Quando, nos anos 70 do século passado, a categoria dos vinhos sem álcool começou a ganhar alguma visibilidade no mercado, ninguém apostava no seu futuro. A ideia tinha nascido muito antes, no início do século XX, Carl Jung, negociante de vinhos de Rüdesheim am Rhein, na região do Vale do Reno, na Alemanha, desenvolvera um processo pioneiro de desalcoolização, patenteado em 1907, que permitia remover o álcool preservando o bouquet, o corpo e o sabor do vinho. Durante décadas, porém, a categoria foi subestimada, ignorada e, frequentemente, motivo de escárnio. “Ainda me lembro dos primeiros goles terríveis que tomei”, admitiu Karin Eymael, diretora da publicação especializada Meininger’s International, ao moderar um painel dedicado ao tema. “A minha conclusão foi: desnecessário”.
Hoje, essa conclusão está ultrapassada. O mercado global de vinho sem álcool valia, segundo informações disponibilizadas, na Wine Paris, pela jornalista alemã, 2,27 mil milhões de dólares em 2023 e projeta-se uma taxa de crescimento anual composta de 7,9% até 2030. Na Alemanha, um dos mercados mais avançados, as vendas de vinho desalcoolizado no canal de distribuição cresceram 70% em número de compradores e 86% em volume, de 2023 para 2024, com uma quota de 1,5% do mercado vinícola total. No espumante sem álcool, o país vendeu 20 milhões de garrafas em 2024, mais dois milhões do que no ano anterior, representando 7,5% do segmento total de espumantes.
A qualidade mudou e a tecnologia não é a única razão
A transformação da categoria não se explica apenas pela evolução das técnicas de desalcoolização, embora estas sejam indissociáveis do progresso. Floriane Maire, responsável de investigação e desenvolvimento de bebidas e espirituosas da empresa francesa Leg de France, um dos maiores produtores mundiais, com quase 50 milhões de caixas anuais e presença em mais de 80 países, sublinha que a tecnologia é um auxiliar, mas não o fator decisivo. “O vinho de base certo é o mais importante”, afirma. “Só com a seleção adequada se consegue um bom produto final”.
Marcus Bondes, fundador e enólogo da pequena adega Winex Winks, na região do Rheingau, na Alemanha, partilha da mesma perspetiva. Começou o percurso no vinho sem álcool em 2020, a pedido de um importador britânico – proposta que, confessa, recusou de imediato. “Disse que era uma ideia estúpida”, recorda com humor. Acabou por ceder, informou-se junto de quem já produzia nessa área e, hoje, a gama sem álcool representa a maior fatia da f faturação da adega. A linha inclui um Riesling e um espumante de Pinot Noir, ambos premiados em múltiplas provas, e conta agora com uma novidade: o primeiro vinho de reserva desalcoolizado, produzido a partir de uvas de uma única parcela colhidas em 2017 e distinguido com 95 pontos por um crítico internacional.
A indústria, nota Karin Eymael, tende a ser mais exigente consigo própria do que os consumidores. “Tenho frequentemente a sensação de que o sector julga os vinhos sem álcool com muito mais dureza do que os consumidores. Estes respondem de forma muito positiva às alternativas, sobretudo quando não são bebedores fervorosos de vinho com álcool”. Segundo a jornalista, a melhoria da qualidade da última década, e em particular dos últimos cinco anos, é notável e a trajetória é de continuidade: “Estão a ficar cada vez melhores”.
O terroir pode expressar-se num vinho sem álcool?
Uma das questões mais filosóficas do debate foi precisamente esta: é possível transmitir a expressão de um terroir num vinho desalcoolizado? Floriane Maire acredita que sim, desde que a vinificação de base seja feita com esse objetivo e que o processo de desalcoolização preserve as características essenciais do vinho. “Se tiver o terroir certo, a casta adequada e um processo que mantenha o perfil aromático, essa essência reaparece no produto final”, defende. A empresa trabalha com denominações de origem específicas – Côte de Provence e Borgonha, entre outras – nas suas versões desalcoolizadas, procurando uma continuidade entre o vinho alcoólico e a sua versão alternativa.
Marcus Bondes introduziu uma dimensão política na discussão: atualmente, a regulamentação europeia impede que os vinhos desalcoolizados utilizem denominações de região nos rótulos. “Pessoalmente, acho que é errado”, disse. “Se produzirmos um vinho de uma única parcela e depois retirarmos o álcool, o carácter do lugar está lá”. Para o produtor alemão, permitir a referência à origem geográfica seria benéfico para toda a categoria, ao valorizar a proximidade com a vinha e a autenticidade do produto.
