Regenerative Wine Fest

Regenerar a vinha para salvar o futuro do vinho português

No Regenerative Wine Fest, produtores, investigadores e consultores debateram o que muda - e o que custa - quando uma exploração vitivinícola decide transformar-se. A conclusão foi unânime: o maior risco não é mudar. É ficar parado.

Há milénios que o Alentejo produz vinho, mas nunca enfrentou um conjunto de ameaças tão simultâneas e tão urgentes como as que se abatem sobre ele agora. O aumento das temperaturas, a seca crescente, a degradação dos solos e a pressão económica sobre os produtores tornaram a questão da transição para modos de produção mais resilientes não apenas uma conversa de especialistas, mas uma necessidade concreta para quem vive da terra. Foi nesse contexto que, durante o Regenerative Wine Fest – evento dedicado à viticultura sustentável e regenerativa realizado no passado dia 16 de maio, no Alto Alentejo, mais precisamente na Herdade das Servas -, dois painéis de discussão reuniram vozes de investigação, produção e consultoria para responder a uma pergunta essencial: é possível mudar e continuar a ganhar dinheiro?

A resposta curta é sim. A resposta longa – e mais honesta – é: depende do ponto de partida, exige conhecimento, implica custos reais e requer apoio que, em Portugal, ainda está aquém do necessário.

A viticultura como a conhecemos pode não sobreviver

A investigadora Maria João Cabrita, da Universidade de Évora, não usou meias palavras ao analisar os cenários climáticos disponíveis para a região. “O que pode acabar é a viticultura como a conhecemos hoje“, afirmou, deixando claro que não se trata de catastrofismo, mas de realismo. O aumento de temperaturas, a diminuição de pluviosidade e o crescimento de eventos extremos vão obrigar a adaptar castas, porta-enxertos, modos de condução da vinha e até os próprios processos de vinificação – porque as uvas do futuro terão características diferentes das de hoje.

A viticultura regenerativa surge como um dos caminhos possíveis, mas Maria João Cabrita foi cautelosa quanto às expectativas. “Não vai resolver todos os males e tem que ser adaptada caso a caso“, sublinhou, defendendo que só o casamento entre abordagens regenerativas e de precisão pode gerar resultados robustos e replicáveis. Os estudos disponíveis sobre o impacto das práticas regenerativas na qualidade das uvas são ainda contraditórios – o que, paradoxalmente, pode ser interpretado como um bom sinal: “pelo menos não mostram perdas”, apontou a investigadora.

Quanto à biodinâmica – o passo além do biológico – Paula Bragança, diretora de viticultura e enologia do Monte da Raposinha, foi pragmática: “Acredito em vários fundamentos, mas exigia uma estrutura e uma capacidade que não tínhamos“. A proprietária optou por um percurso mais gradual – do convencional para o biológico, e depois para práticas regenerativas -, privilegiando o que é aplicável à realidade concreta da exploração familiar de 150 hectares, onde apenas 15 são de vinha.

Regenerative Wine Fest
Da esquerda para a direita: David de Brito, Co-fundador e Diretor Geral na Terramay; João Barroso, Diretor de Sustentabilidade, Investigação e Desenvolvimento dos Vinhos do Alentejo; Maria João Cabrita, Docente no Departamento de Fitotecnia da Universidade de Évora e Investigadora no MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento; Paula Bragança, Diretora de Viticultura e Enologia no Monte da Raposinha; e José João Santos, da Revista de Vinhos.

Do convencional ao regenerativo: uma transição passo a passo

A história do Monte da Raposinha é um caso de estudo em transição gradual e consciente. Quando Paula Bragança assumiu a gestão da propriedade familiar em 2017, encontrou uma agricultura convencional. “Comecei a questionar algumas práticas: será que é mesmo importante gradar o solo todo o dia? Podemos retirar o herbicida?“, descreveu. Pequenas perguntas que geraram grandes mudanças.

Em 2019, uma parcela mais isolada serviu de laboratório para a produção biológica. O teste correu bem e, em 2021, o modo biológico foi estendido a toda a vinha. Os resultados são agora visíveis: em algumas parcelas, a matéria orgânica do solo aumentou 1% desde 2014 – “pode parecer pouco, mas é muito bom“, sublinhou Paula Bragança. Afirmação que foi corroborada por Maria João Cabrita. A diversidade do coberto espontâneo melhorou progressivamente, com aparecimento natural de leguminosas. A biodiversidade animal explodiu: “Tenho uma aplicação para identificar espécies de pássaros na vinha e é fantástico ouvir a quantidade de sons diferentes“.

