Portugal foi o único país europeu a registar crescimento no mercado cervejeiro em 2025. Os números do impacto económico do sector impressionam – 7,3 mil milhões de euros de efeito total na economia nacional –, mas a Associação Portuguesa de Cervejeiros (APCV) quer mais do que dados: quer que o Governo trate o sector com a seriedade que os números justificam.
A mensagem saiu reforçada da conferência European Brewing Outlook, realizada em Lisboa em junho, que reuniu os maiores especialistas mundiais do sector.
Num panorama europeu marcado pela contração, Portugal destaca-se. O mercado cervejeiro nacional cresceu 0,8% em 2025, numa altura em que vários mercados maduros registam quedas expressivas. Em termos de consumo, 2025 foi o melhor ano de sempre: 6.354 mil hectolitros, o valor mais alto da série histórica. A produção acompanhou esta tendência e atingiu 8.098 mil hectolitros, o nível mais elevado desde 2012.
Carlota Burnay, secretária-geral da APCV – Cervejeiros de Portugal, é a primeira a relativizar o número – “um bom ano para nós é crescer 2% ou mais” –, mas reconhece que há fatores estruturais por detrás desta resiliência: o turismo, que mantém um ritmo robusto, e a comunidade brasileira residente em Portugal, estimada em cerca de um milhão de pessoas, com uma cultura cervejeira muito enraizada.
Outro fator que distingue Portugal de outros mercados é a estrutura do consumo: 70% da cerveja consumida no país é bebida fora de casa, em cafés, restaurantes, bares e espaços de lazer. Esta característica amplifica o efeito multiplicador do sector sobre a economia e é precisamente isso que um estudo recente da Nova School of Business and Economics, encomendado pela APCV, veio quantificar com precisão.
Radiador da economia portuguesa
Os números do estudo são expressivos. Em 2024, as cervejeiras portuguesas faturaram 1.122,48 milhões de euros em vendas diretas (sem IVA), o que corresponde a 0,20% de todas as vendas em Portugal. O output total situou-se em 1.019,04 milhões de euros. O valor acrescentado bruto direto foi de 329,01 milhões de euros, os salários pagos ascenderam a 85,41 milhões de euros e o sector empregou diretamente 2.519 pessoas. Dentro da indústria de bebidas, o peso é ainda mais significativo: as cervejeiras respondem por 25,49% do volume de negócios, 28,52% do VAB e 13,69% do emprego de todo o sector.
João Duarte, investigador da Nova School of Economics e responsável pelo estudo, recorre a uma metáfora para explicar este efeito: “Estes cervejeiros são radiadores que aquecem toda a economia, desde que não haja muitas fugas no quarto”. Em Portugal, há poucas fugas: o fornecimento é maioritariamente nacional – Portugal importa apenas levedura –, e o consumo concentra-se no canal fora de casa, onde cada cerveja consumida arrasta consigo valor acrescentado de restaurantes, cafés e hotéis.
O efeito multiplicador é concreto e mensurável: cada milhão de euros de atividade económica direta gerada pelo sector cervejeiro contribui, em média, para 11,99 milhões de euros adicionais em output na economia, 5,93 milhões de euros em VAB, 2,26 milhões de euros em receita fiscal e 167 postos de trabalho em equivalente a tempo inteiro. Traduzindo este multiplicador para um rácio de emprego: um posto de trabalho direto na indústria cervejeira origina 68 empregos indiretos em sectores relacionados, da indústria vidreira à distribuição, passando pelo retalho e pela restauração.
A produtividade do sector também impressiona: o valor acrescentado bruto por trabalhador cresceu de 105 mil euros em 2021 para 130 mil euros em 2024, um aumento de 24% em três anos. Este valor é quase três vezes a média da economia portuguesa – que se ficou pelos 45 mil euros em 2023 – e quase o dobro da média do sector de bebidas no seu conjunto.
A contribuição do sector para a receita fiscal é igualmente relevante: 2,73% de todos os impostos diretos analisados (Segurança Social, IRS, IRC e IVA). “O sector tem estado a fazer bem, apesar do risco regulatório e fiscal. Mas isto é apesar desse risco, não por causa dele”, sublinha o investigador da Nova SBE.
