Masterclass sobre vinhos portugueses durante feira profissional do setor alimentar, com apresentação sobre regiões e climas de Portugal perante uma audiência internacional

As castas esquecidas que podem redefinir o vinho português

Da Côdega do Larinho à Jampal, várias castas portuguesas pouco conhecidas estão a despertar o interesse de especialistas internacionais. Na Wine Paris, Dirceu Vianna Junior mostrou como estas variedades podem reforçar a identidade e a competitividade dos vinhos portugueses

Um dos pontos altos da Wine Paris, que decorreu entre 9 e 11 de fevereiro, em Paris, foi uma masterclass a cargo da ViniPortugal. O tema? As castas “escondidas” de Portugal. Com uma sala cheia, Dirceu Vianna Junior, o primeiro brasileiro a ostentar o título de master of wine (MW), abordou seis castas autóctones portuguesas que considera “gemas escondidas”. São elas Códega do Larinho, Bical, Jampal,  Cercial, Negra Mole e Trincadeira.  

A opinião de Dirceu Vianna Junior é a de que, num panorama vinícola global cada vez mais dominado por um punhado de castas internacionais que ditam as tendências de consumo, Portugal emerge como um bastião de diversidade, autenticidade e história. Durante a masterclass, o especialista ofereceu uma perspetiva única sobre a riqueza das castas autóctones portuguesas e o caminho estratégico para a sua afirmação definitiva no cenário mundial.

Com uma carreira que abrange quase quatro décadas no sector, a ligação de Vianna Junior aos vinhos de Portugal aprofundou-se significativamente após a obtenção do seu título de MW, por volta de 2010. Este grau, considerado o mais elevado no mundo do vinho, exige um conhecimento enciclopédico que transcende fronteiras. No entanto, foi na singularidade técnica e na complexidade histórica de Portugal que o especialista encontrou um campo de exploração vasto e ainda por desvendar.

“Já trabalho com vinhos há quase quatro décadas. O primeiro contacto foi logo no início, quando trabalhava em Londres, na parte de restauração. Depois comecei a estudar, mas o contacto mesmo, para ter um conhecimento mais amplo, começou logo depois que fiz o Master of Wine“, explicou Dirceu Vianna Junior, sublinhando a profundidade do estudo que o levou a Portugal.

Uma masterclass dedicada à raridade

Para além do seu papel como membro do grão júri do Concurso Vinhos de Portugal, que se realiza anualmente em maio, Dirceu Vianna Junior dedica-se a uma missão pessoal: a curadoria de castas raras. Em paralelo com as sessões oficiais, o especialista aproveita as suas estadias em solo nacional para conduzir provas exaustivas de variedades que muitos considerariam esquecidas ou de relevância marginal. Nomes como a quase mítica Jampal – uma casta recuperada do esquecimento – são o foco da sua atenção e investigação.

“Degusto cerca de 80 a 90 amostras de uvas raras. O meu critério é rigoroso: retiro o que não tem qualidade intrínseca ou o que está ‘mascarado’ por um excesso de madeira. A intenção é mostrar a uva no seu melhor, sem manipulações que escondam o seu carácter original“, revela o master of wine, enfatizando a sua busca pela expressão mais pura da casta.

Um exemplo flagrante desta busca pela exceção é a casta Monvedro, da região do Dão. Com apenas cerca de 0,5 hectares de vinha plantada em todo o país, esta variedade representa o extremo da raridade vitícola. Para Dirceu Vianna Junior, o desafio não é apenas preservar estas relíquias, mas integrá-las numa narrativa comercial que valorize a sua exclusividade e singularidade. “É algo que se precisa se comunicar mais“, afirma, referindo-se à necessidade de dar visibilidade a estas castas menos conhecidas.

Entre o Velho e o Novo Mundo

Uma das maiores dificuldades para qualquer produtor ou região vinícola é definir a sua identidade para um consumidor global. Questionado sobre como descreveria os vinhos portugueses a quem nada conhece da nossa realidade, Dirceu Vianna Junior propõe uma síntese elegante que se tornou quase um mantra: “Portugal tem a fruta, a maturação e a exuberância do vinho do Novo Mundo, que é mais sol, com a estrutura e a complexidade do vinho do Velho Mundo. Então, para mim, esse é o meio do caminho perfeito“.

