O código de barras linear que nasceu em 1974 e hoje está em mais de mil milhões de produtos está a chegar ao fim da sua era de exclusividade. Cinquenta anos depois, a GS1 lidera uma transição que promete transformar não apenas a forma como os produtos são identificados, mas tudo o que essa identificação carrega: rastreabilidade, sustentabilidade, informação ao consumidor, conformidade regulatória. A mensagem que saiu da 14.ª Conferência Supply Chain do Retalho, organizada pela GS1 Portugal a 18 de junho no Auditório do IAPMEI, em Lisboa, foi de urgência temperada com pragmatismo: a era 2D não é uma tendência futura – é uma realidade em construção.
Reunindo especialistas nacionais e internacionais em torno do mote “Do código à inteligência – A nova era 2D”, o evento, organizado pela GS1, percorreu o arco completo da transição: do enquadramento regulatório do Passaporte Digital do Produto às experiências concretas de implementação no retalho britânico e brasileiro, passando pelo impacto da inteligência artificial nos perfis de liderança e pelas plataformas que prometem orquestrar cadeias de abastecimento fragmentadas. A conclusão foi consensual entre os oradores: quem ficar à espera terá de percorrer em tempo record uma jornada que os primeiros estão a fazer de forma gradual e controlada.
O passaporte digital do produto: uma obrigação que se constrói agora
A abertura da manhã coube a Maria João Graça, vogal da direção do Instituto Português da Qualidade (IPQ), que apresentou o enquadramento regulatório do Passaporte Digital do Produto (DPP). Inserido no Regulamento de Ecodesign da União Europeia – o Regulamento 1781/2024 -, o DPP aplica-se a todos os produtos físicos, com exceção de medicamentos e materiais de defesa e segurança. As áreas prioritárias de implementação incluem baterias, veículos elétricos, têxteis e produtos de construção.
A responsável explicou que o DPP se articula com um sistema regulatório a três níveis: o próprio regulamento como base legal, os atos delegados que definem requisitos sectoriais, e as normas técnicas que tornam esses requisitos operacionais. Estas normas, uma vez publicadas no Jornal Oficial da União Europeia, tornam-se obrigatórias para todos os Estados-membros. O IPQ criou a Comissão Técnica 228 (CT228), presidida e secretariada pela GS1 Portugal, que participa ativamente na elaboração dessas normas ao nível europeu. Neste momento estão já publicadas seis normas, com mais duas previstas para setembro de 2026, abrangendo temas como interoperabilidade, gestão de dados, direitos de acesso e segurança.
Sobre o conteúdo do passaporte, Maria João Graça detalhou que cada DPP deverá incluir informação sobre materiais utilizados (incluindo reciclados), origem dos componentes, pegada carbónica, reparabilidade (expressa em grau alto, médio ou baixo) e reciclabilidade. “O maior desafio são os dados“, sublinhou a responsável, alertando que muitas empresas já possuem grande parte da informação necessária, mas o trabalho está em organizá-la, validá-la e estruturá-la.
Quanto a prazos, a mensagem foi inequívoca: ainda não existe uma data definitiva de implementação obrigatória. “Não é em 2026, nem em 2027, nem em 2028. Estamos a construir o processo“, admitiu a vogal, recomendando às empresas que não esperem pelos atos delegados para avançar. A checklist que deixou ao auditório incluía mapear os dados existentes, identificar lacunas, avaliar os sistemas de informação, reforçar a rastreabilidade na cadeia de fornecimento, adotar identificadores normalizados e acompanhar os trabalhos da CT228 – onde, sublinhou, ainda é possível influenciar o resultado das normas.
Roadmap 2D: de 1974 ao único código com infinitas possibilidades
Artur Andrade, diretor de Community Engagement da GS1 Portugal, tomou o pódio para apresentar o roadmap da integração da codificação bidimensional, desde a necessidade à operacionalização. Situando a história, recordou que o código de barras linear EAN-13 – que hoje está em mais de mil milhões de produtos em todo o mundo e é lido dez mil milhões de vezes por dia – nasceu em 1974. Cinquenta anos depois, a GS1 lidera a transição para uma nova geração.
A necessidade desta mudança resulta da convergência de várias forças: a crescente exigência regulatória – rastreabilidade, circularidade, sustentabilidade, conformidade -, as expectativas dos consumidores por mais informação e transparência, e os requisitos das cadeias de retalho. Para responder a todas estas necessidades num único código, a GS1 desenvolveu o QR Code powered by GS1 e o GS1 DataMatrix, suportados pelo standard GS1 Digital Link. A diferença fundamental face a um QR code comum é que o QR Code powered by GS1 transporta informação offline (o GTIN do produto), pode ser reencaminhado para múltiplas páginas online, pode ser atualizado dinamicamente sem alterar o código impresso e – crucialmente – funciona na linha de caixa (POS). “O GS1 Digital Link faz a ligação do mundo físico ao mundo digital dos produtos“, sintetizou Artur Andrade.
