Pedro Matos, diretor comercial Primor
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Charcutaria em Portugal: “the survival of the fittest”?

A constante escalada do aumento do preço da carne de porco, a nível mundial, provocada pela peste suína africana (PSA), detetada na Ásia, traz várias considerações e realidades escondidas ao negócio da carne, em geral, e da charcutaria, em particular, a nível nacional.

Falando, genericamente, do porco vivo, vemos que, desde o início do ano, o seu preço aumentou de 1,04 euros/quilogramas em janeiro de 2019 para 1,49 euros/quilograma no início de 2020, na bolsa de Lérida (por onde se rege o mercado nacional). Um aumento de mais de 30% em um ano.

Bolsa de Lérida – 31/12/2019

 

E porque aumentou desta forma o preço da carne de porco? Porque a China, simultaneamente maior produtor e consumidor desta “commodity”, teve de abater um terço da sua produção devido à PSA e, por isso, recorrer aos mercados estrangeiros para suprir as suas necessidades internas de consumo. 

Mas a que mercados pode recorrer? Tem obrigatoriamente que recorrer à União Europeia (segundo maior produtor) e aos Estados Unidos da América (terceiro maior produtor). E todos sabemos que, apesar de o governo chinês ter autorizado a importação de umas toneladas de carne aos Estados Unidos, é à Europa que a China mais recorre, por várias razões: capacidade de fornecimento (a Europa produz sensivelmente metade da produção da China mas, ainda assim, o dobro da produção norte-americana), logística e política (guerra comercial China-EUA). 

E esta situação está para durar.

 

E em Portugal?

Há, sensivelmente, um ano, dizia a FPAS (Federação Portuguesa de Associações de Suinicultura) que o grande desígnio do sector seria atingir a autossuficiência até 2030, ou seja, produzirmos internamente, pelo menos, o que consumimos de carne de porco.

Como base, tínhamos dois dados concretos:

1) O consumo dos últimos anos (2015-2017), em que a produção nacional assegurou cerca de 60% do consumo nacional, com um pico de 64%, em 2016 (ano em que o porco esteve historicamente baixo quando comparado com a realidade dos últimos 10 anos).

2) O consumo de carne de porco per capita estava estabilizado nos 43,5 quilogramas/ano.

Mas, para suprir os restantes 40% de consumo, Portugal tem que recorrer a mercados externos. Melhor, a Espanha. Não esqueçamos que 96% das importações de carne de porco têm a sua origem no nosso país vizinho. País esse que é o segundo maior produtor de carne de porco europeu, só ultrapassado pela Alemanha.

Note-se que Portugal ainda não tem sequer protagonismo nesta matéria.

Maiores produtores europeus de carne de porco

 

É certo que, tradicionalmente, o porco está mais barato na Alemanha que em Espanha, mas o processo logístico desvirtua os preços de aquisição pela longa distância a percorrer. E não há porcos para pescar no Atlântico, pelo que…

Assim, temos que nos render às importações oriundas de Espanha, o que nos coloca pressão nos preços (em alta ou em baixa) e que não permitiu, durante anos, que o sector da produção em Portugal evoluísse em termos de qualidade percebida junto do consumidor.

Para ajudar, relembro que a China está a pagar 0,5-1euro acima dos preços comunitários, pelo que é normal que se direcione o fornecimento para este destino em prol das transações intercomunitárias. Espanha (que, relembro, abastece 96% das nossas importações) tinha como principal mercado de exportação a França, mas, em 2019, a China comprou a Espanha mais do dobro do que a França. E, enquanto a China não acertar a balança entre consumo e produção para níveis normais, esta pressão continuará e os preços não baixarão.

Os produtores portugueses veem-se, então, numa situação complicada devido a quatro fatores essenciais:

1) Pressão no “pricing” dos mercados internacionais, com o aumento global da carne de porco devido à procura por parte da China;

2) Quase obrigatoriedade de compra de porcos e carne de porco a Espanha (negócios diferentes, mas com tendências atuais semelhantes);

3) Início das exportações de Portugal para a China no início de 2019;

4) Dificuldade em reconhecer a qualidade da nossa carne, interna e externamente, pela necessidade de importar 40% das necessidades a Espanha.

