoas querem vinho sem álcool e querem que as empresas sejam sustentáveis. Mas um vinho sem álcool é tudo menos sustentável. A pegada carbónica do vinho sem álcool é muito mais complicada“. Para o enólogo, trata-se de “duas tendências completamente antagónicas“.
Nos novos formatos de embalagem, há curiosidade, mas também reservas. A Adega de Cantanhede observa com interesse o crescimento das embalagens mais sustentáveis e da exportação de vinho a granel, mas aponta desafios de certificação. “Se sai daqui como um DOC Bairrada e vai ser engarrafado no destino, quem vai garantir que não vão fazer um blend com qualquer coisa?”. Uma questão que o sector ainda não respondeu.
Luís Leocádio, enólogo que apresentou os seus vinhos Titan na feira, mantém uma postura clara perante as modas. “Nunca fui muito ligado às modas. Comecei o projeto com uma personalidade muito grande, a beber um bocadinho das coisas e dos métodos antigos. Acredito que quem consistentemente tiver esse perfil se vai manter“.

Portugal em crescimento, mas ainda com caminho a fazer
Na feira, Frederico Falcão revelou que o objetivo para os próximos anos não é crescer em volume, mas em valor. A meta dos mil milhões de euros em exportações está no horizonte e pode ser atingida, segundo Pedro Ceroude, da Tiago Cabaça, “nem que seja pela força da inflação“.
Para este export manager, Portugal percorreu um caminho notável nas últimas décadas. “Portugal hoje tem um conjunto de regiões que já se afirmam não apenas pelo preço. Conseguem afirmar-se no panorama com grandes vinhos“. Como exemplo concreto desta evolução, aponta o Alvarinho e a Touriga Nacional, duas castas que, em apenas 20 anos, conquistaram reconhecimento internacional. “Conseguimos isto num prazo relativamente curto“.
A diversidade das castas autóctones portuguesas foi também tema de uma masterclass realizada na feira, conduzida por Dirceu Vianna Junior, master of wine com quatro décadas de ligação ao sector. Para este especialista, Portugal detém uma vantagem competitiva única: enquanto 12 castas internacionais representam 50% dos vinhedos mundiais, Portugal conta com 250 variedades catalogadas e mais a descobrir. “Podemos fazer masterclasses durante os próximos 30 anos“, garantiu, sublinhando que o desafio é “saber contar a história” e encontrar a audiência certa: “Pessoas que têm curiosidade, que querem aprender“.
Dora Simões, dos Vinhos Verdes, destacou ainda o valor que a feira tem além das vendas: as conferências e debates sobre tarifas, novos mercados e neuromarketing. “Acima de tudo, é abrir horizontes. Não viver dentro da nossa própria carapaça“. Um dos painéis mais comentados foi dedicado à exploração de novos mercados – África, Índia – onde o consumo de vinho é ainda residual, mas onde a demografia aponta para uma janela de oportunidade a longo prazo que a indústria global do vinho não pode ignorar.
Duas feiras, uma questão de estratégia
O consenso que emerge das conversas com os produtores portugueses na Wine Paris 2026 é que não existe uma resposta única à questão das feiras. Para quem tem recursos para as duas, a recomendação é manter presença em ambas, reconhecendo que atraem compradores com perfis distintos. Para quem tem de escolher, a decisão depende dos mercados-alvo, da fase do negócio e da estratégia de internacionalização.
O que é claro é que a Wine Paris deixou de ser a alternativa à ProWein para se tornar, ela própria, uma referência incontornável. Para Portugal, quarto maior expositor na feira parisiense, trata-se de uma mudança que pode ser decisiva na forma como os vinhos nacionais se posicionam no mundo. A questão já não é se Paris vale a pena. É, cada vez mais, se Düsseldorf ainda vale sozinha.
A Grande Consumo é media partner da Wine Paris 2026.








