Número “2050” com alvo vermelho e seta no centro, simbolizando objetivos ou metas futuras Foto Shutterstock

BCG traça quatro cenários para a economia mundial em 2050

A economia mundial em 2050 poderá ter pouco em comum com a atual ou representar uma versão mais extrema das tendências já em curso. O BCG Henderson Institute, think tank do Boston Consulting Group, apresentou o estudo “Beyond Tomorrow: Four Scenarios for the World of 2050”, no qual traça quatro cenários macroeconómicos para os próximos 25 anos, com impactos distintos no crescimento, no comércio global, na transição energética e na organização do trabalho.

O relatório assenta na análise de mais de 100 megatendências e num século de dados históricos. Segundo o BCG, o objetivo não é prever o futuro, mas identificar sinais precoces que permitam às empresas reconhecer, em tempo útil, a direção que o mundo está a tomar.

Do colapso do comércio à semana de três dias

Os cenários traçados pelo BCG variam entre uma cooperação global em torno da inteligência artificial, capaz de mais do que triplicar o Produto Interno Bruto (PIB) mundial, e uma fragmentação geopolítica que poderia devolver o comércio internacional a níveis próximos dos registados durante a Guerra Fria.

Dependendo do cenário, o comércio global pode recuar para 35% do PIB mundial ou manter-se próximo dos atuais 60%. A despesa em defesa pode subir até 7% do PIB global, num mundo dividido em blocos rivais.

Num cenário de cooperação tecnológica, as semanas de trabalho de quatro ou três dias podem generalizar-se, com as horas trabalhadas a caírem cerca de 25%. Já a eletricidade de baixo carbono poderá representar entre 55% e 90% da produção energética mundial, consoante o ritmo da transição.

Portugal exposto ao rumo da economia global

Para Pedro Pereira, managing director & senior partner do BCG em Lisboa, o exercício tem implicações diretas para as empresas portuguesas, dada a natureza aberta e exportadora da economia nacional. “Nenhum destes cenários é certo, mas todos são plausíveis – e Portugal, como economia aberta, exportadora e profundamente integrada no mercado europeu, é particularmente exposta ao rumo que o mundo vier a tomar”, afirma.

O responsável alerta que um cenário de Battling Blocs, com o comércio global a colapsar para níveis da Guerra Fria, “seria devastador para sectores como o turismo, a exportação industrial e os serviços”.

Em sentido inverso, um cenário de AI Abundance poderia representar “uma oportunidade de reinvenção”, mas apenas para as empresas que tenham investido em resiliência operacional, repensado o talento à luz da demografia e da inteligência artificial, e apostado em flexibilidade digital.

“O único erro estratégico verdadeiro é planear para um único futuro”, sublinha Pedro Pereira.

Abundância de inteligência artificial

O primeiro cenário, designado “Abundância de Inteligência Artificial”, assenta numa cooperação global em normas de IA, capaz de acelerar a produtividade, democratizar o acesso à tecnologia e impulsionar a oferta de energia de baixo carbono.

Neste cenário, o PIB global mais do que triplica, crescendo cerca de 5% ao ano entre 2025 e 2050, o ritmo mais elevado entre os quatro cenários. As horas médias de trabalho caem cerca de 25%, abrindo caminho à generalização de semanas de quatro ou três dias em algumas regiões.

O BCG considera ainda que os avanços impulsionados pela IA poderiam colocar o mundo numa trajetória credível, embora tardia, rumo à neutralidade carbónica.

Blocos em confronto

O segundo cenário, “Blocos em confronto”, parte de um agravamento das tensões geopolíticas, com o mundo dividido em blocos rivais, redução da cooperação internacional e reorganização do comércio mundial.

Neste contexto, o comércio global cairia para cerca de 35% do PIB, face a 57% em 2024, invertendo décadas de globalização. A despesa em defesa subiria para cerca de 7% do PIB global, à medida que os países priorizassem segurança e autossuficiência.

O crescimento do PIB mundial abrandaria para cerca de 1,8% ao ano, sustentado sobretudo por despesa pública em segurança, pensões e mitigação climática.

Coligação climática

No cenário “Coligação climática”, uma sucessão de fenómenos meteorológicos extremos no final da década de 2020 levaria governos, empresas e consumidores a colocarem a resiliência climática no centro da agenda.

Neste caso, o aquecimento global estabilizaria em cerca de 1,8 °C. Os mercados de carbono expandir-se-iam à escala global, com a maioria das grandes economias a participar até 2040.

A quota dos combustíveis fósseis no mix energético cairia dos atuais 81% para 35% em 2050, enquanto a eletricidade passaria a ser gerada quase exclusivamente a partir de fontes de baixo carbono. O PIB mundial cresceria, em média, 2,5% ao ano, refletindo o foco na transição climática, o abrandamento demográfico e o envelhecimento das sociedades.

Darwinismo digital

O quarto cenário, “Darwinismo digital”, descreve um mundo em que o progresso tecnológico se mantém acelerado, mas com regulação limitada, concentrando riqueza e poder nas maiores empresas e nos países tecnologicamente mais avançados.

Neste cenário, o PIB global cresceria 4% ao ano e quase triplicaria até 2050. Contudo, o 1% mais rico passaria a deter quase metade da riqueza mundial, enquanto a classe média continuaria a encolher.

A gig economy e os contratos de curta duração expandir-se-iam, à medida que a IA e a automação substituíssem tarefas rotineiras baseadas no conhecimento. A despesa em defesa subiria para cerca de 4% do PIB, face a 2,4% em 2024, num mundo mais fragmentado, mas em que o comércio e as cadeias de abastecimento continuariam abertas por interesses económicos.

Agilidade como imperativo estratégico

Pedro Pereira sublinha que, independentemente do cenário, há forças transversais que atravessam todos os futuros possíveis: maior volatilidade geopolítica, transformação acelerada do trabalho pela IA, pressão demográfica crescente e custos climáticos inevitáveis.

“Para as empresas portuguesas – muitas delas PMEs com recursos limitados para grandes apostas estratégicas – o imperativo não é prever qual destes mundos vai materializar-se. É construir a agilidade para reconhecer, rapidamente, em que direção o mundo está a mover-se, e ter a capacidade de ajustar a estratégia antes que a janela se feche”, afirma.

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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