A adoção global já é expressiva, com first movers como Tesco, Mercadona, Woolworths, Coca-Cola, Unilever, Adidas, Pepsico, Nestlé, L’Oréal, Metro, Migros e Kraft Heinz. Artur Andrade partilhou casos de uso concretos: na Austrália, a rastreabilidade de citrinos com QR GS1 Digital Link em mais de 50.000 etiquetas de caixas para grossistas; a Woolworths com melhorias de produtividade até 21% graças à gestão de datas de validade via Data Matrix; a viagem da cereja australiana, onde foi demonstrada a capacidade de fazer um recall desde o produtor até ao consumidor em menos de 60 segundos; e a Parla Deli no Brasil, a primeira loja do mundo a ler um código 2D com GS1 Digital Link, que registou uma redução de 50% no desperdício alimentar. Em Portugal, a Mercadona está já a utilizar o QR code na gestão da rotulagem de produtos perto do fim de validade – tanto em produtos de peso fixo como variável -, integrando no mesmo código o GTIN, lote, data de validade e preço por quilograma.

Transição QR: a realidade da mudança segundo o caso Tesco
Em apresentação online, Anne Godfrey, CEO da GS1 UK, trouxe a perspetiva de quem acompanha de perto a transição mais avançada do sector retalhista mundial. A sua mensagem central foi direta: “Nem todos os QR codes são iguais” – e os QR codes powered by GS1 são, para empresas e consumidores, algo muito especial.
Anne Godfrey situou a transição no tempo com um roadmap claro: entre 2024 e 2025 decorreram os testes de leitura e os pilotos em pequena escala; no momento presente, o maior retalhista britânico está já a digitalizar a nível nacional e a maioria dos retalhistas está a avaliar a capacidade; entre 2027 e 2037 prevê-se o crescimento do número de retalhistas aptos a ler QR no POS, a adoção em escala pelas marcas e a eventual eliminação gradual do código linear. A GS1 estima que nos próximos três anos a maioria dos retalhistas esteja em condições de processar tanto códigos lineares como um conjunto definido de códigos 2D nos pontos de venda.
O caso Tesco foi o exemplo central da apresentação. O percurso do retalhista britânico começou com a atualização tecnológica em 2018, seguiram-se pilotos em 99 lojas com três SKUs (código alfanumérico único atribuído a cada produto e respetiva variante) em outubro de 2024, a construção do caso de negócio interno em dezembro de 2024, a extensão a 12 SKUs em 170 lojas em março de 2025 e a passagem a nível nacional de dois SKUs no final de maio de 2025. Atualmente a Tesco tem 34 SKUs a nível nacional, dos quais 31 são QR-only, distribuídos por carne, pescado e aves, produtos hortícolas e floricultura – as categorias com maior risco de desperdício. O objetivo é chegar a mais de 200 produtos até ao final de 2027.
Os benefícios que justificaram o investimento foram, por ordem de prioridade no caso de negócio: prevenção do desperdício alimentar, simplificação dos processos em loja, conformidade regulatória (nomeadamente a prevenção da venda de produtos fora de validade) e, por último, o envolvimento com o consumidor. “A parte do envolvimento com o consumidor é um ‘nice to have’, mas não foi como conseguiram aprovação do caso de negócio“, esclareceu Anne Godfrey. Os resultados são tangíveis: restrição automática da venda de produtos fora de validade, redução do desperdício, aprovisionamento mais eficiente e início da extensão a etiquetas de promoção e rótulos de prateleira com QR code. Isabela De Pedro, diretora de desenvolvimento e mudança na cadeia de abastecimento da Tesco, citada nos slides, referiu que a empresa está a testar como os QR codes podem ajudar em questões de rastreabilidade, conformidade, sustentabilidade e comunicação na prateleira. A iniciativa gerou ainda mais de 380 peças de cobertura mediática com um alcance combinado de 1,4 mil milhões de contactos.
Para além da Tesco, Anne Godfrey apresentou outros exemplos de aplicação dos QR codes powered by GS1: a Unilever a disponibilizar informação de produto acessível a consumidores com deficiência visual; a Creative Nature a proteger consumidores com alergias através de informação detalhada; e a Bayer a usar os dados de leitura de primeira parte para alimentar campanhas de ativação de media que resultaram num aumento de 30% no retorno do investimento. “Não precisa de ser um grande retalhista para beneficiar“, sublinhou a CEO da GS1 UK.