 

Que faria o leitor se fosse produtor de porcos e os tivesse que vender?

Cada um saberá a sua resposta, mas creio que 99% dos leitores fariam, exatamente, o mesmo que eu: vender ao preço mais caro, seja para Portugal ou para a China. Seja para o talho ou para os grandes grupos de distribuição. Seja para a indústria.

Tal como nós, os produtores espanhóis farão exatamente o mesmo: venderão a quem lhes pagar mais caro! Independentemente se honram ou não contratos fechados anteriormente. E quem se “trama” são os 40% de carne que, tradicionalmente, Portugal importa a Espanha.

Consequência imediata é o aumento de preço que os consumidores portugueses têm visto, ultimamente, na carne de porco, seja no talho ou nos supermercados tão implementados no nosso país. E é esta situação que leva à elevada flutuação de preços nos diferentes canais de venda ao consumidor. Flutuação essa que não é diária apenas devido ao elevado peso (46%) que as vendas promocionais têm em Portugal, o que condiciona os preços ao período de duração dos folhetos.

Resta saber o que acontecerá quando a China equilibrar a balança da produção/consumo. Estaremos nós, União Europeia, em geral, e Portugal, em particular, preparados para isso? Que faremos à carne que produzimos a mais (congelada) na expectativa das compras chinesas? Que acontecerá ao preço do porco e que custos económico-sociais trará?

Sabemos todos que estamos a “navegar na maionese”, sem planificação possível, sem “targets” definidos de “pricing” ou volumes, numa bolha especulativa, mas não há alternativa exceto traçar um plano A, e mesmo um B, para quando a China parar o atual ritmo de importações. O que, mais tarde ou mais cedo, irá acontecer.

Correr riscos é necessário, mas minimizar os seus impactos também.

 

E como fica, então, o atual modelo de negócio da charcutaria em Portugal?

Bem, a charcutaria de suíno vive do fornecimento da carne de porco, que é sempre a principal matéria-prima de qualquer artigo desta categoria. Mas já lá vamos a essa parte.

“First things first”, dizem os nossos antigos aliados. Discrimino alguns dados sobre a categoria em Portugal: a categoria de charcutaria é das mais representadas nos lares portugueses, com uma penetração de 90% (dados Nielsen); é, ainda, uma categoria que se divide em marca própria da distribuição (40% do  mercado) e marcas de fornecedor (60% do mercado).

Se na marca própria é fácil identificar os principais “players” (Sonae, Lidl, Pingo Doce, Auchan, etc.), já nas marcas de fornecedor existe uma diversidade enorme de fornecedores, de norte a sul, sendo as principais a Nobre/Campofrio, a Izidoro/Damatta, a Porminho e a Primor, a norte. No entanto, apenas duas marcas têm cariz nacional: Nobre e Izidoro, que conseguiram, estrategicamente, trabalhar junto do consumidor e do principal canal de distribuição (moderna distribuição) para ganhar essa batalha eterna da distribuição e presença nos lineares (D&D – Distribution&Display).

E é, de facto, na moderna distribuição que se faz o consumo da charcutaria em Portugal. O canal tradicional (Horeca) e profissional têm alguma expressão, mas estão longe do chamado consumo em casa.

A moderna distribuição, entre marca própria e marcas de fornecedores, vale, sensivelmente, 70 a 75% do mercado de charcutaria em Portugal, segundo a Nielsen.

A charcutaria sempre foi um sector com importância no consumo em Portugal, uma vez que compõe grande parte das nossas refeições, desde a sandes com fiambre ao cozido à portuguesa. No entanto, a Organização Mundial da Saúde cada vez mais alerta para o consumo excessivo de carnes processadas, colocando o consumidor português numa posição entre o tradicional e o saudável.

Sendo uma categoria de elevada penetração nos lares portugueses (90%), e que se desenvolve maioritariamente na moderna distribuição, será interessante verificar como se divide o linear da categoria:

 

Como vemos, as principais categorias são o fiambre, o presunto, o bacon e as salsichas. Sendo o fiambre o rei da charcutaria, é importante ressalvar que o consumo do mesmo atravessa uma fase de transição de porco para peru e frango.

