Pessoa a recusar um copo de bebida alcoólica oferecido por outra pessoa Foto Shutterstock

Consumo mundial de álcool deverá recuar na próxima década

O consumo mundial de álcool deverá recuar durante a próxima década, num movimento que reflete a pressão sobre o rendimento disponível, a maior preocupação com saúde e bem-estar e a mudança dos hábitos de consumo no pós-pandemia.

Segundo o mais recente estudo anual da IWSR, consultora internacional especializada no sector das bebidas alcoólicas, o consumo deverá diminuir nos mercados globais até 2031, recuperando depois gradualmente. A faturação do sector deverá regressar aos níveis atuais em 2035.

No conjunto da próxima década, a IWSR estima uma descida de 1% no volume global de vendas.

Consumo per capita deverá cair meio litro

A consultora prevê que o consumo mundial anual de álcool por pessoa diminua meio litro nos próximos dez anos. Segundo a IWSR, esta redução equivale, aproximadamente, a duas garrafas de bebidas espirituosas ou a uma caixa de vinho por pessoa por ano.

A estimativa prolonga a tendência recente do mercado: as vendas globais de bebidas alcoólicas recuaram 2% entre o final de 2024 e 2025.

Entre os fatores que explicam a evolução prevista estão o aumento do custo de vida nos países ocidentais e a alteração dos hábitos de consumo após a pandemia.

A maior preocupação com a saúde ganha peso nas decisões dos consumidores, ao mesmo tempo que cresce a influência dos medicamentos para perda de peso, como Ozempic e Wegovy. O estudo reconhece que a comercialização destes fármacos pode ter impacto relevante na procura de bebidas alcoólicas, ao alterar padrões de apetite, rotinas sociais e comportamentos de consumo.

Mercados emergentes ganham peso

Apesar da descida prevista, a IWSR antecipa que o mercado global estabilize, dentro de uma década, em níveis próximos dos atuais.

Dois fatores explicam esta resiliência: o reequilíbrio do consumo para países emergentes e o crescimento da população mundial em idade legal para consumir álcool, que deverá aumentar 9%.

Atualmente, a China é o maior mercado mundial, tanto em valor como em volume. No entanto, ao longo da próxima década, o consumo deverá deslocar-se progressivamente da China, dos Estados Unidos e da Europa para a Índia, a América Latina e África. Segundo as previsões da IWSR, a Índia deverá ultrapassar os Estados Unidos em 2032, tornando-se o segundo maior mercado mundial de consumo de álcool, atrás da China.

A consultora estima que, nos próximos dez anos, o número de bebidas alcoólicas consumidas na China recue 19% face ao ano passado. Nos Estados Unidos, a queda deverá ser de 18%. Também são esperadas descidas no Japão, de 15%, na Alemanha, de 14%, e no Reino Unido, de 13%.

Em sentido inverso, o consumo deverá crescer na Índia, com uma subida de 38%, na Colômbia, com 26%, no Vietname, com 15%, e no México, com 13%.

Vinho deverá ser a categoria mais penalizada

Por tipo de produto, a cerveja deverá ser a categoria mais estável, acompanhando a tendência geral do mercado, com uma descida prevista de apenas 1% ao longo da próxima década.

As bebidas espirituosas, como gin, rum ou vodka, deverão registar uma quebra de 2%.

O maior recuo deverá ocorrer no vinho, cujo consumo poderá cair 14% até 2035, refletindo a pressão sobre mercados tradicionais e a deslocação de preferências para categorias mais leves, práticas e ocasionais.

Mas nem todas as categorias deverão recuar. As bebidas alcoólicas prontas a consumir, conhecidas como RTD (ready-to-drink), deverão continuar a crescer. Nesta categoria incluem-se cocktails pré-misturados em lata, bebidas carbonatadas com destilados e aromatizantes, frequentemente posicionadas como opções mais práticas, leves ou com menor teor calórico.

A IWSR prevê que as RTD cresçam 17% até 2035. A tendência já era visível em 2025: enquanto a cerveja recuou 2% a nível internacional e o vinho caiu 5%, as RTD cresceram 3%.

Outro segmento em crescimento é o das cervejas sem álcool, que têm ganhado espaço em vários mercados ocidentais. As vendas globais desta categoria aumentaram 8%, acompanhando a procura por alternativas com menor teor alcoólico e por opções associadas a estilos de vida mais equilibrados.

Esta evolução confirma uma mudança estrutural no sector: o consumo não desaparece, mas torna-se mais seletivo. “Os consumidores procuram variedade de sabores, conveniência e menor graduação alcoólica”, afirma Luke Tegner, diretor de consultoria da IWSR.

De acordo com a IWSR, o consumo mundial de RTD atingiu pela primeira vez, em 2025, mil milhões de caixas de nove litros, não havendo sinais de que esta tendência esteja perto de abrandar.

Sector terá de se adaptar a novos gostos e geografias

Para Marten Lodewijks, presidente da IWSR, a estabilização prevista no volume mundial de bebidas alcoólicas é uma boa notícia para o sector, mas não elimina os desafios. O responsável sublinha que o panorama do mercado em 2035 será muito diferente do atual, obrigando os produtores a adaptarem-se a mudanças nos gostos dos consumidores nos mercados maduros e a alterações significativas nas geografias de consumo.

As previsões da IWSR apontam para uma década de transição no sector das bebidas alcoólicas. O consumo total deverá recuar ligeiramente, mas o mercado deverá tornar-se mais diversificado em termos geográficos e mais fragmentado em termos de categorias. Para produtores, distribuidores e retalhistas, a próxima fase exigirá capacidade de adaptação a consumidores mais atentos à saúde, mais sensíveis ao preço, mais abertos a propostas de menor teor alcoólico e cada vez mais interessados em formatos convenientes, como as RTD. O futuro do setor não será definido apenas pela quantidade consumida, mas pelo tipo de bebidas escolhidas, pelos momentos de consumo e pelos mercados onde o crescimento ainda existe.

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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