Especialista a trabalhar num portátil com interfaces digitais de cibersegurança e proteção de dados num ambiente tecnológico

KPMG alerta que risco digital começa antes do impacto nas empresas

As empresas enfrentam uma nova era de risco digital, marcada pela aceleração da inteligência artificial, pela fragmentação geopolítica, pelo reforço da regulamentação e pela crescente dependência de fornecedores tecnológicos.

Segundo o relatório “Cybersecurity Considerations 2026”, da KPMG, 79% dos líderes empresariais globais considera o cibercrime e a insegurança digital como a maior ameaça à prosperidade dos negócios. O risco surge à frente da pressão regulamentar, apontada por 69%, e dos conflitos geopolíticos, referidos por 57%.

A consultora defende que a cibersegurança deixou definitivamente de ser apenas um tema tecnológico, passando a ser um elemento central de competitividade, confiança e crescimento económico.

Ataques começam antes do impacto visível

De acordo com a KPMG, os ciberataques são cada vez mais sofisticados e começam muito antes de se tornarem visíveis para as organizações.

As vulnerabilidades funcionam frequentemente como porta de entrada, o que torna crítica uma abordagem mais focada na antecipação, na integração da segurança digital e na capacidade de resposta antes da concretização do impacto.

O relatório, que reúne contributos de mais de 20 especialistas globais e dados de vários estudos internacionais, identifica oito considerações essenciais para ajudar as organizações a prepararem-se melhor para os desafios atuais.

“A confiança digital é hoje um diferencial competitivo”

Para Sérgio Martins, cybersecurity partner da KPMG Portugal, a confiança digital passou a ter um papel estratégico na diferenciação das empresas. “A confiança digital é hoje um diferencial competitivo. À medida que a IA amplia capacidades – tanto de atacantes como de defensores – é essencial gerir o risco associado a identidades não humanas em toda a cadeia de valor. Segurança e compliance não têm de ser um travão à inovação, pelo contrário, podem ser um catalisador já que garantem resiliência digital”, afirma.

A inteligência artificial é identificada pela KPMG como o principal fator de transformação do ciberespaço. Por um lado, os atacantes recorrem à automação, à IA generativa e a agentes autónomos para escalar ataques, aumentar velocidade e explorar vulnerabilidades com maior sofisticação. Por outro, as organizações usam as mesmas tecnologias para detetar ameaças em tempo real, automatizar respostas e reduzir tempos de reação a incidentes.

Segundo o relatório, 92% dos executivos do sector tecnológico acredita que gerir agentes autónomos de IA será uma competência essencial nos próximos cinco anos, refletindo a rapidez com que estas tecnologias estão a entrar no núcleo das operações empresariais.

Ainda assim, a adoção continua a enfrentar barreiras de confiança. A KPMG refere que 54% da população mundial ainda desconfia da utilização da IA, o que reforça a importância da segurança, da transparência e da governação na implementação destas ferramentas.

Identidades não humanas tornam-se novo ponto fraco

Uma das principais mudanças estruturais identificadas pela KPMG é o crescimento das chamadas identidades não humanas, como contas de serviço, máquinas, aplicações e agentes de IA. Estas identidades já superam, em larga escala, o número de utilizadores humanos nas organizações, aumentando significativamente a superfície de ataque. O risco é agravado quando estas credenciais têm permissões excessivas, baixa monitorização ou controlo insuficiente.

Segundo o relatório, 59% das empresas admite ter sido vítima, no último ano, de uma violação de segurança causada por um terceiro, muitas vezes através da exploração de credenciais de máquinas. A KPMG alerta, por isso, que a próxima grande falha poderá não resultar de erro humano, mas de uma máquina a operar sem controlo adequado.

Geopolítica e regulação mudam lógica de segurança

A evolução geopolítica e regulatória está também a obrigar empresas e entidades públicas a repensarem arquiteturas tecnológicas, fornecedores e localização dos dados.

Na União Europeia, diretivas como a NIS2, a DORA e a CER estão a deslocar o foco da simples proteção da informação para a resiliência operacional. As organizações passam a ter de demonstrar capacidade para resistir, responder e recuperar de incidentes cibernéticos, sobretudo em sectores críticos como energia, telecomunicações, saúde e banca.

Perante este novo cenário, o papel do responsável pela segurança da informação está a evoluir rapidamente. A KPMG aponta para a transformação do CISO num líder estratégico da transformação digital segura, com responsabilidades que vão além da proteção técnica dos sistemas.

O CISO passa a ter um papel mais próximo do conselho de administração, integrando segurança, inovação, inteligência artificial, crescimento do negócio e gestão de risco numa mesma agenda estratégica.

Supply chain transforma-se em attack chain

A dependência crescente de fornecedores de serviços cloud, software, inteligência artificial e serviços digitais está a transformar a cadeia de abastecimento numa extensão direta do risco cibernético das organizações. Segundo o relatório, a resiliência da cadeia de abastecimento é atualmente o principal fator a influenciar decisões empresariais de curto prazo, ultrapassando custos ou eficiência.

Ao mesmo tempo, 45% das organizações afirma que o risco regulamentar associado a terceiros aumentou significativamente, pressionando os modelos tradicionais de auditoria.

A KPMG defende que estes modelos estão a ser substituídos por abordagens de monitorização contínua e baseada no risco, capazes de acompanhar fornecedores, parceiros e tecnologias críticas de forma mais dinâmica.

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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