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“Encontrar um equilíbrio entre qualidade, preço, fatores de acessibilidade e sustentabilidade pode ser o segredo para conquistar o consumidor veggie”

9% da população portuguesa já segue uma dieta veggie. Entre vegetarianos, vegan e flexitarianos, são cada vez mais os consumidores que adotam regimes alimentares alternativos ao omnívoro e que deixam de ser, cada vez menos, um nicho. Com cada vez mais pessoas a reduzirem o consumo de carne, prevê-se também um crescimento da oferta disponível no mercado. As marcas estão, gradualmente, a adaptar-se a estas tendências, mas, segundo o estudo da Lantern Innovation Consultancy, ainda não há um espaço concretamente definido para estas dietas. Mais ainda, diz-nos David Lacasa, Partner da Lantern, os retalhistas não estão ainda a prestar muita atenção a este tipo de consumidor. Os desafios e oportunidades deste mercado emergente numa entrevista à Grande Consumo.

Grande Consumo – Que percentagem da população portuguesa já segue uma dieta veggie?

David Lacasa – De acordo com o nosso estudo, que tem por base uma amostra de mil entrevistados, Portugal já tem uma percentagem de 9% de indivíduos que seguem uma dieta veggie, entre vegans, vegetarianos e flexitarianos.

 

GC – Vegetarianos, vegan ou flexitarianos, qual a faixa que mais tem crescido e, na sua opinião, porquê?

DL – Com a investigação que temos levado a cabo, que teve início em Espanha em 2017 e que agora se estende também a Portugal, temos percebido que os flexitarianos são a camada que se encontra em maior crescimento neste momento.

A verdade é que ser vegan e vegetariano não é tarefa fácil, exige muitos sacrifícios e é complicado de seguir, se o ambiente não for o mais favorável, às vezes até pelo contexto familiar ou económico.

Já o flexitarianismo é uma forma mais simples de adaptar a alimentação e rever os hábitos alimentares, enquadrando-os em algumas opções que habitualmente já são consideradas, tornando-se, por isso, uma mudança que combina benefício e facilidade. Por outro lado, os flexitarianos adotam este tipo de dieta muito por motivos de saúde, enquanto os vegans e vegetarianos fazem-no por motivos mais éticos, ligados a causas de sustentabilidade e cuidado com os animais. A saúde é uma tendência mais forte e que, sobretudo, entre os mais jovens, tem feito crescer este segmento.

 

GC – É possível traçar um perfil deste consumidor veggie?

DL – O perfil é muito amplo. Os veggies têm uma representatividade muito similar em termos da faixa etária. Contudo, há duas tendências rapidamente identificáveis. Primeiramente, observamos que os jovens veggies são mais extremos, já que entre eles há mais vegans e vegetarianos que no resto dos intervalos etários. Logo depois, percebemos que este é um fenómeno tendencialmente mais feminino: 63% dos veggies são mulheres.

Em termos genéricos, podemos dizer que são pessoas que cuidam muito mais da sua saúde e que manifestam uma preocupação crescente com a mesma, além do compromisso que assumem com o meio ambiente e os animais.

 

GC – Como se pode caracterizar a oferta atualmente disponível em Portugal para quem segue estes regimes alimentares? É fácil aceder a estes produtos, quer do ponto de vista do acesso propriamente dito, quer do preço?

DL – Atualmente, começa a haver uma oferta maior deste tipo de produtos nas lojas em Portugal e as marcas estão, gradualmente, a adaptar-se a estas tendências. Contudo, o que é um facto é que ainda não há um espaço concretamente definido para estas dietas e os retalhistas não estão a prestar muita atenção a este tipo de consumidor.

GC – O facto destes produtos terem a taxa máxima de IVA em Portugal e o consequente encarecimento do preço desincentiva a sua compra? Que outras barreiras encontram?

DL – Não tanto ao nível da oferta em produtos, neste momento, o maior problema para os veggies está fora de casa. Um terço dos veggies tem problemas em encontrar uma oferta adaptada à sua dieta quando sai para comer fora. Esse é o maior inconveniente atualmente.

 

GC – Os consumidores estão satisfeitos com a oferta veggie atualmente disponível? O que mais apreciam e o que representa o seu principal foco de insatisfação?

DL – Segundo a análise que levámos a cabo, em Portugal, há ainda um elevado grau de insatisfação por parte do consumidor relativamente aos produtos alternativos oferecidos pelo mercado: cerca de 55% dos consumidores está ainda bastante insatisfeito.

A mesma dificuldade sentem relativamente às opções de refeições fora de casa. O consumidor veggie sente que existe ainda uma resistência dos restaurantes e outros espaços em criar opções especificamente destinadas aos seus hábitos alimentares. Habitualmente, encontram disponíveis sopas, saladas, alguns vegetais, mas poucas refeições realmente adaptadas às suas preferências, que combinem sabor e qualidade.

O que nos mostra que há ainda um longo caminho a percorrer e uma janela de oportunidades bastante interessante: encontrar um equilíbrio entre qualidade, preço, fatores de acessibilidade e sustentabilidade pode ser o segredo para conquistar este consumidor e ganhar maior espaço no mercado.