Quando se contabilizam os efeitos diretos, indiretos e induzidos – incluindo o impacto sobre a restauração e a distribuição –, o efeito total no PIB ascende a 7.331,5 milhões de euros, representando 2,53% do Produto Interno Bruto nacional em 2024. O impacto total em output é de 12.216,6 milhões de euros, o VAB total gerado chega a 6.042,6 milhões de euros e a receita fiscal total mobilizada ascende a 2.300,5 milhões de euros. Em termos de emprego, o sector suporta, direta e indiretamente, 170.283 postos de trabalho em equivalente a tempo inteiro.
“Quando pensamos em mudanças neste sector – fiscais ou regulatórias–, há todos estes efeitos indiretos que têm de ser considerados, não só sobre a economia, mas também sobre o financiamento de eventos sociais e desportivos em todo o país”, reforça o investigador da Nova SBE.
Duas décadas de crescimento zero global
O contexto europeu e global em que Portugal opera é menos favorável. Brent Atthill, managing director da RMI Analytics GmbH e um dos maiores especialistas mundiais em mercados de malte e lúpulo, apresentou na conferência uma análise que sintetiza o estado da indústria numa frase lapidar: em 2009, a produção mundial de cerveja era de 1,824 mil milhões de hectolitros; em 2025, foi de 1,828 mil milhões. 16 anos depois, os volumes são praticamente os mesmos.
A história mais recente é de contração. Os dados das três maiores cervejeiras mundiais (ABInBev, Heineken e Carlsberg) mostram um ciclo de três anos de queda de volumes, entre 2023 e 2025, com uma quebra acumulada de 4%. A causa identificada é clara: em 2021 e 2022, num contexto de inflação elevada e custos energéticos em alta, as cervejeiras subiram os preços de forma agressiva – as receitas cresceram 13,9% em 2021 e 14,6% em 2022. A reação dos consumidores não se fez esperar e os volumes caíram 2,4% em 2023, 0,7% em 2024 e 2,1% em 2025.
O caminho para a recuperação, segundo o managing director da RMI Analytics, passa por uma política de preços abaixo da inflação, mas suficiente para cobrir os custos de inputs, com normalização esperada progressivamente até ao final da década. A projeção para 2026-2028 aponta para uma recuperação acumulada de apenas 2% – ou seja, o sector vai recuperar apenas metade do que perdeu.
Os resultados do primeiro trimestre de 2026 dão os primeiros sinais de melhoria: a ABInBev cresceu 1,2% em volume e 5,8% em receitas; a Carlsberg avançou 0,4% em volume; a Heineken recuou ligeiramente (-0,8%) em volume, mas cresceu 2,2% em receitas. “Uma recuperação menor parece estar em curso, mas precisa de confirmação no Q2/Q3”, conclui Brent Atthill.
O crescimento futuro virá sobretudo dos mercados emergentes: África, Ásia e América do Sul concentram as maiores oportunidades de volume e premiumização para a categoria. A Europa Ocidental está em território negativo e só deve recuperar ligeiramente a partir de 2026. A questão central que a conferência colocou é precisamente essa: como é que mercados maduros como Portugal, Espanha ou França participam no crescimento futuro?
Portugal e os jovens que querem beber menos
A resposta a essa pergunta passa inevitavelmente por perceber o que está a acontecer com os consumidores. Marta Santos, country manager para Portugal da Worldpanel by Numerator, apresentou dados do painel europeu de comportamento de compra que colocam Portugal numa posição particular.
Em 2025, o consumo de cerveja em Portugal caiu no canal fora de casa – o principal motor do mercado nacional. A causa estrutural não é a acessibilidade do produto, mas a perda de compradores: em Portugal, a penetração das bebidas alcoólicas caiu dois pontos percentuais no consumo em casa e um ponto percentual fora de casa face a 2024. O que preocupa a analista não é o volume perdido, mas o tipo de perda: a distinção é relevante, pois o volume é mais fácil de recuperar, ao passo que um comprador que abandona a categoria é muito mais difícil de reconquistar.
