Mapa geográfico do Golfo de Omã e do Estreito de Ormuz, destacando países como Omã, Emirados Árabes Unidos e Irão. Foto Below the Sky/Shutterstock
Mercado

Ormuz ameaça recuperação da Zona Euro e próximas campanhas do retalho

A recuperação da Zona Euro enfrenta um novo travão devido ao recrudescimento do conflito no Médio Oriente e à paralisia logística no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do comércio mundial.

Segundo o relatório “European Economic Outlook”, da KPMG, o impacto da crise vai além da energia e ameaça diretamente as cadeias de abastecimento na Europa.

A crise está a encarecer a logística, a pressionar os custos de produção em centros de aprovisionamento asiáticos e a criar novos riscos para as próximas campanhas do retalho europeu.

Custos de transporte sobem 55%

De acordo com a análise, o aumento dos preços da energia está a traduzir-se em maiores custos de transporte, com os preços do combustível a subirem 55% desde o início do conflito.

Para o retalho, em particular para sectores globalizados, que dependem de fluxos constantes entre a Ásia e os mercados europeus, este aumento representa uma pressão adicional sobre margens operacionais já tensionadas.

O encarecimento dos fretes poderá também desestabilizar estratégias de aprovisionamento já planeadas para as próximas campanhas, num momento em que as empresas tentam equilibrar preço, disponibilidade de produto e preservação de margens.

Dependência energética da produção asiática agrava risco

Ao contrário da guerra na Ucrânia, cujo impacto energético se concentrou sobretudo no gás da Europa Central, a atual crise em Ormuz afeta um conjunto mais amplo de matérias-primas e cadeias produtivas.

A KPMG alerta para a elevada dependência das fábricas têxteis e de produção na Ásia face ao petróleo e ao gás do Médio Oriente. A interrupção destes fluxos está a gerar um aumento abrupto dos custos nos principais hubs asiáticos de aprovisionamento.

Esta pressão poderá refletir-se não apenas nos custos logísticos, mas também no preço final de bens de consumo, incluindo vestuário, calçado e outras categorias não alimentares.

Inflação na Zona Euro poderá atingir 3,1%

O relatório da KPMG estima que a inflação média da Zona Euro volte a subir, atingindo 3,1% em 2026. Segundo a consultora, os efeitos indiretos do choque deverão prolongar o impacto para além dos componentes energéticos, mantendo pressão sobre uma cesta de preços mais ampla.

Neste contexto, as empresas europeias poderão tornar-se mais rápidas a transferir aumentos de custos para os preços finais, depois da experiência acumulada durante a crise inflacionista de 2022.

Assim, o consumidor europeu volta a estar no centro da pressão. Segundo a análise, o índice de expectativas do Banco Central Europeu mostra que as famílias antecipam uma queda dos seus rendimentos reais nos próximos 12 meses. Esta expectativa está a penalizar a confiança dos consumidores e a levar os agregados familiares a rever padrões de compra, com redução do gasto discricionário.

Categorias como moda, calçado, mobiliário, eletrónica e outros bens não essenciais tendem a ser particularmente vulneráveis em períodos de inflação, incerteza e perda de poder de compra.

Sul da Europa pode resistir melhor

Apesar do enfraquecimento da procura, o consumo deverá continuar a ser o principal motor da economia europeia em 2026.

A Zona Euro deverá evitar uma recessão técnica graças, sobretudo, à solidez do mercado laboral. Economias do sul da Europa, como Espanha e Itália, beneficiam de taxas de desemprego historicamente baixas, que funcionam como amortecedor para o rendimento das famílias.

Já os mercados do norte da Europa e da Escandinávia, como Finlândia e Dinamarca, poderão sofrer um impacto mais severo, devido a mercados laborais mais arrefecidos e taxas de desemprego acima das respetivas médias históricas.

Menor margem para recorrer à poupança

A KPMG identifica outro fator de preocupação para as marcas de consumo: apesar de as taxas de poupança continuarem elevadas, o stock de ativos financeiros das famílias é inferior, em termos reais, ao registado em 2021.

Isto significa que os consumidores terão menor capacidade para recorrer às poupanças de forma a manter o nível habitual de despesa, caso o conflito se prolongue. Para o retalho, esta limitação poderá agravar a pressão sobre campanhas comerciais, promoções e estratégias de preço.

PIB da Zona Euro revisto para 0,9%

No plano macroeconómico, as previsões de crescimento do PIB da Zona Euro foram revistas em baixa para 0,9% em 2026.

As políticas públicas deverão oferecer pouco apoio adicional ao sector comercial. Apesar de a Comissão Europeia manter ativo o quadro temporário de ajudas ligado à crise no Médio Oriente, o reduzido espaço fiscal dos governos, após choques sucessivos nos últimos anos, deverá limitar novos estímulos económicos.

O impacto da crise deverá variar consoante o mix energético de cada país. Itália e Irlanda, mais dependentes do gás, deverão enfrentar pressões inflacionistas mais fortes. Já Espanha surge, segundo a análise, numa posição relativamente mais resiliente, devido ao investimento feito no reforço da capacidade renovável desde o choque energético de 2022 e à menor dependência do gás.risco logístico passou a ser uma variável central na gestão do retalho europeu.

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