Sustentabilidade: o mito e a realidade
Uma das críticas recorrentes à categoria é a de que os vinhos sem álcool têm uma pegada ecológica elevada, fruto das tecnologias envolvidas na desalcoolização. Ambos os produtores rejeitam essa ideia. Marcus Bondes refere que a sua adega mede a pegada de CO₂ ao longo de toda a cadeia, da vinha ao consumidor final, e que o resultado é equivalente ao de um vinho convencional. A razão, explica, é que o processo de desalcoolização gera dois produtos: o vinho sem álcool e o próprio álcool extraído, que é vendido para fins de desinfeção ou para a produção de aguardente. “É a forma mais fácil de produzir álcool”, diz, com ironia. “Isso soa estranho, mas significa que o balanço de CO₂ é excelente”.
Floriane Maire acrescenta que o processo utilizado pela Leg de France – destilação a vácuo (processo de separação que reduz a pressão interna de um sistema para diminuir o ponto de ebulição dos líquidos) – é especialmente eficiente do ponto de vista ambiental: não há desperdício, a água é reutilizada e o calor é recuperado e reaproveitado. Ao contrário da osmose inversa, a destilação a vácuo permite ainda que o álcool extraído seja reclassificado como aguardente e utilizado noutras produções. Este ano, a empresa lançou um brandy 100% Chardonnay, obtido a partir do álcool separado durante a desalcoolização dos seus vinhos. “A água é um bem precioso. Quando pensamos em tecnologia e produção, isso é muito importante para nós”, sublinha.
Rotulagem: saber o que está na garrafa
Um dos alertas mais práticos do painel foi precisamente sobre a confusão que reina nas prateleiras. Nem todos os produtos comercializados com embalagem semelhante à de um vinho são efetivamente vinho desalcoolizado. Floriane Maire apela à leitura atenta dos rótulos: “Hoje, há produtos que parecem vinho, mas são sumo de uva, produtos à base de água ou bebidas aromatizadas. Se vir escrito ‘vinho desalcoolizado’, é vinho a sério. Se ler ‘produto à base de vinho’ ou ‘produto aromatizado’, é outra coisa”. A investigadora não condena esses produtos, afinal “o mercado tem espaço para todos”, mas exige clareza: “O que nos preocupa é a confusão do consumidor”.
Marcus Bondes, por sua vez, recusa a adição de aromas artificiais nos seus produtos, por fidelidade à origem vínica. “A pessoa que decide não beber álcool, seja por que razão for, quer partilhar um copo com os amigos e sentir que faz parte do convívio. O facto de não ter álcool é apenas um pormenor – o que importa é que o sabor esteja lá, que acompanhe bem a comida”. Para o produtor alemão, o verdadeiro competidor do vinho sem álcool não é o vinho convencional: é a água, os refrigerantes e os sumos.
Saúde e um novo consumidor: o que leva ao crescimento
Os fatores que explicam o crescimento da categoria são múltiplos e convergentes. A crescente preocupação com a saúde e o bem-estar – não apenas entre as gerações mais jovens, mas também entre consumidores mais velhos – alimenta uma tendência social mais ampla de redução do consumo de álcool. Floriane Maire lembra, com o seu background em nutrição e dietética, que o álcool é o principal responsável pelas calorias num copo de vinho: um grama de etanol tem sete quilocalorias, contra quatro de um grama de açúcar. Retirar o álcool reduz o valor calórico de um copo em três a quatro vezes face ao vinho convencional – e mesmo em comparação com refrigerantes ou sumos vitamínicos ricos em açúcar, o vinho desalcoolizado sai a ganhar, avisa.
A comparação com a cerveja sem álcool é recorrente no sector e serve de referência para as ambições da categoria. “A cerveja sem álcool começou antes do vinho nesta área”, lembra Floriane Maire. “Nalguns países, já representa 10% do volume consumido. Será que o vinho sem álcool pode chegar a 10%? Eu diria que é uma possibilidade”, refere, acrescentando que nos mercados mais maduros – Suécia e Dinamarca, por exemplo – já há prateleiras com dezenas de opções de vinho sem álcool. Noutros, como Itália ou Suíça, o crescimento ainda é lento, mas a tendência é clara. “A questão não é se vai acontecer”, conclui Marcus Bondes. “É quando”.








