Cliente efetua pagamento com cartão num ponto de venda, enquanto segura um saco de compras, ilustrando uma experiência de compra em ambiente de retalho

Grande consumo cresce 5,7% em julho, com marcas próprias a liderar e Mundial a reforçar tendências já em curso

Dados da NielsenIQ mostram desaceleração face ao crescimento homólogo de 2025, mas confirmam a recuperação das marcas de fabricante e uma clara aceleração da Higiene do Lar

O mercado português de bens de grande consumo (FMCG) cresceu 5,7% em valor na quadrissemana 25 a 28 de 2026 – o período entre 16 de junho e 13 de julho -, face ao mesmo intervalo do ano passado. O dado, avançado pela NielsenIQ no seu mais recente relatório Scantrends, representa uma desaceleração face aos 8,2% registados em igual período de 2025, mas marca uma aceleração clara face às duas quadrissemanas anteriores, num sinal de que o consumo está a recuperar fôlego depois de um andamento mais moderado.

As marcas próprias continuam a ser o principal motor deste crescimento, com uma subida de 6,5%, mas o destaque do período vai para a recuperação das marcas de fabricante, que aceleraram para 4,9%, aproximando-se do ritmo da distribuição depois de vários períodos mais discretos. Em termos acumulados, o mercado cresce 4,7% no ano (YTD 28/26), abaixo dos 7,2% do período homólogo do ano anterior, confirmando uma trajetória de normalização do crescimento em valor face aos anos de forte inflação alimentar.

Higiene do Lar acelera para o valor mais alto do ano

A leitura por categorias confirma que a recuperação não é uniforme. A Higiene do Lar foi a categoria com melhor desempenho, com um crescimento de 7,6% – o mais forte dos últimos doze meses -, impulsionada tanto pelas marcas próprias (+8,4%) como, sobretudo, pelas marcas de fabricante (+6,8%), que saem de um ano mais cinzento para atingirem a sua expressão mais forte em 2026.

A Alimentação, categoria com maior peso no cabaz (41,1% das vendas em valor), cresceu 5,6%, aproximando-se do padrão do último ano, com as marcas próprias (+6,7%) a superarem as marcas de fabricante (+4,1%), ainda que ambas tenham acelerado a ritmos semelhantes. Já a Higiene Pessoal cresceu 5,4%, com as marcas de fabricante a registarem um dos ritmos mais fortes do ano e as marcas próprias a regressarem aos níveis de crescimento anteriores às quebras dos períodos mais recentes.

A nota mais distinta é a das Bebidas, que arrefeceu para 5,6% depois de uma forte recuperação anterior. Nesta categoria, as marcas próprias caíram para 2,7% – a primeira vez em todo o ano em que crescem menos do que as marcas de fabricante, que mantiveram um desempenho robusto de 6,5%.

No conjunto, o peso da marca de distribuição e primeiros preços (MDD+PP) no mercado atinge já 49,5% em valor no acumulado do ano, mais 1,3 pontos percentuais do que em 2025, com destaque para a subida na categoria de Bebidas, onde a quota da marca própria passou de 23,9% para 25,2%.

Mundial amplifica tendências

A quadrissemana em análise coincidiu quase na totalidade com o Mundial de Futebol de 2026, o que levou a NielsenIQ a olhar com mais atenção para o impacto do torneio nas dinâmicas de consumo. A conclusão da consultora é clara: mais do que gerar novos comportamentos de compra, o Mundial parece ter amplificado tendências que já vinham a moldar o mercado ao longo do ano, organizadas em torno de três eixos – conveniência, ocasiões sociais em casa, e cuidado pessoal e bem-estar de verão.

Do lado da conveniência, os Componentes de Refeições Congeladas dispararam 14,0%, posicionando-se entre as categorias com melhor desempenho do período, com as Refeições Prontas, as Sobremesas e outros Componentes de Refeições a ganharem também peso face ao acumulado do ano. O movimento é consistente com o Estudo de Consumo OOH da NielsenIQ, segundo o qual 76% dos inquiridos afirmam ter comprado refeições prontas nos últimos três meses. Em sentido inverso, as categorias associadas à preparação tradicional das refeições perderam terreno: os Produtos de Embalagem e Conservação caíram 4,5%, as Gorduras Alimentares 1,2% e as Gorduras Líquidas 0,5%.

As ocasiões sociais, por seu turno, mudaram-se para casa. Apenas 15% dos consumidores dizem ter aumentado a frequência de consumo fora do lar, com os encontros sociais a serem o principal motivo para esse aumento – e essa procura refletiu-se no retalho. Os Aperitivos mais do que duplicaram o ritmo de crescimento, para 6,1%, enquanto o Queijo e os produtos de Limpeza do Lar também reforçaram a sua importância face à tendência acumulada do ano. A Cerveja cresceu 3,5%, acima do seu ritmo médio anual, mas abaixo do que seria expectável num grande torneio de futebol – a NielsenIQ atribui esse comportamento à forte procura da categoria no canal HORECA em junho (+5,5%), sinal de que parte relevante do consumo associado ao Mundial ocorreu fora de casa. As Sidras e Panachês, entretanto, cresceram 9,9%, prolongando a boa dinâmica que já vinham a demonstrar ao longo do ano.

Por fim, a chegada do verão reforçou a aposta dos consumidores no cuidado pessoal e na estética. Além do esperado bom desempenho dos Produtos Solares, destacaram-se a Higiene Oral (+17,0%), a Maquilhagem (+13,2%), os Perfumes (+11,9%) e os Cremes para a Pele (+10,0%). Os Suplementos e produtos de Controlo de Peso, categoria que já vinha a acelerar ao longo do ano, cresceram 12,8%, confirmando a valorização crescente da saúde e do bem-estar por parte dos consumidores portugueses.

Supermercados grandes continuam a ganhar terreno

A análise por canal confirma a tendência dos últimos anos: os Supermercados Grandes foram o canal com maior crescimento, 8,7% na quadrissemana em análise, reforçando o seu peso para 58,0% do total do mercado. Os Hipermercados cresceram 5,5% e mantêm 21,1% de quota, enquanto os Supermercados Pequenos abrandaram para 1,8%. Já o Livre Serviço foi o único canal a recuar, com uma queda de 5,0% face ao período homólogo, reduzindo a sua importância no total do consumo nacional.

Em síntese, os dados da NielsenIQ traçam o retrato de um mercado de grande consumo em recuperação, mas mais seletivo: cresce com mais força onde entrega conveniência, momentos de convívio em casa e cuidado pessoal, enquanto continua a afastar-se dos hábitos mais tradicionais de preparação das refeições – um movimento que o Mundial de Futebol de 2026 não criou, mas ajudou a tornar mais visível.

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Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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