Janeiro ganhou um novo nome em inglês: Jab-uary. O trocadilho com jab – injeção – e January não é apenas um exercício linguístico. É o sinal de que os medicamentos injetáveis para perda de peso, como o Ozempic e o Wegovy, deixaram o consultório médico e chegaram definitivamente aos supermercados.
Um novo relatório da GlobalData retrata a magnitude desta transformação e os seus efeitos imediatos sobre a indústria alimentar. Os números são expressivos: 27% dos consumidores a nível global afirmam estar dispostos a experimentar novos medicamentos para a perda de peso. 61% dos inquiridos aponta o desejo de perder peso rapidamente como motivação central.
“Os medicamentos GLP-1 estão a mudar o comportamento alimentar em tempo real. As marcas que quiserem vencer neste espaço serão aquelas que oferecerem produtos mais toleráveis, com nutrição equilibrada, em formatos mais reduzidos e com uma comunicação clara dos benefícios na embalagem”, explica Mark Jephcott, analista de consumo na GlobalData.
Mercado em expansão rápida
Os dados de adoção confirmam que o fenómeno ultrapassou o círculo clínico. Segundo investigadores da University College London, 1,6 milhões de adultos britânicos utilizaram medicamentos para perda de peso no último ano. Nos Estados Unidos, uma em cada oito pessoas adultas afirma já ter tomado um medicamento GLP-1, de acordo com o mais recente inquérito da Kaiser Family Foundation.
No plano financeiro, as previsões do GlobalData Pharmaceutical Intelligence Center são igualmente impactantes. As vendas globais de GLP-1 deverão crescer dos 76 mil milhões de dólares registados em 2025 para 161,9 mil milhões em 2030. O mercado de comprimidos GLP-1, um formato que promete democratizar o acesso a estas terapias, deverá passar de 3,2 mil milhões para 34,3 mil milhões de dólares entre 2025 e 2031, a uma taxa de crescimento anual composta de 48,4%. A Novo Nordisk ja colocou no mercado a versão oral do Wegovy a um preço entre 149 e 299 dólares mensais, contra os cerca de mil dólares mensais da versão injetável, uma diferença que poderá determinar uma nova vaga de adoção em massa.
Impacto na cesta de compras
Os efeitos sobre o comportamento de compra são mensuráveis. Quem toma estes medicamentos consome, em média, menos 700 calorias por dia, segundo dados compilados pelo Food Dive. Os agregados familiares com pelo menos um utilizador de GLP-1 reduziram as despesas em supermercado em 5,3% nos seis meses seguintes ao início do tratamento, de acordo com um estudo publicado no Journal of Marketing Research. Nas refeições rápidas e cafés, a quebra é de cerca de 8%; nos snacks salgados, de 10%. Em contrapartida, crescem as compras de iogurtes, fruta fresca, barras de proteína e carne magra.
Não é apenas o volume que muda, é a lógica da escolha. Os utilizadores de GLP-1 comem menos, mas ficam saciados mais depressa e precisam de garantir ingestão adequada de nutrientes. Isso cria uma procura específica: porções mais pequenas, com alta densidade nutricional, ricas em proteína (para retenção muscular), fibra (para suporte intestinal), micronutrientes e hidratação e com menor teor de açúcar e gordura para minimizar efeitos secundários como náuseas e obstipação. Ao mesmo tempo, o sabor não pode ser sacrificado: mais de metade dos utilizadores diz que o prazer gustativo passou a pesar mais nas suas decisões alimentares desde que iniciaram o tratamento.
Retalho na linha da frente
A resposta mais rápida veio, surpreendentemente, dos retalhistas e não dos fabricantes. Em janeiro, o fenómeno Jab-uary concretizou-se no retalho britânico com lançamentos coordenados de refeições prontas de pequeno formato, ricas em nutrientes, por parte da M&S, Tesco, Co-op, Iceland, Morrisons, ASDA, Aldi e Ocado. Algumas inseriram a rotulagem explícita GLP-1 friendly; outras optaram por incorporar os benefícios na formulação sem os comunicar diretamente na embalagem.
Entre os exemplos mais citado, a Morrisons colaborou com a Applied Nutrition para lançamentos de refeições prontas GLP-1 friendly; a Co-op criou a gama Good Fuel, com mini-refeições de 250 gramas com proteína, fibra e uma porção de fruta/legumes; a M&S apostou em saladas, snacks e pratos nutricionalmente densos.
Nos Estados Unidos, onde o fenómeno teve início mais precoce, a Nestlé lançou em 2024 a gama Vital Pursuit, uma linha de refeições congeladas com grãos integrais, porções calibradas e pizzas com base de couve-flor. A ConAgra, por sua vez, identificou 26 produtos da sua gama Healthy Choice e apostou na rotulagem GLP-1 friendly.
O relatório da GlobalData sublinha que o desenvolvimento de produtos especificamente orientados para GLP-1 ainda está numa fase inicial no que respeita aos grandes fabricantes, que privilegiam a reformulação e o reposicionamento do portefólio existente como via mais rápida para o crescimento.
Uma oportunidade europeia por explorar
A Europa está, segundo os especialistas, na próxima vaga de expansão deste mercado. O Reino Unido é apontado como o maior mercado europeu emergente, mas os analistas do sector identificam igualmente potencial significativo em mercados como Alemanha, Franca e países nórdicos, onde as taxas de obesidade e as tendências de saúde proativa são simultaneamente elevadas.
Para os retalhistas europeus e para a indústria agroalimentar, as implicações são claras. Cestas de compras mais pequenas, menos impulso de compra, maior escrutínio da composição nutricional e uma crescente procura por formatos de porção reduzida com alta densidade nutricional são tendências que, se os dados norte-americanos e britânicos se replicarem, chegarão progressivamente aos mercados do sul da Europa, incluindo Portugal.
A dimensão do reposicionamento estratégico necessário não deve ser subestimada. Segundo um relatório da EY, os fabricantes com exposição significativa a snacks tradicionais, bebidas açucaradas e refeições de elevado valor calórico enfrentam pressão crescente e as opções passam por reformular produtos, reposicionar marcas em categorias mais saudáveis ou, em casos extremos, desinvestir em linhas sem potencial de adaptação.
Consumidor GLP-1: perfil de alto valor
Há um dado que contraria o pessimismo de quem vê nos GLP-1 apenas uma ameaça ao volume de vendas. Os utilizadores destas terapias são consumidores com comportamento de compra distinto e, em média, mais propensos a experimentar marcas novas. Dados do The New Consumer revelam que 27% dos utilizadores de GLP-1 compram um produto ou marca novo em cada visita ao supermercado, contra apenas 3% da média dos consumidores. No total, 89% experimentam produtos novos pelo menos ocasionalmente, face a 70% na população geral.
Este é também um consumidor tendencialmente mais afluente, pelo menos na fase atual, em que o custo dos injetáveis permanece elevado, e com maior propensão para o trading up, não só em alimentação, mas também noutras categorias de consumo. A redução do preço com a introdução dos comprimidos poderá, contudo, democratizar o perfil socioeconómico dos utilizadores e amplificar o impacto sobre o retalho em geral.
A mensagem para a indústria alimentar e para o grande retalho e inequívoca: os GLP-1 não são uma tendência passageira. São uma força estrutural de recomposição do consumo. As empresas que anteciparem esta transição, reformulando produtos, redesenhando porções, clarificando a comunicação nutricional e desenvolvendo ofertas de alto valor para um consumidor mais exigentr, estarão mais bem posicionadas para crescer num mercado que mudou de regras sem pedir licença.