Leitura de códigos 2D no POS: o caso Supermago no Brasil
Também em formato online, Flávia Ponte B. Serrao da Costa, gestora de Envolvimento Sectorial e Educação da GS1 Brasil, apresentou a experiência brasileira de leitura de códigos bidimensionais no ponto de venda, focando o caso da cadeia de supermercados Supermago.
O diagnóstico de partida era preocupante: 32,6% das etiquetas emitidas não eram vendidas, com consequências diretas na precisão do stock em autosserviço. As causas identificadas incluíam falta de registos (extravio, consumo, perda), gargalos operacionais e dificuldades de mão de obra. A solução passou pela adoção da plataforma Supermago com integração de inteligência artificial – capaz de gerar dicas de venda e alertas de falta ou excesso de stock com base nos padrões de venda e na informação de gôndola em tempo real.
Os resultados foram expressivos: aumento de 35% na eficiência operacional, 95% de precisão no stock de autosserviço e zero bloqueios de produtos vencidos no PDV. “O código 2D é o divisor de águas para um consumo mais saudável e inteligente“, afirmou Patrícia Machado, diretora da Supermago, citada nos slides da apresentação.
Integrar sistemas proprietários sem duplicar dados nem comprometer a segurança
Na sessão de perguntas e respostas que se seguiu às apresentações da manhã, um participante colocou uma questão prática: como podem empresas com sistemas internos proprietários integrar-se nos standards GS1 sem duplicar dados ou criar problemas de identidade e segurança? A resposta da GS1 Portugal esclareceu o mecanismo dos Identificadores de Aplicação (AIs), a estrutura normalizada que permite codificar diferentes tipos de informação nos códigos 2D. Existem mais de 150 AIs pré-definidos – o “10” para o lote, o “17” para a data de validade, entre outros -, mas há também uma série específica, a série “90”, reservada para utilização interna. Esta série permite que as empresas integrem informação proprietária nos seus códigos sem necessidade de normalização global, mantendo a compatibilidade com o standard GS1. Quando uma necessidade de informação se torna recorrente em múltiplas empresas e mercados, o grupo GSMP (Global Standards Management Process) avalia a criação de um novo AI permanente.
Competências para o futuro: a IA liberta-nos do trabalho que ninguém quer fazer
Maria da Glória Ribeiro, managing partner da Amrop Portugal, trouxe ao evento uma reflexão sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho e no perfil dos líderes do futuro. Com base no trabalho quotidiano da consultora de recrutamento de executivos junto de grandes e médias empresas, a responsável sistematizou o que a IA já faz… e o que não fará nunca.
Do lado das capacidades, a IA democratiza o acesso a dados antes difíceis de recolher, acelera a análise e a tomada de decisão, automatiza tarefas administrativas e repetitivas, e permite que os agentes de IA sintetizem conhecimento complexo em segundos. “O Excel acabou“, declarou com humor, para de seguida matizar: “A IA está a libertar-nos do trabalho que ninguém quer fazer“. Na sua leitura, o processo é comparável às revoluções industriais anteriores – haverá um período de sofrimento e resistência, mas o resultado final será positivo. O paradoxo que sintetizou ficou no ar: quanto mais tecnologia existe, mais importante se torna o fator humano; quanto mais automatização, mais importante se torna a liderança; quanto mais dados, mais importante se torna o discernimento.
Do lado do que permanece humano e insubstituível, Maria da Glória Ribeiro foi categórica: a personalidade, os valores, a intuição, a influência e a liderança. “A inteligência intuitiva não tem localização cerebral definida. Por mais estudos que se façam, não se sabe onde está“, afirmou. Ao contrário dos algoritmos, que fazem previsões lineares com base em dados do passado, a intuição humana navega a não-linearidade. Na avaliação de candidatos, a consultora utiliza entrevistas aprofundadas e assessments precisamente para aceder a dimensões que a IA não consegue capturar: a observação comportamental, a compreensão do contexto, o potencial futuro.
A responsável alertou ainda para a emergência do conceito de “anticarreira” nas novas gerações: profissionais que tomam decisões com base na qualidade de vida e não na progressão hierárquica, dispostos a mudanças radicais de área, a sabáticas e a projetos não convencionais. Para as organizações, a mensagem foi de que as funções 100% remotas são as mais vulneráveis à automação, enquanto a liderança, a inovação e a influência exigem presença física e contacto humano. “Quanto mais automação existe, mais importante é a liderança, porque os que ficam têm de ser sistematicamente motivados à mudança“, concluiu a managing partner.
Mesa-redonda: dores, oportunidades e casos reais de implementação 2D
A mesa-redonda da manhã, moderada por Artur Andrade, reuniu Carlos Caldeira, administrador da Lusiaves, Rui Rodrigues, gestor de equipa na qualidade da Gelpeixe, e Paulo Gaspar, CEO e co-fundador da Brainr. O debate centrou-se nos desafios práticos da integração dos códigos bidimensionais nas cadeias de abastecimento do sector alimentar.