A experiência de Miguel Queimado, produtor na região dos Vinhos Verdes, em Monção, reforça a ideia de que a transição não tem de ser dramática nem cara. Há 20 anos, Miguel Queimado simplesmente parou de mobilizar o solo e melhorou a gestão do coberto vegetal. Resultado: a matéria orgânica da sua exploração está hoje nos 6%. “Não houve perdas de produção, nem foi difícil“, resumiu, desmontando o mito de que as práticas regenerativas são inviáveis em regiões húmidas. “A abordagem é holística: garantir que o ecossistema funciona harmoniosamente, para que resista a condições adversas sem precisar de uma luta química permanente“.

Da semente ao prato: o modelo Terramay

Um dos projetos mais ambiciosos presentes no debate foi o Terramay, apresentado pelo seu cofundador e diretor-geral David de Brito. Com 562 hectares junto ao Alqueva, o projeto produz cerca de 85 toneladas de hortícolas e frutas, 50 toneladas de cereal, 15 toneladas de carne, 15 mil ovos por ano e 2 mil litros de azeite – tudo escoado para os próprios restaurantes ou vendido online como refeições pré-cozinhadas, sem qualquer intermediário.

“Desde que colocamos a semente no chão até que a comida chega ao prato, somos nós que fazemos todo o caminho“, explicou David de Brito. A integração vertical não é apenas uma estratégia económica – é uma forma de “levar a discussão da regeneração para o prato“, tornando o conceito tangível para o consumidor urbano.

A filosofia do projeto assenta no combate a quatro formas de desertificação: natural, económica, social e cultural. “Não há nenhum produto que não seja proveniente da natureza – é a economia que deve alavancar a natureza, e não o contrário“, argumentou David de Brito. A componente animal é considerada essencial: os animais integram-se nos ciclos naturais, auxiliam nos objetivos ecológicos e contribuem para a produção. Para este ex-consultor digital que plantou a sua primeira alface aos 30 anos, numa varanda em Berlim, a mudança foi radical – mas necessária.

Regenerative Wine Fest
Da esquerda para a direita: João Raposeira, Representante da Vinha Viva, Associação Portuguesa de Viticultura Regenerativa; Miguel Queimado, produtor na região dos Vinhos Verdes; Pedro Santos, Diretor Geral na Consulai; Georgete Félix, Consultora na área da Sustentabilidade e ESG; e José João Santos, da Revista de Vinhos.

O custo de não fazer nada

O segundo painel do festival centrou-se nos aspetos financeiros da transição – e trouxe uma perspetiva que inverteu a lógica habitual do debate. Para a consultora Georgette Félix, especializada em sustentabilidade com passagem por instituições como o IVV e a Estação Viticultura Nacional, a pergunta não é quanto custa mudar, mas quanto custa não mudar.

“O maior custo que pode existir é o custo da inação“, afirmou Georgette Félix. “Se eu mantiver um modelo que continua a degradar o solo – um ativo crucial para a minha produção -, alguma coisa vai correr mal. Isso é irresponsável e é perder o comboio da competitividade“. A consultora argumentou que as perdas de produtividade resultantes de solos degradados têm um custo económico real que raramente é contabilizado, mas que se acumula ao longo dos anos.

A transição tem, naturalmente, custos associados. O consultor João Raposeira, representante da Vinha Viva – Associação Portuguesa de Viticultura Regenerativa -, estimou que o período de transição típico dura entre três a cinco anos, com impactos potenciais na produtividade. As perdas inicialmente temidas de 5 a 10% “na maior parte dos casos acabam por não se concretizar“. E quando existem, são frequentemente compensadas pela redução de gastos com inputs e pela possibilidade de valorizar o produto.

“Não consigo fazer verde se tiver as contas no vermelho“, resumiu João Raposeira, citando um dos princípios orientadores da consultoria que pratica. A mensagem foi clara: a sustentabilidade ambiental e a sustentabilidade financeira não são opostos – são condições mútuas.

Apoios insuficientes, inovação financeira necessária

O debate sobre financiamento revelou um paradoxo: o sector financeiro internacional está mais avançado do que as políticas públicas europeias na valorização da agricultura regenerativa. Georgette Félix apontou o exemplo da taxonomia ambiental da União Europeia, que já reconhece a agricultura de conservação como uma atividade com contributo positivo para a mitigação climática, abrindo portas a condições de crédito mais favoráveis para projetos regenerativos.

Em Portugal, os apoios existentes – nomeadamente os eco regimes da Política Agrícola Comum (PAC) e as medidas de conversão biológica – são considerados insuficientes. “Há trabalho a fazer no sentido de consolidar medidas e dar-lhes mais corpo financeiro“, reconheceu Georgette Félix, defendendo a necessidade de instrumentos de inovação financeira que combinem capitais públicos e privados para financiar a transição. A proposta de reformulação da PAC a partir de 2028 inclui medidas baseadas em resultados e indicadores simplificados que podem encaixar nos princípios regenerativos, mas com um corte orçamental real de 17% nas medidas ambientais.