Portugal, Irlanda e Espanha são os países onde os jovens com menos de 35 anos mostram maior intenção de reduzir o consumo de álcool: em Portugal, 16% da população total planeia reduzir o consumo, mas entre os com menos de 35 anos esse valor é ainda mais elevado (índice de 126 face à média nacional). Ao mesmo tempo, 41% dos europeus declaram não beber álcool de todo. Em Espanha e Irlanda, os valores de intenção de redução são de 19% e 22%, respetivamente.
A country manager da Worldpanel introduz, porém, uma nuance importante para o mercado português: a água é o principal beneficiário do declínio da cerveja no canal fora de casa em Portugal, enquanto em França a cerveja está a ganhar terreno por via de um afastamento do vinho. E a cerveja sem álcool emerge como alternativa com crescimento sólido: 9% em volume nos três mercados (Portugal, Espanha e França) entre 2023 e 2025. Em Portugal, a penetração desta categoria está nos 8%, muito abaixo dos 34% registados em Espanha, o que significa que o potencial de crescimento é substancial.
Carlota Burnay lembra que o sector cervejeiro português antecipou esta tendência há 30 anos, muito antes de qualquer imposição regulatória ou fiscal: “O sector surgiu, já nasceu a primeira cerveja sem álcool pela moderação dos consumidores, sem qualquer tendência externa”.
O futuro é funcional: probióticos, vitaminas e bem-estar
Se a moderação é um caminho já em curso, a funcionalidade é o próximo campo de exploração. Os dados da Worldpanel by Numerator revelam que os consumidores europeus estão cada vez mais atentos a ingredientes funcionais: 56% consideram os probióticos e alimentos amigos do intestino uma boa compra, 52% dizem o mesmo das multivitaminas e 41% valorizam os suplementos de imunidade.
Portugal lidera em dois destes territórios: é o país em que os probióticos têm maior relevância (a penetração do kefir cresceu oito pontos percentuais entre 2022 e 2025) e em que a adesão a suplementos vitamínicos é mais forte (48% em 2025, face a 32% em 2022). A penetração do iogurte bifidus cresceu quatro pontos percentuais no mesmo período. Esta posição de liderança em Portugal torna o mercado nacional um terreno especialmente fértil para inovação funcional em cerveja.
A proposta que emerge da conferência é concreta: cervejas com culturas vivas e perfil probiótico ou enriquecidas com vitaminas B (naturalmente presentes na cerveja) e vitamina C, D e zinco, com foco em produtos de baixo ou zero teor alcoólico para potenciar a perceção de benefício. “O futuro do crescimento da cerveja depende de torná-la mais relevante na vida das pessoas”, sintetizou a country manager da Worldpanel.
As três principais preocupações de saúde dos europeus são o peso corporal (55%), o sono (43%) e o stress (41%) e é nesses territórios que a cerveja pode tentar posicionar inovações. O conceito de hangxiety (ansiedade pós-consumo de álcool) é identificado como uma oportunidade de comunicação: 43% dos portugueses com menos de 35 anos reportam stress relacionado com o consumo, o que abre espaço para marcas que promovam o consumo responsável e alternativas sem álcool.

Sustentabilidade como alavanca de crescimento
Brent Atthill identificou as cadeias de abastecimento sustentáveis como a maior oportunidade de crescimento não explorada pelo sector a nível global. “A próxima década é menos sobre provar que a sustentabilidade importa e mais sobre demonstrar que pode gerar valor ambiental, económico e para a cadeia de abastecimento”, afirmou o managing director da RMI Analytics.
O sector cervejeiro português não parte do zero nesta agenda. O estudo da Nova SBE documenta um compromisso transversal com práticas de sustentabilidade ao longo de toda a cadeia de valor, em quatro eixos principais: embalagem, água, energia e cadeia de valor alargada.
Na embalagem e economia circular, 37,98% do volume de vendas é já comercializado em embalagem reutilizável e 67% do material utilizado nas embalagens é reciclado, em média. As empresas cervejeiras portuguesas adotaram parcerias com sistemas de recolha e reciclagem e trabalham ativamente na redução do peso das embalagens e na valorização dos subprodutos do processo produtivo.
Na gestão da água, o sector tem reduzido consistentemente o consumo de água por litro de cerveja produzido, com práticas de reutilização de água tratada em processos industriais, tratamento de efluentes e aproveitamento de águas pluviais. A água é, aliás, o território de sustentabilidade mais natural para a cerveja – dado que está no centro do processo produtivo –, e um dos mais reconhecíveis pelos consumidores, abrindo espaço para narrativas de comunicação como “produzida com X% menos consumo de água”.
