Mão a tocar num ícone de alerta num ecrã tátil com interface digital futurista, ilustrando o ciber-risco Foto Shutterstock

Ciber-risco poderá gerar mais de 700 mil milhões de dólares em perdas não seguradas até 2030

O sec tor segurador enfrenta uma crescente diferença entre a dimensão dos novos riscos e a sua capacidade para os cobrir, com a cibersegurança a assumir-se como a principal fonte de risco não segurado.

As perdas associadas deverão aumentar de 171 mil milhões de dólares (cerca de 148,2 mil milhões de euros), em 2023, para mais de 700 mil milhões de dólares (606,8 mil milhões de euros) até 2030, segundo o “Insurtech Global Outlook 2026”, da NTT DATA.

O relatório identifica também uma pressão crescente provocada pelas alterações climáticas, pelos sinistros de responsabilidade e pela dificuldade das seguradoras em transformar a adoção crescente de inteligência artificial em soluções implementadas à escala.

Perdas climáticas não seguradas chegam aos 180 mil milhões

Além do ciber-risco, a NTT DATA estima em 180 mil milhões de dólares (cerca de 156 mil milhões de euros) as perdas não seguradas relacionadas com fenómenos climáticos, incluindo eventos meteorológicos extremos, inundações e incêndios florestais.

Os sinistros de responsabilidade registam, por sua vez, um aumento de 57%, reforçando aquilo que a consultora descreve como um cenário em que os riscos estão a crescer mais rapidamente do que a capacidade de resiliência e cobertura do sector.

Perante este contexto, o relatório defende uma evolução do modelo tradicional, centrado na indemnização depois do sinistro, para uma abordagem baseada na antecipação, deteção e prevenção contínua do risco.

Dados, inteligência artificial e ferramentas de simulação deverão assumir um papel crescente nesta transformação.

Apenas 22% das seguradoras conseguiu escalar a IA

Apesar da rápida adoção da inteligência artificial pelos profissionais do sector, a sua utilização à escala empresarial continua limitada. Segundo o estudo, 66% dos profissionais de seguros já utiliza ferramentas de IA, mas apenas 22% das seguradoras conseguiu levar estas soluções até à fase de produção em escala.

A NTT DATA considera que os principais obstáculos já não são essencialmente tecnológicos. Confiança, governação e modelos operacionais desenhados antes da atual vaga de inteligência artificial estão entre as principais barreiras à implementação.

A consultora estima que operações concebidas de raiz em torno de IA e modelos baseados em agentes possam permitir poupanças de custos até 35%, através da automatização e otimização de processos.

A condição, segundo o relatório, é incorporar desde o início mecanismos de explicabilidade, conformidade regulatória e responsabilização humana.

Prevenção ganha peso na relação com o cliente

A transformação tecnológica deverá também alterar a proposta das próprias seguradoras. A hiperpersonalização estará a crescer a uma taxa anual composta superior a 35%, enquanto 67% das entidades empregadoras estão a aumentar o investimento em prevenção.

Para a NTT DATA, estes indicadores apontam para um modelo de seguros progressivamente menos centrado apenas na resposta ao sinistro e mais orientado para ajudar clientes a evitá-lo.

A inteligência artificial poderá assumir um papel relevante na identificação antecipada de comportamentos, eventos ou padrões de risco, permitindo criar ofertas e recomendações mais personalizadas.

Embedded insurance supera 116 mil milhões de dólares

Outra das tendências identificadas é o reforço dos ecossistemas e das parcerias entre seguradoras e empresas de outros sectores. O mercado de seguros integrados, ou embedded insurance, ultrapassou os 116 mil milhões de dólares (cerca de 101 mil milhões de euros) em 2025, segundo os dados reunidos no relatório.

Este modelo permite integrar produtos de seguros diretamente noutras jornadas de compra e serviços, em vez de obrigar o consumidor a recorrer separadamente a uma seguradora.

A NTT DATA considera que ecossistemas apoiados por normas abertas e infraestruturas preparadas para responder às exigências regulatórias poderão tornar-se um importante motor de crescimento.

Financiamento por dívida supera capital próprio

O relatório identifica igualmente uma alteração no financiamento do sector insurtech.

Nos Estados Unidos, as ofertas públicas iniciais de seguradoras terão atingido o valor mais elevado dos últimos 20 anos, enquanto as startups recorrem cada vez mais ao endividamento.

O financiamento através de dívida alcançou 9,5 mil milhões de dólares (8,2 mil milhões de euros), ultrapassando o capital próprio captado pelas empresas do sector.

“A inação já não é uma opção”

Bruno Abril, global head of insurance da NTT DATA, considera que a indústria enfrenta “transformações estruturais num contexto de volatilidade e incerteza sem precedentes”, defendendo a utilização da IA para aumentar a confiança e a resiliência do sector.

Em Portugal, Nuno Albuquerque e Castro, head of insurance da NTT DATA Portugal, salienta a necessidade de as seguradoras reforçarem a capacidade de antecipar riscos. “A inteligência artificial será um acelerador fundamental desta transformação, permitindo aumentar a eficiência operacional e criar experiências mais personalizadas, desde que seja implementada com confiança, transparência e responsabilidade”, afirma.

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