Pessoa a saltar sobre um grupo de pessoas com os braços levantados ao pôr do sol Foto Shutterstock

Menos confiança no mundo, mais controlo sobre as próprias escolhas

O consumidor contemporâneo enfrenta uma contradição: demonstra crescente preocupação com a evolução do mundo, mas continua a acreditar na possibilidade de melhorar a própria vida. É uma das conclusões centrais da 10.ª edição do “Ipsos Global Trends”, que analisou atitudes, valores e expectativas em 38 mercados.

A investigação revela que apenas um quarto dos participantes encara com otimismo o futuro global nos próximos 12 meses, enquanto 36% está otimista relativamente ao futuro do seu país. Em contrapartida, 55% apresenta expectativas positivas quanto à sua situação pessoal e familiar. Para a Ipsos, esta diferença representa uma transformação importante: a esperança tornou-se mais pessoal.

Otimismo concentra-se na esfera individual

O relatório identifica um contexto de crescente volatilidade económica, geopolítica e social. As alterações climáticas, os conflitos internacionais, a transformação do emprego e a rápida evolução tecnológica estão a tornar mais difícil antecipar o futuro.

Perante esta realidade, os consumidores procuram concentrar-se em aspetos da vida sobre os quais sentem ter maior capacidade de decisão. A Ipsos considera que esta procura de autonomia e controlo está a influenciar as atitudes perante o trabalho, a saúde, o consumo e as relações com as marcas.

Contudo, o otimismo individual também revela sinais de fragilidade. Numa comparação de 15 mercados acompanhados desde 2013, a proporção de participantes otimistas relativamente ao futuro pessoal e familiar encontra-se no nível mais baixo da série. Esta evolução pode ter implicações económicas, uma vez que a confiança no futuro influencia a disponibilidade para realizar despesas de maior dimensão.

Portugal apresenta nível moderado de otimismo

No índice composto de otimismo apresentado pela Ipsos, Portugal regista 97 pontos, ligeiramente acima dos 90 pontos de Espanha. O indicador português situa-se também acima dos resultados de Reino Unido, Itália, Alemanha e França.

Estes resultados permitem comparar o sentimento relativo entre mercados, mas não demonstram diretamente como os consumidores portugueses estão a alterar os hábitos de compra. Para estabelecer essa relação, seria necessário cruzar os dados de confiança com indicadores de despesa, frequência de compra e consumo efetivo.

Confiança passa a depender da proximidade

Uma das transformações identificadas pela Ipsos está relacionada com a forma como os consumidores constroem relações de confiança. A desconfiança nas instituições coexiste com a valorização de referências familiares. Segundo o estudo, 77% dos participantes afirma confiar mais num novo produto quando este pertence a uma marca que já conhece.

A preferência por produtos nacionais constitui outro sinal desta evolução: 70% afirma privilegiar produtos do próprio país.

Estas atitudes sugerem que, perante a incerteza, a familiaridade e a proximidade podem desempenhar um papel importante na redução do risco percecionado nas decisões de compra. Para as marcas, a notoriedade continua a representar um ativo relevante, mas a Ipsos alerta que a confiança tem de ser sustentada por comportamentos e resultados concretos.

Consumidores procuram recuperar controlo

A procura de autonomia constitui uma das tendências em aceleração identificadas pelo relatório. Segundo a Ipsos, os consumidores estão a atribuir maior importância à capacidade de tomar decisões, desenvolver competências e definir objetivos pessoais.

Esta evolução não significa necessariamente uma redução das ambições. Pelo contrário, o estudo mostra que os objetivos tradicionais continuam a ser valorizados, embora muitas pessoas considerem cada vez mais difícil alcançá-los.

Em resposta, aumenta a atenção a formas de satisfação e progresso que possam ser concretizadas no presente. A tendência poderá influenciar decisões de consumo relacionadas com experiências, bem-estar, desenvolvimento pessoal e produtos que simplifiquem o quotidiano.

