A preferência dos portugueses pelo modelo de família com dois filhos mantém-se sólida e consistente ao longo das últimas décadas, contrariando tendências observadas noutras sociedades europeias. A conclusão é de um estudo da Gallup International Association, realizado em Portugal pela Intercampus.
A pesquisa indica que 68% da população considera dois filhos o número ideal, acima da média da Europa Ocidental (63%) e da média global (54%).
Realizado em 61 países, o inquérito revela ainda um dado particularmente relevante. De facto, a percentagem de portugueses que consideram não ter filhos como opção ideal mantém-se inalterada nos 3% desde 1980. Um contraste significativo face a outros países desenvolvidos, onde esta preferência tem vindo a aumentar de forma consistente.
Segundo António Salvador, diretor-geral da Intercampus, os resultados refletem não apenas uma escolha dominante, mas também uma rara estabilidade nas atitudes sociais. Num contexto europeu em mudança, Portugal surge como um caso atípico, com um dos níveis mais baixos de preferência por famílias sem filhos entre as economias ocidentais.
Geografias com diferentes resultados
Na comparação internacional, o estudo evidencia diferenças marcadas. Enquanto em países como o Brasil e os Estados Unidos a preferência por não ter filhos cresceu de forma expressiva nas últimas décadas, em Portugal permanece inalterada. Já a nível global, regiões como a Ásia Central, o Médio Oriente e África continuam a favorecer famílias mais numerosas, com maior peso na preferência por três ou mais filhos.
O estudo analisou também a perceção dos cidadãos sobre o crescimento demográfico. Em Portugal, as opiniões dividem-se de forma equilibrada. 35% consideram que a população cresce demasiado depressa, outros 35% defendem que não cresce o suficiente e 26% entendem que o ritmo atual é adequado. Este equilíbrio contrasta com a Europa Ocidental, onde predomina a ideia de crescimento excessivo.
A nível global, a tendência inverte-se. A maioria dos inquiridos considera que a população dos seus países não cresce o suficiente, evidenciando uma preocupação crescente com o envelhecimento demográfico.
Os dados expõem ainda uma contradição frequente nas sociedades desenvolvidas. Países onde se reconhece a necessidade de crescimento populacional são muitas vezes os mesmos onde se preferem famílias mais pequenas. Portugal escapa parcialmente a este padrão, mantendo uma visão relativamente estável tanto na dimensão ideal da família como na perceção demográfica.
Do ponto de vista sociodemográfico, a preferência por famílias maiores tende a ser mais comum entre pessoas com menor nível de escolaridade e maior identificação religiosa. Já o modelo de dois filhos é transversal a todas as idades, embora mais expressivo nas faixas etárias mais velhas. Entre os mais jovens, destaca-se uma ligeira maior abertura a modelos alternativos, incluindo a opção de não ter filhos.
No panorama europeu, países do leste destacam-se pela preferência por famílias numerosas, enquanto a Europa Ocidental apresenta valores mais moderados.