GC – Como é que o mercado tem vindo a adaptar-se à necessidade de criar produtos para estes consumidores? De que modo têm as marcas se posicionado perante esta mudança de paradigma?
DL –
Há uma tendência curiosa a que temos vindo a assistir e que responde bem a esta questão: cada vez mais, as marcas estão focadas em recriar, em versão veggie, os mesmos produtos que existem concebidos com proteína animal. Quase que na tentativa de encontrar uma alternativa não diferenciadora, mas apenas adaptada: a Hellmans tem a sua maionese feita sem ovos e leite, a Magnum os seus gelados sem leite e ovos, entre muitas outras. Ou seja, ainda não há produtos pensados, desde o início, para este tipo de consumidor que procura comer mais vegetais, mas não necessariamente produtos que imitam os concebidos para omnívoros. Esse é talvez o maior espaço que existe ainda para as marcas explorarem e talvez aquele que está a ser menos aproveitado.

 

GC – Apesar de em crescendo, este tipo de consumo ainda é um nicho? Em que nível está Portugal comparativamente com o resto da Europa?

DL – Quem pensa que este é um consumo de nicho está cada vez mais enganado. De acordo com o estudo que agora desenvolvemos, percebemos que este grupo representa já 9% da população adulta. Em Espanha, onde começámos esta investigação e onde também desenvolvemos o estudo, representa 9,9% da população, uma percentagem muito idêntica. Noutros países da Europa, os veggie chegam a ser já 20% da população.

Mas o mais relevante é a tendência: há cada vez há mais gente a reduzir o consumo de carne. Em Portugal, 45% declara ter reduzido ou eliminado o consumo de carne vermelha e 51% assume ter reduzido ou eliminado por completo os enchidos. Ou seja, o grupo de veggies é cada vez menos um nicho e há ainda um grupo paralelo a reduzir o consumo de alguns produtos e que são também eles consumidores dos produtos para veggies.

 

GC – Qual o potencial de crescimento futuro destes produtos?

DL – Em Espanha, onde já fizemos o estudo em 2017 e também este ano, em dois anos, o crescimento deste segmento foi de 27%. Só na Europa, de 2013 a 2016, os produtos com a etiqueta vegetariana cresceram 35% e os vegans 55%. E ainda não é uma categoria tão grande como outras. Por isso, o potencial é muito grande.

 

GC – Que tendências quanto ao consumo poderemos vir a assistir?
DL
Não nos podemos esquecer que este tipo de consumidor tem uma consciência global muito maior que o resto: são indivíduos que valorizam não só a sua saúde, mas que se preocupam e estão muito atentos a questões ambientais. As suas escolhas são transversais a várias opções do quotidiano, que se estendem além da alimentação. Por isso mesmo, em termos de consumo, vamos assistir a uma tendência clara por produtos mais amigos do meio ambiente e com menor impacto no planeta em geral. Para os produtos animais ou derivados, o bem-estar animal vai a ser um elemento muito crítico. Por outro lado, o próprio packaging e apresentação dos produtos vai também ser determinante: os produtos que vão a ser lançados, nos próximos meses, têm a responsabilidade acrescida de se apresentarem ao consumidor de forma sustentável, senão vão ser um problema a curto prazo.

GC – É uma área marcada pela inovação? Quais as inovações mais recentes?

DL – Sem dúvida. Agora mesmo, o sector que mais está a inovar é o dos lacticínios. Cada vez há uma oferta mais ampla neste âmbito. Os iogurtes vegetais são os que ainda têm maior potencial de inovação e maiores possibilidades para alargar a oferta, mas outro grande sector que está a desenvolver inovações é o da carne, com toda a sua oferta de substitutos “plant based”. Apesar de, neste âmbito, o mais complicado seja a diferenciação. Atualmente, já existe muita oferta, mas há uma resistência à criação de produtos que, de facto, se distingam pela positiva.

GC – Por onde é que este mercado tem maior potencial de desenvolvimento?

DL – Entendemos que a área da restauração e o consumo fora de casa é onde existe uma margem de crescimento e potencial de desenvolvimento maior. É, sobretudo, neste aspeto que o consumidor veggie se sente mais insatisfeito e, por isso mesmo, há uma janela de oportunidade muitíssimo maior para o sector.

Assim, é a própria conveniência que tem de acompanhar esta tendência e que, nesta área, ainda não foi suficientemente explorada. As pessoas que optam por fazer alterações nos seus hábitos alimentares querem comer mais verduras, conhecer novas opções, novas receitas e não mais hambúrgueres transformados em opções sem proteína animal. Há muitas culturas gastronómicas que têm um conjunto muito atrativo de opções originalmente concebidas com verduras: as asiáticas (Coreia, China, Vietname, Tailândia) e o norte de África (Marrocos, Turquia), sobretudo, das quais podemos estar próximos e com as quais podemos aprender, sendo capazes de oferecer a quem é veggie uma opção única, diferenciadora e não adaptada. Podem criar-se, especificamente para este grupo, muitos mais pratos saudáveis e, acima de tudo, saborosos, que o vão, seguramente, conquistar.

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