Consumo imediato ganha uma nova dimensão

O relatório identifica também uma crescente valorização do presente. Segundo a Ipsos, 62% dos participantes concorda que o importante é aproveitar a vida hoje, deixando as preocupações de amanhã para o futuro. A consultora interpreta esta atitude como uma possível resposta à perceção de que os objetivos de longo prazo se tornaram mais difíceis de alcançar.

Para o retalho e as marcas, esta evolução pode criar oportunidades relacionadas com experiências acessíveis, pequenos momentos de recompensa e produtos associados ao bem-estar.

Contudo, não significa necessariamente que todos os consumidores estejam a gastar mais ou a abandonar a poupança. A valorização do presente pode coexistir com comportamentos prudentes e com maior controlo das despesas.

Sustentabilidade passa das promessas à adaptação

Outra transformação identificada pela Ipsos está relacionada com as expectativas ambientais. A preocupação com as alterações climáticas continua elevada, mas o estudo sugere que os consumidores estão a valorizar cada vez mais soluções práticas de adaptação.

Em vez de depender exclusivamente de compromissos de longo prazo, as empresas poderão ter de demonstrar benefícios concretos, como a redução do desperdício, a melhoria da eficiência energética ou a proteção dos recursos naturais.

A Ipsos considera que a comunicação da sustentabilidade está a evoluir de uma linguagem centrada no sacrifício para propostas associadas à melhoria da qualidade de vida. Para a indústria e a distribuição alimentar, esta orientação pode traduzir-se em maior interesse por soluções que conciliem benefícios ambientais, conveniência e acessibilidade económica.

Tecnologia enfrenta consumidores mais exigentes

A inteligência artificial constitui outro dos fatores de transformação. Embora 56% dos participantes considere que a IA tem um impacto positivo no mundo, o relatório identifica sinais de perda de entusiasmo entre consumidores mais jovens.

A Ipsos considera que a confiança na tecnologia dependerá cada vez mais da capacidade de demonstrar benefícios concretos e preservar a autonomia individual.

No retalho, esta evolução poderá influenciar a aceitação de recomendações automatizadas, ferramentas de personalização e serviços digitais. As empresas terão de encontrar um equilíbrio entre eficiência tecnológica e proximidade humana.

Nostalgia regressa como referência de segurança

A valorização de marcas conhecidas está também relacionada com outra tendência identificada no estudo: a procura de familiaridade e referências do passado. Segundo a Ipsos, 62% dos participantes gostaria que o respetivo país voltasse a ser como era anteriormente. Contudo, apenas 48% afirma que gostaria de ter crescido na época em que os seus pais eram crianças.

A diferença sugere que a nostalgia nem sempre corresponde a um desejo literal de regressar ao passado. Pode representar antes a procura de segurança, estabilidade e referências reconhecíveis num mundo em rápida transformação.

Para as marcas, esta tendência cria oportunidades de recuperar elementos históricos da sua identidade e combiná-los com inovação.

O desafio para fabricantes e distribuidores

O “Ipsos Global Trends 2026” apresenta um consumidor que procura equilibrar necessidades aparentemente contraditórias. Quer inovação, mas também confiança. Valoriza a sustentabilidade, mas procura soluções práticas. Mantém ambições de longo prazo, mas procura satisfação no presente. Reconhece os benefícios da tecnologia, mas quer preservar o controlo sobre as decisões.

Para a indústria de grande consumo e para o retalho, estas tensões tornam mais complexa a definição das estratégias comerciais. A capacidade de oferecer produtos diferenciados, comunicar valor de forma clara e desenvolver relações de confiança poderá assumir maior importância.

Contudo, os resultados também mostram que não existe um consumidor global uniforme. As diferenças entre mercados, gerações e contextos económicos exigem abordagens segmentadas e uma leitura cuidadosa dos indicadores.

A principal transformação identificada pela Ipsos poderá ser esta: num mundo considerado cada vez menos previsível, os consumidores procuram marcas, produtos e serviços que lhes permitam recuperar alguma capacidade de escolha e controlo sobre o quotidiano.

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