A riqueza global continua a crescer mais rapidamente do que a economia real, aprofundando os desequilíbrios entre criação de riqueza, investimento e produtividade. A conclusão é do estudo The Global Balance Sheet 2026: Imbalance and Divergence, do McKinsey Global Institute (MGI), que identifica trajetórias cada vez mais divergentes entre as principais economias mundiais.
A riqueza das famílias atingiu um máximo histórico de 570 biliões de dólares em 2025, mais 40 biliões do que no ano anterior, enquanto o balanço global se aproximou dos 1,8 mil biliões de dólares. Contudo, apenas 20% do crescimento da riqueza das famílias resultou da formação de novo capital produtivo.
Mais de metade da riqueza criada em 2025 teve origem na valorização de participações em capital e fundos de investimento. Já o contributo do imobiliário ficou abaixo dos níveis observados nas últimas duas décadas, sinalizando uma crescente dependência da valorização de ativos existentes em detrimento da criação de novo capital produtivo.
Europa fica para trás no investimento
O MGI identifica diferenças significativas entre as principais economias. Os Estados Unidos beneficiam de um crescimento da produtividade mais robusto, embora mantenham vulnerabilidades associadas à elevada dívida pública e às valorizações acionistas historicamente elevadas.
A China continua a ajustar-se à correção do mercado imobiliário, num contexto de aumento da dívida pública e empresarial e de procura de novos motores de crescimento.
Na Europa, o cenário é diferente. Apesar de apresentar balanços relativamente mais equilibrados, a região enfrenta uma combinação de produtividade estagnada, elevados níveis de poupança e investimento insuficiente, aproximando-se de um cenário de estagnação secular.
O défice de investimento empresarial europeu face aos Estados Unidos é estimado em cerca de 700 mil milhões de dólares, equivalente a aproximadamente três pontos percentuais do PIB.
Para o MGI, colmatar esta diferença através do reforço do investimento em infraestruturas, maquinaria e equipamento e propriedade intelectual será essencial para aumentar a produtividade, reforçar a competitividade e sustentar o crescimento económico no longo prazo.
Riqueza europeia permanece praticamente estagnada
Na Zona Euro, a riqueza per capita manteve-se próxima dos níveis de 2024, em cerca de 235 mil euros por pessoa. Embora os mercados acionistas tenham contribuído positivamente para a riqueza das famílias, outros ativos tiveram dificuldade em acompanhar a inflação.
Na Alemanha e em França, a riqueza per capita diminuiu, refletindo, em parte, a descida dos valores imobiliários.
O investimento produtivo na Europa permanece, por sua vez, abaixo dos níveis anteriores à pandemia e das médias globais. Os elevados níveis de poupança continuam também a limitar a procura e o crescimento económico.
Apesar destes constrangimentos, os balanços europeus são considerados relativamente equilibrados face aos de outras grandes economias, com níveis de endividamento das famílias e valores imobiliários mais próximos das respetivas médias históricas.
Portugal combina sinais distintos
Portugal acompanha algumas das tendências identificadas na Europa, mas apresenta uma evolução diferenciada entre os vários componentes dos balanços económicos.
A riqueza líquida das famílias por habitante diminuiu cerca de 1,6% entre 2024 e 2025. No mesmo período, os ativos produtivos – incluindo infraestruturas, maquinaria e equipamento e propriedade intelectual – diminuíram cerca de 10 pontos percentuais do PIB.
Em sentido contrário, Portugal atingiu um máximo histórico no rácio entre capitalização corporativa e PIB, acompanhando a tendência global de valorização dos mercados acionistas.
O país reduziu ainda a dívida pública em cerca de quatro pontos percentuais do PIB.
Quatro cenários para a próxima década
O estudo identifica quatro possíveis trajetórias para os atuais desequilíbrios entre riqueza, dívida e economia real: aceleração da produtividade, inflação sustentada, estagnação secular ou correção do balanço.
A aceleração da produtividade é, segundo o MGI, o único cenário capaz de sustentar simultaneamente o crescimento dos rendimentos, da riqueza e da atividade económica.
Nos restantes cenários, os ajustamentos poderão ocorrer através de inflação mais elevada, períodos prolongados de crescimento reduzido ou correções no valor dos ativos e do endividamento.
Atualmente, os Estados Unidos apresentam características mais próximas de uma trajetória de aceleração da produtividade, enquanto a China procura um novo equilíbrio depois do ajustamento imobiliário. A Europa permanece mais próxima de uma trajetória de estagnação secular.
Para a Zona Euro, o fator crítico para alterar esta trajetória será o aumento do investimento produtivo, num contexto em que a capacidade de reforçar a produtividade e a criação de riqueza será determinante para a evolução económica da próxima década.








