O comércio mundial de mercadorias continua a mostrar resiliência, embora comece a dar sinais de abrandamento. De acordo com o mais recente “Barómetro do Comércio de Mercadorias” da Organização Mundial do Comércio (OMC), o indicador recuou de 102,3 pontos, em janeiro, para 101,7 pontos, mantendo-se, ainda assim, acima do valor de referência de 100.
Uma leitura acima de 100 indica que o comércio está a crescer acima da tendência ou deverá fazê-lo no curto prazo. A descida do indicador sugere, contudo, que o ritmo de expansão poderá moderar-se nos próximos meses, num contexto de instabilidade geopolítica e perturbações associadas ao conflito no Médio Oriente.
IA compensa parte do impacto geopolítico
Segundo a OMC, o impacto negativo do conflito no Médio Oriente poderá ter sido parcialmente compensado pelo aumento da procura por componentes eletrónicos ligados ao investimento em inteligência artificial.
O índice de componentes eletrónicos situou-se claramente acima da tendência, em 105,5 pontos, refletindo a força da procura por semicondutores, chips e outros produtos associados à infraestrutura tecnológica.
Esta dinâmica ajuda a explicar por que razão o comércio global continua relativamente estável, apesar da pressão sobre energia, rotas marítimas e transporte internacional.
Transporte marítimo e carga aérea ainda acima da tendência
Os indicadores de transporte também apontam para resiliência, embora com menor intensidade do que há alguns meses. De acordo com o barómetro, a carga aérea e o transporte de contentores continuam acima da tendência, com leituras de 102,2 e 102,4 pontos, respetivamente. No entanto, ambos crescem a um ritmo mais lento, sinalizando que a expansão do comércio poderá estar a perder fôlego.
Já o índice de matérias-primas agrícolas ficou ligeiramente abaixo da tendência, evidenciando maior fragilidade neste segmento.
Crescimento deverá abrandar em 2026
A OMC já tinha antecipado uma forte desaceleração do comércio mundial de bens em 2026. A organização prevê que o crescimento passe de 4,6% em 2025 para 1,9% este ano, podendo abrandar ainda mais se o conflito no Médio Oriente continuar a pressionar os preços da energia e a perturbar o transporte global.
Num cenário de preços elevados do petróleo e do gás natural liquefeito ao longo de 2026, o crescimento do comércio mundial de mercadorias poderá cair para 1,4%, segundo as estimativas da OMC.
O risco mais sensível está associado ao Estreito de Ormuz e ao impacto do conflito sobre energia e fertilizantes. A OMC alerta que uma perturbação prolongada naquela rota poderá afetar importações de ureia, um fertilizante essencial para grandes produtores agrícolas como a Índia, a Tailândia e o Brasil, agravando riscos de segurança alimentar.
Preços elevados da energia poderiam retirar 0,5 pontos percentuais ao crescimento do comércio mundial de mercadorias, afetando sobretudo economias asiáticas e europeias mais dependentes da importação de combustíveis.
Serviços também sob pressão
O comércio de serviços não fica imune ao choque. A OMC estima que as perturbações no transporte marítimo e aéreo possam retirar 0,7 pontos percentuais às previsões de crescimento dos serviços, reduzindo a estimativa de 4,8% para 4,1%.
Em 2025, o comércio de serviços tinha crescido 5,3%, beneficiando da normalização da mobilidade internacional e da recuperação de várias atividades ligadas a viagens, transporte e serviços empresariais.
O desempenho de 2025 foi fortemente apoiado pelo comércio de produtos relacionados com inteligência artificial. Segundo a OMC, os bens que permitem o desenvolvimento da IA representaram 42% do crescimento do comércio global em 2025, apesar de corresponderem a apenas cerca de um sexto do comércio mundial. Este segmento cresceu 21,9% em termos homólogos, atingindo 4,18 biliões de dólares, cerca de 3,6 biliões de euros.