Paulo Gaspar da Brainr sublinhou que a criação de códigos bidimensionais é tecnicamente simples, mas que o verdadeiro desafio está em envolver toda a cadeia – desde a produção às expedições, receções e pontos de venda. Na sua perspetiva, as empresas devem avançar de forma faseada: começar por um produto, depois dois, depois três, para ganhar experiência sem criar disrupção. Identificou como principal obstáculo não a tecnologia em si, mas a preparação dos sistemas operativos internos e a qualidade dos dados que alimentam os códigos. “Quanto mais fábricas vejo, mais vejo que o Excel e o papel ainda estão muito presentes“, observou.
Rui Rodrigues da Gelpeixe confirmou que a empresa está nesse caminho de transição. O sector do pescado é particularmente exigente: a informação associada a cada produto – espécie, lote, data, temperatura de conservação, origem – é densa e dinâmica. “Num momento de recolha de mercado demorávamos três a quatro dias a fazer o recall. Com a rastreabilidade 2D, esse tempo reduz-se drasticamente“, explicou. A Gelpeixe realizou já uma experiência exploratória com código 2D em alguns mercados, com inclusão de informação sobre sustentabilidade e rastreabilidade.
Carlos Caldeira da Lusiaves trouxe a perspetiva de um operador com sete unidades industriais. A empresa avançou com a digitalização de processos de distribuição de dados, integrando a rastreabilidade de lotes, a gestão ambiental e a informação de qualidade. O administrador reconheceu que envolver os fornecedores e produtores mais pequenos foi um dos maiores desafios, tendo sido necessário estabelecer parcerias e projetos-piloto para os trazer na jornada. A ligação direta com o consumidor – permitindo partilhar informação sobre os valores e práticas de sustentabilidade da empresa – foi apontada como um dos fatores mais valorizados pelos clientes.
Quando questionados sobre o maior risco para as empresas que decidam esperar dois ou três anos antes de iniciar a transição, a resposta foi consensual: o mercado não espera. Os consumidores europeus exigirão cada vez mais informação, os retalhistas vão exigi-la aos seus fornecedores, e a regulamentação tornará boa parte dela obrigatória. Quem ficar para trás terá de percorrer em tempo record uma jornada que os primeiros estão a fazer de forma gradual e controlada.
Flowpack: a plataforma que orquestra as cadeias de abastecimento em tempo real
A fechar a manhã, Bárbara Fraga, Executive Director of Supply Chain and Logistics da Logistema, apresentou o Flowpack, uma plataforma colaborativa para o alinhamento das cadeias de abastecimento digitais. A responsável começou por diagnosticar a realidade atual: cadeias cada vez mais complexas, com múltiplos intervenientes, onde a maioria das organizações não tem visibilidade total em tempo real de toda a sua cadeia. “Continuamos a usar e-mails, folhas de cálculo e sistemas que não falam entre si“, reconheceu, descrevendo os custos invisíveis que daí decorrem – efeito chicote, desperdício e falta de agilidade.
O Flowpack posiciona-se como um orquestrador – uma camada de integração que não substitui os ERPs e sistemas existentes (SAP, PHC, Oracle) mas os interliga, permitindo que produtores, distribuidores e retalhistas comuniquem como se fossem uma única organização. A plataforma cria visibilidade em tempo real, permite um planeamento colaborativo sincronizado e faz chegar imediatamente à produção a informação sobre o que está a ser vendido nos pontos de consumo – e vice-versa. A conectividade com os sistemas existentes é descrita como não invasiva e de grande simplicidade.
Entre os impactos concretos que a plataforma proporciona contam-se a redução de custos de aprovisionamento, stocks, transporte e armazenagem, a diminuição dos níveis de desperdício, o aumento do nível de serviço e uma maior resiliência a disrupções. A plataforma incorpora já ferramentas de inteligência artificial e capacidade de ligação a blockchain. Qualquer empresa, independentemente da sua dimensão ou maturidade digital, pode integrar-se no Flowpack e partilhar dados ao longo da cadeia. Nos casos de uso já em desenvolvimento, destaca-se um projeto no sector da aquacultura – integrando indústria e retalho com planeamento ágil suportado por IA e rastreabilidade total – e aplicações no retalho alimentar que reduzem os recursos administrativos e permitem ao fornecedor atualizar informação diretamente.
Bárbara Fraga encerrou com uma provocação: “A pergunta já não é quem vai digitalizar as cadeias de abastecimento. Isso é inevitável. A pergunta é quem vai liderar essa transformação“.