Pedro Santos, CEO da Consulai, deu o exemplo de uma medida de pagamento por resultados aplicada ao montado, onde o agricultor é pago por indicadores concretos de resiliência e regeneração – presença de espécies indicadoras, proteção da regeneração natural, composição florística do pasto – como modelo inspirador para o sector vitivinícola.

O Alentejo lidera… e partilha o que sabe

Um dos momentos mais marcantes do festival foi a apresentação de João Barroso, diretor do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA). Lançado há mais de uma década, quando a palavra sustentabilidade era ainda rara no vocabulário vitivinícola português, o programa tornou o Alentejo numa das regiões vitivinícolas mais avançadas do mundo nesta matéria – num grupo restrito ao lado da Califórnia, Chile e Austrália, apesar de representar apenas 0,3% da área de vinha global.

O programa conta atualmente com cerca de 140 membros – adegas e viticultores -, representando 65% da área de vinha da região. Destes, 28 estão certificados, abrangendo 9.000 hectares (30% da área total). Tudo numa base voluntária e gratuita. “O projeto não é feito com uma certificação, é feito para criar resiliência“, sublinhou João Barroso.

O próximo passo é integrar formalmente os princípios regenerativos no PSVA. Para tal, foi estabelecida uma parceria com a Vinha Viva (nacional) e a Regenerative Viticulture Foundation (Reino Unido), com o lançamento previsto do “One Block Challenge” na Adega Cooperativa de Borba: uma parcela cultivada de forma regenerativa será comparada com uma de produção clássica, com monitorização detalhada dos resultados. Será o primeiro caso de estudo deste género na Europa Continental.

A escolha de uma cooperativa – um universo complexo de associados com diferentes perfis e resistências à mudança – não é inocente. “Queremos que o exemplo chegue também a quem ainda não está convencido“, disse Barroso.

Clarificar para não confundir

Um dos temas mais debatidos nos dois painéis foi a necessidade de clarificar conceitos. A proliferação de certificações, alegações de sustentabilidade e práticas díspares rotuladas de “regenerativas” está a criar confusão no mercado – e a prejudicar quem trabalha de forma séria.

A Vinha Viva nasceu precisamente para “combater o ruído“, nas palavras do seu representante. A associação pretende criar espaços de discussão, formação e transferência de conhecimento sobre o que é e o que não é viticultura regenerativa. A posição do grupo é clara: a agricultura regenerativa pressupõe a agricultura biológica – isto é, a ausência de produtos de síntese -, mas a recíproca não é verdadeira. Quem pratica regenerativo pratica biológico; quem pratica biológico não está necessariamente a regenerar o solo.

A distinção legal é clara: a agricultura biológica é a única certificação europeia que proíbe legalmente o uso de pesticidas, herbicidas e adubos minerais de síntese. Sem uma regulamentação equivalente para o regenerativo, qualquer produtor pode afirmar que o pratica sem que seja possível verificar. A exigência de clareza regulatória – a nível nacional e europeu – foi um dos pedidos mais repetidos ao longo dos dois painéis.

Miguel Queimado foi direto: “Enquanto a União Europeia não definir a preto e branco o que é o regenerativo, cada um inventa o que quer. E isso não depende só de nós – depende de nós coletivamente“.

O consumidor como parte da equação

A questão final – e talvez a mais difícil – é saber se o consumidor está disposto a pagar mais por um vinho produzido de forma regenerativa. A resposta dos intervenientes foi honesta: depende de qual consumidor. O comprador de garrafeira, com algum conhecimento do mundo do vinho, tende a valorizar estas práticas. O comprador de grande distribuição, que considera que um vinho de 3 euros é bom e um de 5 euros é para uma ocasião especial, desconhece o que está por trás da produção.

O sector enfrenta, segundo os participantes, um problema sério de comunicação. “O sector é tão confuso a comunicar que mais uma coisa é só mais uma coisa para confundir“, resumiu Miguel Queimado. A solução não passa por sprints comunicativos, mas por uma maratona de construção de imagem de marca conjunta para os vinhos portugueses que inclua os valores da sustentabilidade e regeneração – educando o consumidor a longo prazo.

Pedro Santos deixou uma nota de esperança: “O consumidor tem de entender esta mais-valia. Quando comprar um vinho, está a alimentar um processo todo que é resiliente e sustentável“. O caminho é longo, mas o destino está traçado. E no Alentejo – e não só -, há cada vez mais produtores a percorrê-lo.

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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