Mais de metade dos portugueses acredita que terá dificuldades financeiras na reforma, num cenário marcado pela falta de planeamento, baixa literacia financeira e crescente desconfiança no sistema público de pensões. A conclusão é do novo Barómetro Doutor Finanças “Preparação da Reforma”, desenvolvido pelo Centro de Estudos Aplicados da Católica-Lisbon.
Segundo o estudo, 54% dos inquiridos antecipam dificuldades económicas após deixarem de trabalhar e 52% admitem continuar a exercer atividade profissional depois da idade da reforma, seja a tempo inteiro ou parcial, para complementar o rendimento.
A perceção negativa sobre esta fase da vida é dominante. A incerteza é apontada por 38% dos participantes, enquanto sentimentos como medo (26%) e ansiedade (23%) superam largamente perceções mais positivas, como descanso ou liberdade.
Apesar de 59% dos portugueses continuarem a encarar a reforma como um direito adquirido, a confiança no sistema público é reduzida. Cerca de 47% não acreditam que a Segurança Social consiga assegurar o pagamento de pensões no futuro e 55% consideram que a pensão pública não será suficiente para manter o atual nível de vida.
O estudo evidencia também fortes lacunas ao nível da preparação financeira. Cerca de 73% dos portugueses não sabem quanto precisam de poupar para manter o padrão de vida após a reforma e 65% nunca fizeram uma simulação da pensão futura. Além disso, 33% admitem desconhecer quanto irão receber quando se reformarem. “Os portugueses estão mais conscientes da importância do tema, mas essa preocupação ainda não se traduz em ação concreta”, afirma Sérgio Cardoso, chief education officer do Doutor Finanças.
No capítulo da poupança, os resultados mostram um país dividido. Embora 68% afirmem poupar para a reforma, apenas 34% o fazem de forma regular. Um quarto dos inquiridos poupa ocasionalmente e 31% não poupam de todo.
A principal dificuldade apontada é a falta de rendimento disponível, referida por mais de metade dos participantes. Entre os instrumentos financeiros mais utilizados destacam-se os Planos Poupança Reforma (PPR), fundos de investimento e depósitos a prazo, refletindo uma preferência por soluções consideradas mais conservadoras.
As mulheres surgem como o grupo mais vulnerável no estudo, apresentando níveis superiores de ansiedade e incerteza relativamente ao futuro financeiro. Já os mais jovens, sobretudo entre os 25 e os 45 anos, demonstram maior preocupação com o tema e maior predisposição para poupar, sinalizando uma mudança geracional na abordagem ao planeamento financeiro.
A saúde lidera as principais preocupações associadas à reforma, mencionada por 81% dos inquiridos. Seguem-se a dependência de familiares (30%), a perda de rendimento (29%) e os custos da habitação (23%).
Apesar das preocupações financeiras, a reforma continua a ser idealizada como um período associado ao lazer, com viajar e passar mais tempo com família e amigos entre os objetivos mais referidos.
O estudo revela ainda um consenso alargado sobre a importância da educação financeira: 92% dos portugueses defendem o reforço deste tema nas escolas e 81% afirmam que recorreriam a aconselhamento financeiro para preparar a reforma.