Esta dualidade permite que os vinhos portugueses ofereçam uma explosão de fruta e uma acessibilidade imediata, características frequentemente associadas aos vinhos de países como o Brasil, a Austrália ou o Chile. Contudo, sem nunca abdicar da espinha dorsal ácida, da estrutura tânica e da complexidade que definem os grandes clássicos europeus. Esta posição única confere aos vinhos portugueses uma versatilidade e um apelo que podem cativar tanto o apreciador casual quanto o colecionador exigente.

Diversidade como vantagem competitiva

A tendência crescente de produtores portugueses abandonarem castas internacionais (como a Cabernet Sauvignon ou a Syrah) em favor das autóctones não é meramente uma moda passageira. É, na visão de Vianna Junior, uma necessidade estratégica e um imperativo de qualidade. Citando dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho, o especialista alerta que apenas 12 castas dominam atualmente 50% dos vinhedos mundiais. Isto resulta numa gritante falta de diversidade global.

Neste contexto, a diversidade de Portugal – que conta com mais de 250 castas catalogadas – é o seu maior trunfo. O trabalho de recuperação e estudo de castas como a Bical, que antigamente eram plantadas em vinhedos mistos (field blends) e agora são vinificadas de forma isolada, permite um entendimento técnico sem precedentes. “Ao compreendermos como cada casta se comporta individualmente – sabendo, por exemplo, que a Bical aporta uma acidez específica – poderemos criar lotes muito mais precisos e superiores nas próximas décadas,” antevê, apontando para um futuro de vinhos ainda mais complexos e expressivos.

O exemplo da Verdelho Tinto, uma casta que está a ser micro-vinificada para avaliar o seu potencial, ilustra o dinamismo desta revolução. “Agora estão a fazer um trabalho de micro-unificação para ver se a qualidade é boa“, relata, demonstrando o processo de redescoberta e valorização.

Dirceu Vianna Junior Wine Paris

Contar histórias para conquistar consumidores

Apesar do otimismo técnico e da riqueza intrínseca dos vinhos portugueses, Dirceu Vianna Junior não ignora as implacáveis leis do mercado. Reconhece que, para o consumidor comum, é infinitamente mais simples pedir um Malbec ou um Prosecco, nomes que funcionam como marcas globais e que oferecem uma previsibilidade que muitas vezes é valorizada. Para o especialista, há pessoas que vão sempre preferir esse tipo de vinho. E outras que estão interessadas em conhecer coisas novas.

O seu foco reside precisamente neste “segmento de pessoas que é mais interessado“. Um público crescente, tanto no Brasil como no Reino Unido e em Portugal, composto por consumidores curiosos, com tempo e recursos, que querem ler, aprender e descobrir histórias. Para este público, a descoberta de uma casta rara, de um terroir específico ou de um vinho com uma identidade geográfica vincada é o que realmente importa.

“É saber para quem falar e é saber contar história”, conclui Dirceu Vianna Junior, sintetizando a estratégia de comunicação que Portugal deve adotar. “Vejo no Brasil,  em Inglaterra, pessoas que têm dinheiro, que têm tempo, que querem ler, que querem aprender, que são curiosos. Essa é a audiência“.

Comunicar a diferença

A visão de Dirceu Vianna Junior para os vinhos portugueses é clara. O sucesso não reside em tentar competir na comoditização do vinho, mas em abraçar e comunicar a sua diferença. Ao preservar o seu vasto património vitícola, investir na recuperação e estudo das suas castas autóctones e focar-se no storytelling para o consumidor “engajado”, Portugal não está apenas a guardar o passado, mas a preparar um futuro onde a sua singularidade é o maior trunfo. Num mundo que anseia por autenticidade e narrativas genuínas, os vinhos portugueses estão posicionados de forma única para conquistar os paladares e as mentes dos apreciadores mais exigentes.

A Grande Consumo é media partner da Wine Paris 2026.

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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