Painel de discussão da LogiPack, com cinco participantes sentados num palco e um ecrã com os seus retratos

Embalagem alimentar: sustentabilidade sem comprometer a segurança

A falta de conhecimento nas PME, o novo regulamento europeu e o difícil equilíbrio entre sustentabilidade e segurança alimentar dominaram o debate.

“Sem embalagem não há segurança alimentar.” A mensagem foi deixada pela FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares, na conferência “O Valor Acrescentado da Embalagem Alimentar”, integrada na LOGIPACK, no Centro de Congressos de Lisboa. Em debate esteve uma embalagem que já não serve apenas para proteger e conservar os alimentos: pesa também na qualidade, na sustentabilidade e na decisão de compra.

Na abertura, Jorge Henriques, presidente da FIPA, reconheceu que o setor vive um dos momentos mais exigentes da sua história. Apontou os custos da recolha seletiva, a ineficiência dos sistemas e o incumprimento das metas europeias de reciclagem, que já valem multas a Portugal.

“Na FIPA costumamos dizer que o aumento da esperança de vida se deve, em grande parte, à evolução da embalagem nas últimas décadas”, afirmou. Lembrou ainda que a indústria se antecipou à lei na criação do Ponto Verde e contribuiu para o sistema Volta, de depósito e reembolso de embalagens de bebidas. “Segurança, sustentabilidade e ambiente são hoje aspetos cruciais para a indústria agroalimentar”, sublinhou.

PME precisam de mais conhecimento

“O maior desafio é o conhecimento.” Foi com este alerta que Paula Arês, consultora em qualidade e segurança alimentar, desafiou as universidades. Alertou para “o desconhecimento sobre as embalagens” nas PME, que foi agravado pelas exigências do novo Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR). Algumas empresas, observou, só agora descobrem que as embalagens que usam são multicamada. As faculdades, criticou, têm dado pouca atenção à embalagem nos cursos da área alimentar, quando esse saber é essencial no dia-a-dia da indústria.

Paula Arês defendeu também a necessidade de acelerar a investigação. Em Portugal já há estudos sobre revestimentos e embalagens comestíveis. Existem também soluções biodegradáveis e rótulos inteligentes que ajudam a reduzir resíduos e desperdício alimentar.

Reutilização e reciclagem em debate

No debate, moderado por Délio Raimundo, da Campotec, Fátima Poças admitiu que conciliar sustentabilidade e segurança alimentar “não é fácil”. A docente e investigadora na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa questionou o “deslumbramento pelo biodegradável” das gerações mais novas. “Pergunto porque é que uma embalagem para alimentos tem de ser biodegradável. É uma enorme falta de sustentabilidade usar a embalagem apenas uma vez”, afirmou. Defendeu mais reutilização, com segurança, e mais educação para a reciclagem.

A investigadora lembrou que a reciclagem para contacto alimentar está bem regulada no PET, mas é difícil de transpor para outros materiais. Avisou também que “biológico” não é sinónimo de seguro. E deixou um paradoxo: Portugal exporta vinho e, com ele, o vidro, ficando sem casco para reciclar.

Ana Marta Ramos, da área regulamentar de embalagem da Mondelez International, lembrou que o consumidor decide sobretudo na loja e é cada vez mais cético quanto aos materiais. “Não há materiais bons ou maus, há materiais que se adequam a uns alimentos e outros que são melhores para outros”, sublinhou. Admitiu um fosso entre intenção e ação: o preço e a conveniência ainda pesam mais, e a sustentabilidade não faz vender mais. “Cabe-nos a nós, indústria, ser o motor desta mudança de mentalidade”, defendeu.

Para Ana Salvaterra, responsável pelo laboratório de química do Centro Nacional de Embalagem, “não existe a embalagem perfeita”. A responsável avisou que os novos materiais biodegradáveis avançam mais depressa do que a lei e que muitos precisam de aditivos. Defendeu a aposta na reciclagem, mas com cautela na reciclagem química. Criticou também a perda de informação nas cadeias com intermediários: “Ainda há muito desconhecimento”.

Paula Arês defendeu um desenvolvimento de embalagens planeado por etapas e com equipas multidisciplinares. Lembrou ainda que as preferências do consumidor nem sempre protegem o produto. Durante anos, contou, defendeu a utilização de garrafas escuras para proteger o azeite da luz, mas os consumidores preferiam as embalagens transparentes, pois queriam ver a cor do azeite.

Um investimento, não um custo

No encerramento, os oradores foram unânimes: a embalagem não pode ser encarada como um custo, mas como um investimento. Ana Marta Ramos destacou o seu papel como veículo de comunicação entre marcas e consumidores. Paula Arês sublinhou a importância de adequar a embalagem ao uso.

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