A Península Ibérica está a afirmar-se como um dos destinos mais competitivos da Europa para novos investimentos industriais, impulsionada pelo acesso a energia renovável a custos mais reduzidos e por níveis de investimento produtivo superiores aos registados em várias das maiores economias europeias. A conclusão consta do relatório Catalyzing competitiveness: Where investment happens and why, divulgado pelo McKinsey Global Institute (MGI), que identifica uma nova geografia da competitividade mundial.
O estudo alerta para um défice estrutural de investimento na Europa, estimado em cerca de 800 mil milhões de euros por ano, equivalente a uma taxa líquida de investimento próxima dos 2% do Produto Interno Bruto (PIB), insuficiente para sustentar o crescimento económico e a competitividade a longo prazo.
Enquanto a Europa enfrenta dificuldades em recuperar o investimento, os Estados Unidos procuram reforçar a capacidade industrial para reduzir dependências externas e a China continua a expandir a produção a um ritmo muito superior, acrescentando anualmente cerca de três vezes mais capacidade produtiva do que os EUA e a Europa em conjunto.
Segundo a análise, fatores como os custos de produção, a produtividade, a rapidez de execução dos projetos e os preços da energia assumem hoje um peso decisivo nas decisões de investimento, ultrapassando a importância tradicional da localização geográfica ou da dimensão dos mercados.
O relatório refere que produzir na Europa ou nos Estados Unidos pode custar, em média, pelo menos mais 50% do que em economias que atualmente captam maior volume de investimento. Nas atividades de investigação e desenvolvimento, essa diferença pode atingir cerca de 300%, devido a processos mais demorados e a um menor ritmo de inovação.
É neste contexto que Portugal e Espanha surgem como casos de destaque. Beneficiando de custos competitivos da energia solar e eólica, ambos os países oferecem condições favoráveis para projetos industriais com elevado consumo energético, setor que tem vindo a deslocar-se gradualmente do tradicional centro industrial europeu para regiões como a Península Ibérica e os países nórdicos.
O estudo destaca ainda a recuperação do investimento em Portugal após a crise da dívida soberana. Em 2024, a taxa de investimento produtivo líquido atingiu 4,6% do PIB, colocando o país entre os melhores desempenhos da Europa. Em Espanha, o indicador ultrapassou os 2% do PIB, enquanto na Alemanha caiu para cerca de 0,2%.
Para os investigadores, esta evolução demonstra que a fragilidade do investimento europeu não é uniforme e que a Península Ibérica reúne atualmente vantagens estruturais capazes de atrair novos projetos industriais.
Reformas estruturais necessitam-se
Apesar deste posicionamento favorável, o relatório sublinha que a competitividade europeia continuará a depender de reformas estruturais. Entre as prioridades identificadas estão o aumento da produtividade através da automação e da inteligência artificial, a simplificação dos processos burocráticos, a aceleração dos prazos de desenvolvimento industrial e o acesso a energia limpa, abundante e competitiva.
O McKinsey Global Institute defende igualmente uma maior aposta em setores estratégicos, como os semicondutores, a biotecnologia e as infraestruturas para inteligência artificial, bem como políticas industriais mais transparentes que contribuam para reduzir distorções concorrenciais e reforçar a capacidade da Europa para captar investimento.
Para Portugal, o estudo conclui que, apesar de partir de uma base histórica de capital produtivo inferior à de outras economias europeias, o país reúne atualmente condições favoráveis para consolidar o seu papel nas cadeias de valor industriais do futuro, beneficiando da conjugação entre energia competitiva e uma recuperação sustentada do investimento produtivo.








