O Office for National Statistics (ONS) publicou esta semana os dados de vendas a retalho para março de 2026, e à primeira vista o resultado é positivo: as vendas em volume cresceram 0,7% face a fevereiro, depois de uma queda de 0,6% no mês anterior. Em termos anuais, o crescimento foi de 1,7%, e no conjunto do primeiro trimestre de 2026, as vendas subiram 1,6% face ao trimestre anterior e 2,7% acima do mesmo período de 2025. Números que, em abstrato, apontariam para um consumidor resiliente.
Mas o contexto altera radicalmente a leitura. A principal componente por detrás do crescimento de março foi o combustível automóvel: as vendas de gasolina e gasóleo cresceram 6,1% em volume e 11,6% em valor face ao mês anterior, com os retalhistas a reportar claramente que os automobilistas estocaram combustível em resposta à subida de preços provocada pela guerra entre os EUA e Israel e o Irão. Excluindo o combustível, as vendas cresceram apenas 0,2% em volume. Em termos de distribuição setorial, as lojas alimentares recuaram 0,8% em março – o que, no contexto das vendas globais, significa que o crescimento veio de categorias pontuais, não de um impulso generalizado do consumo.
A queda de confiança mais acentuada desde o confinamento
O verdadeiro sinal de alarme para o setor retalhista não está nos dados de março, mas no que se passou em simultâneo ao nível do sentimento. A GlobalData registou em março a maior queda mensal na confiança dos consumidores britânicos desde o primeiro confinamento pandémico de 2020: uma descida de 8,2 pontos numa única leitura. Os dados foram recolhidos no início de março, imediatamente após os ataques dos EUA e de Israel ao Irão, e traduzem uma deterioração súbita e pronunciada das expectativas dos consumidores.
De acordo com o relatório de sentimento do consumidor da GlobalData, 63,3% dos consumidores britânicos esperam que a economia piore nos próximos seis meses. A confiança caiu abaixo dos níveis registados aquando do anúncio do Orçamento de novembro de 2025 – que já tinha sido um momento difícil para o sentimento de mercado. Quase metade dos consumidores antecipa uma subida das taxas de juro ao longo deste ano, o que pressiona especialmente os detentores de crédito habitação em final de prazo de taxa fixa e os compradores de primeira habitação.
Sofie Willmott, diretora associada de Retalho da GlobalData, foi direta no diagnóstico: “A queda significativa da confiança do consumidor será uma preocupação real para os retalhistas britânicos, que enfrentaram anos de desafios pós-Covid e esperavam ver o sentimento do consumidor recuperar em 2026. A incerteza em torno da economia e das finanças pessoais deverá levar os consumidores a retrair o seu consumo discricionário, causando mais dificuldades para os retalhistas não alimentares que já estão em dificuldades“.
Os analistas do setor convergem num ponto: março foi, na melhor das hipóteses, uma pausa, não uma viragem. A Retail Economics descreveu o mês como “a calmaria antes de uma primavera mais difícil”, notando que a procura dirigida permanece em categorias com proposta de valor clara e relevância, mas que o mercado está cada vez mais definido por um consumo cauteloso e seletivo. O crescimento da roupa e das cosmético – impulsionado pela melhoria do tempo e pelo lançamento de novas coleções – são fatores sazonais e pontuais, não tendência sustentada.
Os dados macroeconómicos que se acumulam para os meses seguintes são pouco encorajadores. O preço do combustível subiu mais de 20% desde o início do conflito no Médio Oriente. O cap das tarifas de energia deverá aumentar em julho. Os custos de crédito habitação estão a subir, e estimativas do setor apontam para que algumas famílias possam ficar até 150 libras por mês em pior situação do que no início de 2026. Com o crescimento do rendimento real disponível já previsto abaixo de 1% para este ano, um aumento da inflação poderia estancar ou mesmo inverter os ganhos reais.
Elliott Jordan-Doak, economista sénior da Pantheon Macroeconomics, reconheceu que os dados de março ficaram acima das expectativas: “O primeiro lote de dados concretos sobre despesa dos consumidores desde o início da guerra com o Irão foi melhor do que o esperado. É certo que o estoque de combustível impulsionou as vendas agregadas, mas mesmo excluindo o petróleo as vendas em volume avançaram ligeiramente, o que mostra que os agregados familiares absorveram em grande parte o choque inicial dos preços de energia mais elevados“. A questão é se essa absorção se mantém quando os efeitos secundários da inflação se fizerem sentir de forma plena.
Retalho alimentar sob pressão crescente
Para o retalho alimentar especificamente, março foi um mês difícil: as vendas em volume nas lojas alimentares caíram 0,8%. Num contexto em que os retalhistas de grande consumo já operam com margens historicamente comprimidas – os custos SG&A do setor na Europa situam-se nos máximos históricos de 19,7% da faturação -, qualquer recuo na procura de base é preocupante.
O cenário que se afigura para o segundo trimestre de 2026 é de uma conjugação de pressões que os operadores alimentares conhecem bem, mas raramente enfrentam em simultâneo: inflação de input a subir (energia, logística, matérias-primas), consumidor a retrair-se no discricionário e a concentrar-se no essencial, e volumes alimentares que o estudo State of Grocery Retail 2026 da McKinsey & EuroCommerce já projetava com crescimento praticamente nulo até 2030. A guerra no Médio Oriente não criou este puzzle, mas acelerou-o. Os retalhistas que entraram em 2026 a apostar numa recuperação do sentimento terão de recalibrar rapidamente as suas expectativas para o ano.