No sector de charcutaria, é a marca própria que está em maior destaque no linear, detendo, em média, nos últimos anos, cerca de 40% em acordo com a sua quota de mercado. Sendo que, no Lidl, DIA Minipreço, Aldi e Mercadona, a sua quota conjunta é quase 100%.

Por outro lado, temos as empresas de distribuição tradicionais que, apesar de desenvolverem e diversificarem cada vez mais a sua marca própria, ajudam a desenvolver as marcas dos fabricantes, pois precisam deles para a sua subsistência (investimentos) e porque há marcas que têm sempre que existir devido à sua importância e força de atração de clientes.

Considerando apenas as marcas mais conhecidas da população (Campofrio, Damatta, Izidoro, Nobre e Primor), podemos afirmar que são as marcas do Campofrio Food Group (Campofrio e Nobre) que mais “share of shelf ocupam” (19%).

 

Conhecendo agora um pouco mais sobre o mercado da charcutaria em Portugal, o que nos espera para o futuro, face ao aumento contínuo da principal matéria-prima (carne de porco) da categoria?

Nos últimos 20 anos, assistiu-se a uma degradação de valor acrescentado à categoria. A pressão dos preços provocada pela moderna distribuição, aliada à falta de regulamentação obrigatória do mercado e à tradicional curva cíclica do preço da carne de porco, levaram a que se fosse retirando qualidade aos produtos, de forma a aumentar a sua competitividade (principalmente, promocional). Assim, os produtos começaram a ter menos carne e mais injeção de salmoura, diminuindo custos e permitindo fornecer a moderna distribuição a preços altamente competitivos, como as famosas promoções de 25 e 20% de que os portugueses tanto gostam.

Em suma, em vez de se manter a qualidade dos produtos tradicionais, fazendo o relativo aumento/acerto dos preços de compra e venda anualmente, o que se fez foi destruir o valor do produto para manter os preços durante anos. E, como o consumidor português estava desinformado e vivia com diminutos recursos financeiros, o preço baixo estável promocional era o paradigma de compra.

Com o desenvolvimento tecnológico atual, vivemos numa era de informação à distância de um clique. Facilmente sabemos quase tudo sentados no nosso local de trabalho ou na comodidade da nossa casa. Todos temos mais informação sobre tudo.

Com mais informação, o consumidor tem maior curiosidade em saber o que consome. Não só por questões de saúde, mas também para valorizar o seu dinheiro em custo/benefício.

Porquê comprar fiambre Perna Extra com 70% de carne se pode comprar com 86% de carne ao mesmo preço? Se quero qualidade, como é possível comprar fiambre a 4,99 euros/quilograma, sabendo o preço da carne? Qual a composição do artigo que escolhi? Este produto tem lactose ou glúten? Quais os dados nutricionais deste produto?

São cada vez mais os portugueses que optam por uma alimentação saudável, o que abre portas ao crescimento dos produtos “sem”: sem açúcar, corantes, conservantes, sabores artificiais, organismos geneticamente modificados, glúten, lactose, antibióticos ou hormonas. Este é um segmento de mercado que parece ter um futuro promissor e onde existe grande espaço para a inovação e que começa agora a ser explorado pelos diversos “players” do mercado.

Seis em cada dez portugueses afirmam preocupar-se com a sua saúde e bem-estar e esta preocupação reflete-se nas escolhas alimentares, diz o estudo “Have you met the new consumer?”, realizado pela Deloitte. Melhores notícias ainda para a indústria de alimentação é o facto de 68% dos consumidores dizerem estar dispostos a disponibilizar mais dinheiro por produtos que não contêm ingredientes indesejáveis, onde se incluem os produtos “sem”.

Outro estudo, este da Nielsen, mostra que a preocupação dos portugueses com a saúde é superior à da média europeia: oito em cada dez consumidores acreditam que as refeições preparadas em casa são mais saudáveis do que as pré-confecionadas. Oito em cada dez estão preocupados com os efeitos a longo-prazo do consumo de ingredientes artificiais. 74 em cada 100 fazem as suas escolhas alimentares, tendo em conta a saúde e a prevenção de doenças, como a obesidade, diabetes, colesterol e hipertensão.

Melhor que ninguém, é a moderna distribuição que conhece o shopper/consumidor. Afinal, é lá que ele faz as suas compras e 80% das decisões de compra.

