Daiva Rakauskaitė, sócia e gestora do fundo Aneli Capital, Fintech Daiva Rakauskaitė, sócia e gestora do fundo Aneli Capital,

Fintech global gera 650 mil milhões, mas Europa continua aquém do potencial

Receitas mundiais do sector cresceram 21%, mas a penetração fintech na Europa mantém-se nos 2,6%, abaixo da Ásia e muito distante da América Latina.

O sector global das fintech entrou numa nova fase de crescimento após vários anos de turbulência, mas a Europa continua a ficar para trás na transformação digital dos serviços financeiros. Em 2025, as fintech geraram cerca de 650 mil milhões de dólares em receitas a nível mundial, o que representa um crescimento anual de 21%, segundo dados da McKinsey.

O dinamismo do mercado também se refletiu no investimento. De acordo com a CB Insights, o valor dos negócios de investimento em fintech atingiu 12,1 mil milhões de dólares no primeiro trimestre deste ano, mais 3,7% do que no mesmo período de 2025. Os Estados Unidos concentraram 47% das operações, enquanto a Europa representou cerca de 21%.

Apesar deste crescimento global, a penetração das fintech nos serviços financeiros europeus continua reduzida. Segundo a McKinsey, o sector representa apenas 2,6% do mercado financeiro europeu, abaixo dos 3% registados na Ásia e muito distante dos 8% observados na América Latina.

Para Daiva Rakauskaitė, sócia e gestora do fundo Aneli Capital, o mercado europeu está “subaproveitado”, sobretudo porque os consumidores já demonstram maior confiança nas plataformas digitais do que nos bancos tradicionais. Um inquérito da McKinsey realizado em vários países europeus mostra, pela primeira vez, que os utilizadores consideram as fintech mais inovadoras, transparentes nas comissões e vantajosas em termos de relação qualidade-preço.

A investidora aponta, contudo, vários entraves estruturais ao crescimento europeu: mercados nacionais fragmentados, maior peso dos bancos incumbentes, menor acesso a capital e um ambiente regulatório mais exigente.

“Na Europa, a regulação dita muitas vezes o ritmo de expansão das fintech. Para as empresas em fase inicial, os requisitos de licenciamento e conformidade aumentam os custos e a complexidade da entrada no mercado, favorecendo operadores maiores e mais capitalizados”, afirma Daiva Rakauskaitė.

A especialista defende, ainda assim, que as empresas que investirem cedo em capacidades regulatórias poderão transformar a conformidade numa vantagem competitiva, reforçando a confiança dos clientes e tornando-se mais atrativas para investidores.

IA pode mudar as regras do jogo

Segundo a gestora da Aneli Capital, a próxima geração de vencedores europeus será composta por fintech capazes de crescer num ambiente regulado e, ao mesmo tempo, tirar partido da inteligência artificial para escalar operações.

Dados recentes da PitchBook mostram que os investidores estão a apostar cada vez mais em startups “AI-native”, com equipas mais pequenas a atingirem metas de crescimento mais rapidamente do que no passado.

“Escalar um produto financeiro exigia tradicionalmente grandes equipas de engenharia, operações e compliance. Hoje, a inteligência artificial permite automatizar partes significativas do desenvolvimento de produto, das operações e do apoio ao cliente, reduzindo o capital necessário para crescer”, sublinha Daiva Rakauskaitė.

Embora as atividades financeiras reguladas continuem a exigir estruturas robustas de controlo e governação, a combinação entre inteligência artificial e capacidade regulatória poderá tornar-se o principal fator diferenciador da próxima vaga de fintech europeias.

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