Mão a tocar numa lâmpada amarela entre três lâmpadas brancas, destacando uma ideia escolhida Foto Shutterstock

O consumidor quer novidades, mas já não acredita em qualquer inovação

Após analisarmos, nas duas primeiras partes desta série sobre as tendências identificadas na Alimentaria, um consumidor mais velho, com lares mais pequenos e novos hábitos, e a multiplicação de novos momentos e canais de consumo, a terceira tendência leva-nos diretamente ao produto. Se mudaram as pessoas, os agregados familiares, os horários e as ocasiões de compra, seria expectável que a inovação encontrasse terreno fértil. E encontra-o, até certo ponto. O consumidor continua interessado em experimentar. O problema é que está cada vez menos convencido de que aquilo que as marcas lhe apresentam seja verdadeiramente novo.

Segundo o barómetro de inovação da AECOC, 71% dos consumidores incorporaram um produto novo na última compra e 53% dizem estar proativamente abertos à novidade. Mas 72% dos lançamentos são percecionados como simples ampliações de sortido (novos sabores, texturas ou variantes) e não como inovação disruptiva, capaz de acrescentar uma característica e um valor diferencial à categoria.

Uma extensão de gama já não basta

A contradição é evidente: há disponibilidade para experimentar, mas uma dificuldade crescente em reconhecer inovação. Num mercado onde proliferam novas versões de produtos existentes, mudar o sabor, a textura ou a embalagem pode já não ser suficiente. A novidade tem de ser imediatamente compreendida e responder a uma necessidade concreta. E essas necessidades estão precisamente a mudar.

O consumidor mais velho pode valorizar formatos mais fáceis de utilizar. Os agregados menores procuram quantidades adaptadas e menor desperdício. Quem consome fora dos horários tradicionais valoriza portabilidade, conveniência e rapidez. É por isso que, entre os atributos mais valorizados numa inovação, a embalagem e a sua utilidade prática surgem em destaque, acompanhadas por formulações mais saudáveis, formatos adequados, sustentabilidade e características sensoriais como sabor, odor e textura. A inovação relevante é, cada vez mais, aquela que percebe primeiro a mudança de comportamento e só depois desenvolve o produto.

Saúde cresce, mas o prazer continua a mandar

A saúde é uma das áreas onde essa procura por diferenciação se torna mais visível. Cerca de 36% dos consumidores seguem algum tipo de dieta, incluindo regimes ricos em proteína, keto ou orientados para o controlo do peso.

Paralelamente, aumenta o interesse por alimentos funcionais que prometem acrescentar benefícios relacionados com energia, proteína ou sistema imunitário.

Mas existe uma nuance importante: querer comer melhor não significa abdicar do prazer. O consumidor procura equilíbrio entre saúde e indulgência. Aspira a produtos nutricionalmente melhores, mas continua a escolher fortemente em função do sabor e da experiência.

É neste território que surgem algumas das respostas mais recentes da indústria. Produtos ricos em proteína e vitaminas ganham espaço, as dietas associadas a medicamentos GLP-1 começam a influenciar formatos e porções e aparecem propostas pensadas para consumidores que procuram maior densidade nutricional em quantidades menores.

A Nestlé, por exemplo, desenvolveu a Vital Pursuit, com porções menores e elevado teor de proteína e vitaminas, enquanto surgem já referências apresentadas como “GLP-1 Friendly”. Ao mesmo tempo, Mercadona, Carrefour e outros operadores reforçam a visibilidade de produtos proteicos e suplementos.

Mas a sofisticação convive com um movimento aparentemente oposto: o regresso ao simples. Listas de ingredientes mais curtas, propostas clean label e produtos que recuperam receitas tradicionais mostram que inovação também pode significar retirar complexidade.

O preço tornou-se o grande filtro

Por mais interessante que seja uma novidade, existe uma barreira difícil de ultrapassar: 79% dos consumidores considera a inovação cara e 65% só a compra quando está em promoção.

É uma consequência direta do consumidor que já encontrámos nas primeiras partes desta série: mais atento ao orçamento, com cabazes menores e capaz de alternar entre marca própria e marca de fabricante consoante a categoria e o momento. A inovação tem, por isso, de justificar o prémio que pede.

E o risco para quem lança é elevado. Apenas duas em cada dez inovações vingam no mercado. Além disso, há um problema físico que nenhuma estratégia consegue ignorar: o espaço disponível. “Os lineares não são de borracha, não esticam”, foi uma das frases que resumiu o desafio durante os debates recolhidos pela Alimentaria. Cada novidade que entra disputa espaço com produtos já estabelecidos, com outras novidades e com uma marca própria que também está a sofisticar a sua capacidade de inovação.

A primeira batalha continua a acontecer na loja

Apesar da digitalização crescente do consumo, a descoberta de novos produtos permanece fortemente ligada ao espaço físico. 48% dos consumidores descobre a inovação no ponto de venda e a sinalização das novidades influencia 43% das decisões de compra.

Mas chegar à prateleira não chega. É necessário ser visto, explicar em segundos aquilo que diferencia o produto e dar ao consumidor uma razão para arriscar a primeira compra. É aqui que o trade marketing continua a desempenhar um papel decisivo. E, quando a experimentação acontece, o cenário é mais favorável: 66% dos consumidores fica satisfeito com as novidades que experimenta e 55% manifesta intenção de voltar a comprá-las.

O desafio não parece estar tanto em fidelizar depois de uma boa experiência, mas em conseguir que a inovação ultrapasse o filtro inicial do preço, da relevância e da visibilidade.

Parar de inovar não é alternativa

Apesar de todas estas dificuldades, a indústria não está a recuar. 42% das empresas do sector prevê lançar mais inovação em 2026, considerando-a uma das principais alavancas de crescimento. Porque, se inovar é arriscado, não inovar pode ser ainda mais perigoso.

Os hábitos mudam, as categorias amadurecem e até os produtos de maior sucesso acabam por atingir limites. A questão já não é saber se é necessário inovar, mas como fazê-lo mais depressa, com melhor informação e reduzindo o custo do erro.

É precisamente aí que começará a quarta tendência desta série, a publicar em breve. Porque, se a inovação está sob pressão, a inteligência artificial começa a oferecer à indústria e ao retalho instrumentos para testar, prever e decidir de uma forma que há poucos anos não era possível.

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Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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