A inteligência artificial e a modelação digital estão a chegar a uma das atividades mais tradicionais da indústria alimentar: o desenvolvimento de queijos. O grupo francês Bel apresentou um projeto de investigação destinado a criar um gémeo digital de A Vaca que Ri, permitindo testar virtualmente diferentes formulações antes de avançar para a produção experimental.
A iniciativa foi anunciada a 6 de outubro, no âmbito das comemorações do centenário da fábrica de Lons-le-Saunier, em França, e resulta de uma parceria estratégica estabelecida em 2024 com a empresa tecnológica Dassault Systèmes.
Segundo o grupo Bel, trata-se de uma iniciativa pioneira mundial na indústria alimentar, com potencial para transformar os processos de investigação e desenvolvimento de novos produtos.
Milhares de receitas testadas num ambiente virtual
O gémeo digital funciona como um simulador capaz de reunir diferentes características de um produto alimentar num único ambiente virtual. O sistema integra informações sobre ingredientes, formulações, propriedades físico-químicas, perceção sensorial e preferências dos consumidores. A partir destes dados, as equipas de investigação poderão explorar milhares de combinações de receitas, identificando as opções mais promissoras antes de realizar os testes físicos.
Tradicionalmente, o desenvolvimento de produtos alimentares envolve sucessivas experiências, nas quais são alterados ingredientes, quantidades e condições de fabrico, seguidas de análises laboratoriais e provas sensoriais. Com esta tecnologia, a Bel pretende reduzir o número de experiências necessárias, concentrando os ensaios nas formulações que apresentem maior potencial. O objetivo é encurtar os ciclos de desenvolvimento e otimizar as receitas, procurando melhorar simultaneamente a qualidade nutricional, a experiência sensorial e o desempenho ambiental dos produtos.
Inteligência artificial chega à formulação dos alimentos
A aplicação de gémeos digitais à indústria alimentar representa uma evolução de tecnologias já utilizadas em sectores como a aeronáutica, a indústria automóvel e as ciências da vida.
No caso da Bel, o projeto procura combinar a experiência acumulada na produção de queijo fundido com ferramentas de modelação digital, análise de dados e inteligência artificial. A tecnologia está a ser desenvolvida pelas equipas de investigação, inovação e desenvolvimento do grupo, com a previsão de implementação à escala industrial até 2028.
Segundo a empresa, os trabalhos realizados com parceiros externos já permitiram incorporar soluções de microbiologia preditiva e ferramentas de apoio à formulação nos processos de desenvolvimento de novos produtos.
Esta transformação integra uma estratégia mais abrangente de digitalização da cadeia de valor, desde a investigação e desenvolvimento até à produção industrial. A Bel sublinha, contudo, que o objetivo destas ferramentas é complementar o conhecimento das equipas e não substituir a experiência humana.
Fábrica centenária prepara nova fase de modernização
A apresentação do projeto coincidiu com os 100 anos da unidade industrial de Lons-le-Saunier, inaugurada em 1926 e considerada o berço histórico da atividade industrial do grupo. Foi nesta fábrica que a Bel desenvolveu competências específicas na produção e no embalamento de queijo fundido em porções, contribuindo para a internacionalização de A Vaca que Ri. Atualmente, cerca de dois terços da produção da unidade são exportados para 60 países.
A fábrica acolhe também o centro mundial de especialização e inovação do grupo na área do queijo fundido.
A modernização da unidade contempla um investimento de 10 milhões de euros ao longo de três anos, destinado a melhorar o desempenho industrial e ambiental. Entre os resultados já alcançados encontra-se uma redução de 15% no consumo de água nos últimos cinco anos, equivalente a uma poupança anual de aproximadamente 11 mil metros cúbicos.
A instalação de uma nova estação de tratamento de águas residuais, em 2025, e a entrada em funcionamento de uma caldeira de biomassa integram igualmente o processo de transformação da fábrica.
Grupo Bel aposta na inovação para transformar a indústria alimentar
Para Cécile Béliot, CEO do grupo Bel, o centenário da unidade de Lons-le-Saunier representa uma oportunidade para associar o conhecimento industrial acumulado a novas tecnologias. A responsável destaca que a evolução da fábrica ao longo de um século demonstra a capacidade de adaptação da empresa e que o projeto de gémeo digital constitui mais uma etapa desse percurso.
A unidade emprega atualmente 370 pessoas e mantém um papel central na investigação e desenvolvimento de produtos do grupo.
Com um volume de negócios de 3,83 mil milhões de euros em 2025, a Bel conta com aproximadamente 11 mil colaboradores, 29 unidades industriais e produtos comercializados em mais de 120 países.