Na energia e descarbonização, 22,2% da energia consumida pelas cervejeiras portuguesas já provém de fontes renováveis, incluindo autoprodução. O sector tem investido na modernização de equipamentos para melhorar a eficiência energética e assumido compromissos públicos de neutralidade carbónica alinhados com o roadmap para a neutralidade carbónica em 2050.
Na sustentabilidade da cadeia de valor, o sector estende as suas práticas às matérias-primas (promoção de práticas agrícolas sustentáveis junto dos fornecedores), à logística (frotas de baixas emissões e reorganização logística regional) e à dimensão social (consumo responsável, condições de trabalho, formação e bem-estar dos trabalhadores).
Para Portugal, o argumento da sustentabilidade tem uma dimensão adicional: a possibilidade de ligar a narrativa cervejeira ao território agrícola nacional. “A história de uma cerveja portuguesa pode ser vendida lá fora? Como é que essa história se liga à agricultura regenerativa, ao carbono sequestrado, às práticas sustentáveis?” – são as questões que Brent Atthill lançou ao sector europeu, com aplicação direta ao caso português.
Os dados da Worldpanel confirmam o potencial de mercado desta agenda: mais de metade dos europeus preocupa-se com as alterações climáticas (52%), a poluição da água (51%) e o desperdício alimentar (50%).
Carga fiscal e reconhecimento: o que o sector pede ao Governo
Apesar do desempenho robusto, o sector cervejeiro português sente que opera num quadro fiscal desproporcionado. A cerveja acumula Imposto sobre o Álcool e as Bebidas Alcoólicas (IABA), Imposto Especial de Consumo (IEC) e IVA a 23%. O IABA aumentou cerca de 17% entre 2019 e 2024, o que o estudo da Nova SBE classifica como um risco crescente para um sector que, paradoxalmente, tem continuado a crescer e a contribuir para o erário público.
A APCV tem ainda outra batalha em curso no plano europeu: o regulamento de embalagens (PPWR), atualmente em discussão em Bruxelas, pode ter impactos severos sobre o sector agroalimentar português. A associação já enviou uma carta ao Ministério do Ambiente pedindo que Portugal coassine o non-paper da República Checa de oposição ao regulamento, alertando para as consequências sobre sectores como o cervejeiro, o agroalimentar e a indústria vidreira.
“Os governos e o Parlamento devem dar atenção a três coisas: o reconhecimento da cerveja como sector pilar da economia, equiparado a muitos outros; a injustiça fiscal que tem existido e o acompanhamento das diligências europeias que podem ter um impacto desastroso”, afirma a secretária-geral da APCV.
Mais do que uma bebida
A mensagem de fundo que atravessa tanto a conferência europeia como a intervenção da APCV é a mesma: a cerveja é mais do que uma bebida. É uma cadeia de valor que atravessa a agricultura, a indústria, a distribuição, o retalho e a restauração. É um agente de eventos culturais e desportivos – apoiando festivais, música, clubes e iniciativas de base comunitária que fortalecem o tecido social e a economia criativa nacional. É uma bebida intrinsecamente social, feita de apenas quatro ingredientes naturais – água, cevada, lúpulo e levedura – sem aditivos nem sulfitos.
Em Portugal, onde 70% do consumo ocorre fora de casa e onde o sector representa 2,53% do PIB com um multiplicador de 68 postos indiretos por cada direto e 170.283 empregos totais em equivalente a tempo inteiro, esse argumento tem peso económico suficiente para exigir, na opinião da APCV, uma conversa diferente com o poder político. O desafio que o sector enfrenta é duplo: manter a resiliência face a tendências de consumo adversas – como a redução intencional do consumo de álcool entre os jovens – e capitalizar as oportunidades que emergem da inovação em moderação, funcionalidade e sustentabilidade.
Para a Brewers of Europe e para os Cervejeiros de Portugal, o próximo desafio é fazer chegar essa mensagem ao consumidor e ao legislador. A cerveja já provou que sabe ser resiliente. Agora, quer provar que sabe ser relevante.