Tendo em conta as considerações acima, e arrumando o nosso raciocínio, temos os seguintes factos:

1) Porco 30% mais caro;

2) Necessidades e importações da China sem fim à vista;

3) Produção portuguesa não chega para o consumo interno;

4) Inevitável recorrer ao mercado espanhol (segundo maior produtor europeu de porco) nas importações portuguesas;

5) Incapacidade de valorizar produção nacional nos mercados;

6) Carne de porco é o maior componente da charcutaria de suíno;

7) Degradação da cadeia de valor e qualidade dos produtos de charcutaria nos últimos 20 anos;

8) Charcutaria tem taxa de penetração de 90% nos lares portugueses;

9) Consumidor mais informado;

10) Preocupações alimentares do consumidor (saúde) aliadas a maior disponibilidade financeira.

Factos estes que estão na linha da frente seja de distribuidores (marca própria, seja de fabricantes (marca fornecedor). E estes têm que se adaptar a um modelo de negócio que não se coaduna mais com qualidades duvidosas, preços sempre baixos, forte atividade promocional e contratos anuais de fornecimento.

Todos têm de entender que o paradigma do preço baixo promocional a qualquer custo acabou. Até porque o consumidor, mais informado, está disposto a pagar mais por produtos que lhe garantam a satisfação das suas necessidades reais e não a comprar “gato por lebre”.

O primeiro “player” a entender esta mudança de paradigma foi uma famosa cadeia alemã que, nos últimos dois anos, melhorou significativamente as fórmulas dos seus produtos de charcutaria, elevando-as a um patamar de qualidade superior que há muito não era visto em Portugal.

Simultaneamente, e por também eles estarem atentos ao consumidor e ao mercado, os restantes “players” começaram a alterar as suas fórmulas e a preocuparem-se mais com a qualidade.

E a chegada da maior cadeia de retalho espanhola veio trazer mais uma incógnita à equação. É que, ali, é a qualidade e a segurança alimentar quem manda.

E quem deveria ter tido esta clara motivação e objetivo mandatório? Os produtores/fornecedores de charcutaria é que deviam ter preparado as suas marcas para este movimento. E muitos não o fizeram e, por isso, estão agora a contas com grandes dificuldades de distribuição e visibilidade no mercado.

Mais grave ainda é que, face ao aumento do preço do porco, nem conseguem abastecer as suas necessidades a montante, pois não há quem lhes venda aos preços necessários para cumprir os contratos fechados. E venda com prejuízo não é solução, até porque é ilegal. E, assim, tentam impor novos “pricings” sobre contratos negociados o que, historicamente, não é saudável nas boas práticas comerciais.

É, por isso, esta a grande oportunidade para criar valor acrescentado à categoria e estabelecer os preços justos pelos produtos. Os diversos agentes da cadeia logística de charcutaria (da produção à distribuição e consumo final) têm de entender que é necessário pagar os preços reais pelos produtos oferecidos e não passar o ónus do preço para a produção que, com o aumento do preço do porco, está com a cabeça já debaixo de água.

Assim, prevê-se uma maior flutuabilidade e instabilidade de preços no mercado, negociações mais duras entre distribuidores e produtores, mas também um aumento da qualidade dos produtos disponíveis ao consumidor e inovação mais frequente, para ir ao encontro das necessidades do consumidor. Novos conceitos de consumo emergem para a categoria: conveniência é regra básica no nosso quotidiano, crianças são o futuro do consumo, seniores (mais 65 anos) serão 25% da população dentro de cinco anos e quem terá maior rendimento disponível.

Os fornecedores têm que fazer os seus planos estratégicos, tendo em conta estas alterações demográficas, económicas e sociais.

Passaremos do primado do preço para o primado da qualidade e do valor acrescentado. Vai demorar tempo (diria dois a três anos), mas todos os agentes irão perceber que é uma realidade incontornável.

Esqueçam preços traçados com contratos anuais. Os preços terão, inevitavelmente, que estar condicionados à “commodity” carne de porco. Só assim se poderá sobreviver.

E apenas os mais fortes sobreviverão.

Como diria Charles Darwin, “it´s the survival of the fittest”!

 

Pedro Matos, diretor comercial da Primor

*o presente artigo reflete a posição individual do seu autor

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