Mapa do Médio Oriente com marcadores posicionados sobre o Irão, Israel e Estados Unidos, simbolizando as tensões geopolíticas e os equilíbrios de poder na região Foto Shutterstock
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Conflito no Médio Oriente ameaça produção de bens de consumo duradouros

A Crédito y Caución publicou um relatório sobre as perspetivas do sector dos bens de consumo duradouros, antecipando uma desaceleração da produção em 2026 devido ao aumento dos preços provocado pelo conflito no Médio Oriente.

O sector é descrito como estruturalmente exposto a riscos geopolíticos e económicos, incluindo a volatilidade dos preços das matérias-primas, a queda dos mercados acionistas e a instabilidade nos custos de energia.

De acordo com a seguradora de crédito, o aumento dos preços da energia, dos fertilizantes e das matérias-primas agrícolas deverá elevar a inflação global para um pico de 4,4% no segundo trimestre de 2026, pressionando o rendimento disponível das famílias e reduzindo a capacidade de consumo em categorias não essenciais.

Menor rendimento disponível trava compras de maior valor

Os bens de consumo duradouros, como eletrodomésticos, mobiliário e eletrónica de consumo, são particularmente vulneráveis a este contexto por não serem produtos essenciais e exigirem, em regra, um desembolso mais elevado por parte dos consumidores. A Crédito y Caución sublinha que a subida da inflação e dos custos das matérias-primas reduz a capacidade de consumo das famílias, levando muitos consumidores a adiar ou cancelar compras de maior valor.

O impacto deverá sentir-se nas vendas de eletrodomésticos e mobiliário, mas também na eletrónica de consumo, num momento em que os produtores enfrentam simultaneamente custos mais elevados de energia e de determinados inputs.

Zona Euro deverá crescer apenas 0,7%

A produção de bens de consumo duradouros deverá abrandar a nível global em 2026. Na Europa, incluindo União Europeia e Reino Unido, o relatório aponta para um crescimento de apenas 0,7% em 2026, depois de uma recuperação de 5% em 2025.

As principais economias europeias deverão enfrentar um quadro mais adverso. Em França, a Crédito y Caución prevê nova contração das vendas de bens de consumo duradouros em 2026, depois de dois anos de desempenho fraco. O consumo interno está a ser afetado pelo conflito no golfo e pela incerteza política, enquanto a subida dos preços do petróleo deverá continuar a corroer o rendimento real das famílias. A produção de bens de consumo duradouros deverá recuar 1,8% em 2026

Na Alemanha, o relatório antecipa uma desaceleração do crescimento das vendas a retalho para 0,1% em 2026 e uma contração de 2,1% nos bens de consumo duradouros. A deterioração do sentimento dos consumidores, o aumento dos combustíveis, a inflação e a fragilidade do mercado laboral deverão pesar nas decisões de compra, sobretudo em categorias discricionárias.

Cenário prolongado agravaria impacto

Num cenário de conflito prolongado, com preços do petróleo acima de 150 dólares por barril durante quatro meses e escassez de produtos energéticos refinados, a Crédito y Caución estima que a inflação global poderia subir para 7,7% em 2026. Nesse cenário, o crescimento global das vendas de bens de consumo duradouros cairia para 0,4%, menos 1,5 pontos percentuais do que o atualmente previsto.

Este quadro agravaria a pressão sobre categorias mais dependentes do rendimento disponível e mais sensíveis ao adiamento de compras, como mobiliário, eletrodomésticos e eletrónica.

Por subsector, o relatório aponta para uma evolução desigual. A produção global de bens de consumo duradouros deverá crescer 1,9% em 2026, depois de 1,6% em 2025, mas com diferenças significativas entre categorias.

A eletrónica de consumo deverá crescer 4,4% em 2026, acelerando face aos 0,6% de 2025. Os eletrodomésticos deverão crescer 3,4%, depois de 3,7% no ano anterior. Já o mobiliário deverá continuar em terreno negativo, com uma queda de 1,1% em 2026, após uma contração de 3% em 2025.

Tarifas e protecionismo continuam a ser risco

Além da pressão energética, a Crédito y Caución identifica o aumento das tarifas comerciais e do protecionismo como riscos adicionais para o sector. As tarifas pesam sobre o crescimento económico através do aumento dos custos do comércio internacional, o que pode traduzir-se em preços mais elevados para os consumidores e numa nova redução do rendimento disponível das famílias.

Caso os custos operacionais aumentem de forma substancial, os retalhistas poderão ser obrigados a rever políticas de aprovisionamento, procurar novos parceiros e, sempre que possível, transferir parte dos encargos para os consumidores, de forma a proteger margens já reduzidas.

Pequenos operadores mais expostos a insolvências

O relatório alerta ainda para o risco acrescido enfrentado pelos operadores mais pequenos em mercados avançados. Segundo a Crédito y Caución, o risco de crédito dos retalhistas de bens de consumo duradouros mantém-se elevado em muitos mercados desenvolvidos, com os operadores de menor dimensão particularmente vulneráveis a incumprimentos e insolvências.

O sector opera num ambiente altamente competitivo, com margens estruturalmente reduzidas. A pressão é agravada por promoções mais frequentes, por consumidores que procuram descontos ao longo de todo o ano e pelo aumento da quota dos operadores online, que continua a pressionar o retalho físico.

As empresas de maior dimensão, com reservas de liquidez mais robustas, estarão mais bem posicionadas para enfrentar este contexto de maior incerteza. Já os retalhistas mais pequenos poderão enfrentar dificuldades acrescidas, devido à menor capacidade para negociar condições de fornecimento, absorver aumentos de custos ou aceder a financiamento em condições favoráveis.

A Crédito y Caución sublinha que a disciplina financeira, a gestão de stocks, o controlo da cadeia de abastecimento e a capacidade de adaptação digital serão fatores críticos para atravessar um período em que o consumo discricionário deverá continuar sob pressão.

Sustentabilidade e tecnologia como oportunidades

Apesar dos riscos, o relatório identifica alguns motores de crescimento. Nos mercados emergentes, a urbanização, o crescimento das famílias de rendimento médio, a maior penetração da internet e a digitalização deverão continuar a impulsionar a procura por bens de consumo duradouros.

A tecnologia surge também como oportunidade para os retalhistas, nomeadamente através de experiências de compra imersivas com realidade aumentada e virtual, bem como de chatbots e comércio conversacional, capazes de reforçar a relação entre marcas e consumidores.

A sustentabilidade é outro eixo de crescimento. A venda de produtos ecológicos, reciclados e recondicionados poderá criar novas oportunidades de negócio, à medida que aumenta a aceitação dos consumidores por soluções mais sustentáveis.

Para sobreviver num contexto mais digital, competitivo e pressionado nas margens, os retalhistas físicos terão de reforçar serviços, desenvolver canais online e investir em capacidades digitais.

A Crédito y Caución alerta, contudo, que esta transformação exige investimento significativo e disponibilidade para mudar, o que pode ser particularmente difícil para operadores de menor dimensão, num cenário de margens apertadas e maior pressão sobre a tesouraria.

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