O preço dos automóveis novos pode estar a levar os portugueses a preferir o mercado de usados, segundo o estudo do Observador Cetelem, “Sector Automóvel: Cinco vias para a retoma”.
De acordo com a análise, preço, políticas públicas, dimensão emocional – como ligação às marcas e design –, oferta e distribuição são fatores prioritários para alavancar um sector com forte relevância económica e social, que procura recuperar o dinamismo perdido nos últimos anos. O estudo revela ainda que os portugueses continuam a valorizar os automóveis, mas que os preços atuais têm travado as intenções de compra.
Na Europa, as sucessivas crises sanitárias, geopolíticas e económicas fizeram cair as vendas anuais de 17 milhões de automóveis (2015-2019) para 11,75 milhões (2020-2024). Gerou-se um défice de 20 milhões de veículos, envelhecendo o parque automóvel. Portugal sentiu o impacto face ao ano de 2019 (345 mil produzidos e 268 mil vendidos), mas revelou resiliência em 2024. Segundo a Associação de Comércio Automóvel de Portugal, o país produziu 260 mil unidades (mais 8,3% face a 2023) e vendeu 240 mil (mais 4,4%). A recuperação continuou no primeiro semestre de 2025, com 143 mil viaturas comercializadas (mais 4,2% homólogos), com destaque para a quota de 20% de modelos elétricos.
Preço como principal fator de tensão
Estes dados ajudam a explicar uma das conclusões do estudo. Em Portugal, 94% dos inquiridos assume ter uma boa imagem dos carros novos, valor acima da média internacional (92%). 85% mantêm uma opinião favorável sobre os usados (face à média internacional de 79%).
Ainda assim, o preço surge como principal fator de tensão. 92% afirmam que os preços aumentaram significativamente nos últimos anos (valor acima da média internacional de 84%). 60% entende que essa subida não é justificada.
Esta perceção da subida generalizada dos preços dos automóveis em Portugal leva a que, atualmente, 93% dos portugueses considerem os veículos novos demasiado caros.
Esta visão traduz-se em intenções de compra claras. 53% dos inquiridos a planeia comprar um carro usado nos próximos cinco anos, valor acima da média internacional (51%). 49% admite a intenção de adquirir um carro novo no mesmo período (face à média internacional de 58%).
80% dos portugueses pedem medidas
Para a redução de preços no mercado automóvel, a estabilidade e eficácia das políticas públicas são determinantes. 80% dos inquiridos a defende medidas que incentivem diretamente a compra, como a produção de carros novos mais baratos e simples (62%), com menos opções. 78% apontam à redução das margens dos fabricantes.
Além disso, apesar de Portugal ser um dos países onde o design automóvel é mais valorizado (76%), os inquiridos apontam alguns elementos que poderiam ser simplificados ou reduzidos para baixar o preço dos carros novos, como jantes e cor (40%), o tamanho (23%), ou a potência do motor (20%).
A mobilidade elétrica é também um caminho incontornável no sector automóvel. No entanto, embora 92% dos portugueses reconheçam a importância de reduzir o impacto ambiental causado pelo atual parque automóvel e 64% considerem que já existem progressos, a transição elétrica continua a enfrentar obstáculos. Preços elevados, resistência dos consumidores e incerteza regulatória são algumas das barreiras. Apenas 18% dos portugueses consideraram claras as políticas públicas de apoio à aquisição destes veículos (valor abaixo da média europeia de 32%).
O estudo revela ainda que os concessionários continuam a desempenhar um papel central na relação com os consumidores, com 74% dos portugueses a revelarem elevados níveis de confiança no aconselhamento, na proposta de soluções de financiamento e na adequação da oferta. Ao mesmo tempo, o digital ganha espaço: 44% admitem a possibilidade de comprar um automóvel totalmente online, embora persistam reservas ligadas à impossibilidade de experimentar o veículo (39%) ou à preferência pelo contacto presencial (44%).
“Este estudo reforça que o sector automóvel se encontra em momento de grande transformação, assente numa procura clara por automóveis novos mais simples, acessíveis e alinhados com o poder de compra das famílias. Enquanto isto não acontecer, o mercado de usados continuará a ser a escolha natural dos portugueses”, assume David Correia, diretor de mobilidade do Cetelem.








