A indústria alimentar portuguesa poderá ganhar uma nova dimensão no mercado europeu. A Cerealis, um dos principais grupos agroalimentares nacionais, está em negociações exclusivas com os acionistas da Panzani para uma operação que permitirá juntar dois dos mais relevantes fabricantes europeus de massas alimentícias e outros produtos à base de cereais.
O acordo em negociação envolve os atuais acionistas da Cerealis – as famílias Moreira da Silva e Silva Domingues e o grupo de investimento belga Sofina – e a CVC Capital Partners, que controla a Panzani.
Segundo o comunicado conjunto divulgado a 16 de outubro, a combinação das duas empresas dará origem a um grupo alimentar independente, com um valor empresarial estimado em 1,8 mil milhões de euros e receitas consolidadas anuais de aproximadamente mil milhões de euros.
Panzani fatura mais do que a Cerealis
A operação reúne duas empresas com dimensões e geografias complementares. A Panzani, sediada em Lyon, registou receitas de 620 milhões de euros em 2025 e desenvolve a atividade principalmente em França, Países Baixos e Europa Central, com um portefólio centrado nas massas alimentícias, cuscuz e molhos.
A Cerealis, com sede no Porto, alcançou uma faturação de 400 milhões de euros no mesmo ano. O grupo português está presente em Portugal, Espanha, Chéquia e Polónia, operando em categorias como massas alimentícias, cereais de pequeno-almoço, barras de cereais, bolachas e farinhas.
Pedro Moreira da Silva liderará o novo grupo
A estrutura de gestão prevista procura assegurar a continuidade das duas empresas e preservar as respetivas identidades. Pedro Moreira da Silva, atual vice-presidente executivo da Cerealis, assumirá a liderança global do grupo resultante da combinação, coordenando iniciativas transversais às duas organizações.
A Panzani continuará a operar como empresa francesa, com sede em Lyon, sob a liderança do atual CEO, Albert Mathieu, que passará também a ser responsável pelas operações do grupo na Europa Central.
A Cerealis manterá a sua sede no Porto e continuará a ser liderada por Paula Meireles, que assumirá a gestão das operações ibéricas e do negócio internacional de marcas próprias. A organização será descentralizada, preservando a autonomia industrial e operacional das duas empresas.
Complementaridade de mercados e produtos sustenta operação
A combinação da Cerealis com a Panzani pretende criar novas oportunidades de crescimento através da complementaridade dos portefólios, das capacidades industriais e da presença geográfica.
A operação permitirá reunir competências em categorias como massas alimentícias, cereais de pequeno-almoço, bolachas, farinhas, cuscuz e molhos, criando condições para diversificar a oferta e introduzir marcas em novos mercados europeus. Segundo Pedro Moreira da Silva, a principal motivação da operação é precisamente a complementaridade dos produtos, tecnologias e competências industriais das duas organizações.
O projeto prevê também a continuidade dos investimentos nos ativos industriais, nas marcas e na inovação.
Cerealis reforça posição na indústria alimentar europeia
A operação representa um novo passo na estratégia de internacionalização da Cerealis. O grupo português dispõe atualmente de quatro unidades industriais em Portugal, uma em Espanha e outra na Chéquia, empregando cerca de 900 pessoas.
A Panzani conta com três unidades industriais e três fábricas de sêmola em França, além de aproximadamente 900 trabalhadores. A combinação permitirá reunir capacidades industriais e comerciais em diferentes mercados europeus, reforçando a dimensão da atividade e a diversificação geográfica.
Para a indústria alimentar portuguesa, a concretização do negócio representará o reforço de um grupo de origem nacional no panorama europeu, numa altura em que a escala industrial, a capacidade de inovação e a diversificação de mercados assumem crescente importância competitiva.
CVC manterá participação minoritária
Após a conclusão da operação, a estrutura acionista do novo grupo incluirá as famílias fundadoras da Cerealis, a Sofina e a CVC Capital Partners. O fundo de investimento, atualmente acionista da Panzani, manterá uma participação minoritária na entidade combinada. Os quatro acionistas estarão representados no conselho de administração, apoiando o desenvolvimento estratégico e os futuros investimentos. A Sofina deverá também disponibilizar capital adicional para apoiar a operação.
O valor específico da transação não foi divulgado. Os 1,8 mil milhões de euros anunciados correspondem à avaliação empresarial estimada do grupo resultante da combinação, não ao preço de aquisição da Panzani.
A concretização do negócio permanece sujeita aos procedimentos de informação e consulta dos representantes dos trabalhadores e à obtenção das aprovações regulamentares necessárias.








