O trabalho híbrido está a consolidar-se no mercado laboral europeu, mas a forma como é organizado influencia significativamente a autonomia, o bem-estar e a perceção de justiça dos trabalhadores. É o que revela uma análise da Eurofound, que aponta também para diferenças importantes entre profissões e níveis de flexibilidade.
Cerca de um em cada quatro trabalhadores na União Europeia trabalha atualmente num regime híbrido. No entanto, as condições em que esse modelo é aplicado variam consideravelmente entre organizações e funções.
Autonomia marca a diferença
Entre os trabalhadores em regime híbrido, 48% têm autonomia significativa para decidir tanto quando como onde trabalham. Outros 17% podem escolher o local de trabalho, mas têm pouca margem de decisão sobre o horário, enquanto 13% têm flexibilidade relativamente ao tempo de trabalho, mas não quanto ao local.
Para 22%, o regime híbrido é mais controlado, existindo pouca influência sobre quando e onde trabalham.
A flexibilidade está, contudo, longe de estar distribuída de forma uniforme pelo mercado de trabalho. O trabalho híbrido continua sobretudo concentrado em profissões qualificadas: 56% dos gestores trabalham neste regime, contra apenas 1% dos trabalhadores em profissões elementares.
Mais flexibilidade, maior perceção de justiça
A forma como o trabalho híbrido é estruturado parece também ter impacto na experiência dos trabalhadores. Entre os profissionais abrangidos por modelos totalmente flexíveis, 93% consideram ser tratados de forma justa. A percentagem desce para 83% entre os trabalhadores sujeitos a modelos híbridos mais controlados.
Também os níveis de stress variam consoante o grau de flexibilidade. Entre os supervisores, 38% dos que trabalham em modelos controlados afirmam sentir stress no trabalho sempre ou na maior parte do tempo. Entre os supervisores com flexibilidade quanto ao local de trabalho, a percentagem é de 21%.
Gestão é determinante
Para Ivailo Kalfin, diretor executivo da Eurofound, a questão já não se resume ao local onde o trabalho é realizado, mas à forma como é organizado e gerido.
A investigação aponta para a inexistência de um modelo único aplicável a todas as organizações ou profissões. Uma utilização eficaz do trabalho híbrido exige, por isso, regras organizacionais claras, mas também margem para que as equipas adaptem os modelos às suas tarefas e necessidades.
Os gestores assumem um papel particularmente relevante neste processo. A investigação indica que nem sempre recebem o apoio necessário para desenvolver competências de gestão de pessoas essenciais para criar confiança, coordenar equipas dispersas, apoiar o bem-estar e garantir a inclusão. Do lado dos trabalhadores, a maior autonomia exige igualmente competências digitais e de autogestão que permitam trabalhar de forma eficaz num contexto menos supervisionado.
Regras comuns, aplicação flexível
A Eurofound defende que as organizações devem estruturar o trabalho híbrido em função das tarefas e dos resultados, envolvendo as próprias equipas na definição das práticas. O diálogo ao nível das equipas pode ajudar a conciliar as necessidades dos trabalhadores e das empresas com objetivos de desempenho, inclusão e bem-estar.
Para os decisores políticos europeus e nacionais, as conclusões apontam para a necessidade de criar enquadramentos comuns, em vez de impor modelos uniformes. Esses enquadramentos deverão estabelecer condições claras em áreas como tempo de trabalho, saúde e segurança no trabalho, proteção de dados e direitos e responsabilidades de trabalhadores e empregadores. Ao mesmo tempo, deverão manter flexibilidade suficiente para que empresas e profissionais adaptem o trabalho híbrido às características de cada função e setor.








