Vista exterior do edifício-sede da Organização Mundial do Comércio, em Genebra, na Suíça. Em primeiro plano destaca-se um monólito escuro com o logótipo e a sigla da organização, enquanto ao fundo surge o complexo institucional rodeado por áreas ajardinadas e árvores cuidadosamente alinhadas Foto Shutterstock

OMC duplica previsão e antecipa crescimento de 3,9% no comércio mundial de mercadorias

O comércio mundial de mercadorias está a revelar-se bastante mais resistente do que a Organização Mundial do Comércio (OMC) previa no início do ano. Na atualização de outubro do “Global Trade Outlook and Statistics”, a OMC estima agora um crescimento de 3,9% em 2026, o dobro dos 1,9% previstos em março. Para 2027, a organização antecipa uma nova aceleração, para 4,1%.

O desempenho contrasta com um contexto internacional marcado pelo conflito no Médio Oriente, perturbações nos mercados energéticos e de fertilizantes e alterações nas rotas de transporte.

Comércio cresceu 3,5% no primeiro semestre

O volume do comércio mundial de mercadorias aumentou 3,5% no primeiro semestre de 2026, superando as expectativas da OMC. Segundo a organização, as cadeias de abastecimento conseguiram adaptar-se rapidamente às perturbações através da procura de fornecedores alternativos e da utilização de novos portos e corredores logísticos.

O volume global de contentores aumentou 3,9% até julho, reforçando a leitura de que o comércio internacional conseguiu absorver parte relevante dos choques.

IA explica 47% do crescimento do comércio mundial

O dado mais impressionante da atualização está na inteligência artificial. A procura por bens necessários ao desenvolvimento e operação de IA, nomeadamente semicondutores e servidores, representou 47% do crescimento do comércio mundial de mercadorias no primeiro semestre de 2026.

O comércio destes produtos aumentou 67% em termos homólogos, acelerando uma expansão que já era forte em 2024 e 2025.

A OMC estima ainda que o investimento global em infraestrutura de IA aumente pelo menos 30% em 2026, podendo crescer mais 10% a 20% em 2027.

Energia e fertilizantes continuam sob pressão

O quadro continua, contudo, marcado por fortes perturbações nas matérias-primas. As exportações de petróleo bruto do Médio Oriente caíram cerca de 24% no primeiro semestre, enquanto as de gás natural liquefeito (GNL) recuaram 47%.

Apesar disso, o impacto global foi bastante menor devido à entrada de fornecedores alternativos. As exportações globais de petróleo diminuíram apenas cerca de 6% e as de GNL cerca de 1%.

Nos fertilizantes, as importações mundiais de produtos nitrogenados ficaram apenas 2,8% abaixo das médias recentes, enquanto as de fosfatados aumentaram 2,2%.

Ásia lidera e Europa praticamente estagna

A recuperação está longe de ser homogénea. A Ásia deverá liderar o crescimento das exportações de mercadorias em 2026, com 9,9%, seguida pela América do Norte, com 5,7%, África, com 5,6%, e América do Sul, com 3,4%.  Na Europa, a OMC prevê uma evolução praticamente nula das exportações, com -0,1%.

Do lado das importações, a Europa deverá crescer apenas 0,5%, muito abaixo da Ásia, com 9,5%, ou de África, com 8,9%.

O conflito regional continua a pesar fortemente sobre os fluxos comerciais. A OMC prevê uma contração de 17,2% nas exportações do Médio Oriente em 2026 e uma queda de 15,4% nas importações.

A Comunidade de Estados Independentes deverá também registar uma redução das exportações, de 3,9%.

Comércio de serviços tem previsão revista em baixa

A evolução dos serviços contrasta com a das mercadorias. A OMC reduziu a previsão de crescimento do comércio de serviços em 2026 de 4,8% para 3,3%, sobretudo devido ao impacto do conflito do Médio Oriente sobre transportes e viagens. Para 2027, contudo, espera uma recuperação forte, com um crescimento de 6,4%.

No conjunto, o comércio mundial de bens e serviços deverá crescer cerca de 3,7% em 2026 e 4,7% em 2027.

A OMC antecipa um crescimento do PIB mundial de 2,6% em 2026 e 2,9% em 2027. Isso significa que o comércio de mercadorias deverá crescer acima da economia global em ambos os anos, sustentado sobretudo por digitalização, investimento tecnológico e reorganização das cadeias de abastecimento.

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