Mão a tocar num ecrã digital com vários ícones de cadeados, representando segurança informática Foto Shutterstock

Ciberataque a sistemas de refrigeração obriga supermercados a destruir alimentos

O risco cibernético no retalho alimentar está a assumir uma nova dimensão. Na noite de 11 para 12 de outubro, os hackers conseguiram assumir o controlo remoto de sistemas de refrigeração em centenas de supermercados franceses, colocando os equipamentos em ciclos prolongados de descongelação e elevando, em alguns casos, as temperaturas para cerca de 50 ºC.

O incidente afetou várias insígnias, entre as quais Intermarché, Netto, Coopérative U, Carrefour, Monoprix e E.Leclerc, obrigando as lojas a destruir produtos frescos e congelados e provocando incêndios em algumas instalações.

Intermarché foi uma das cadeias afetadas

As primeiras informações apontavam sobretudo para o Intermarché, mas o alcance acabou por revelar-se muito mais amplo. A AFP contabilizou pelo menos 300 lojas Intermarché ou Netto, mais de 100 unidades da Coopérative U, várias lojas E.Leclerc e outras unidades de grandes cadeias afetadas pelo ataque.

A Reuters refere ainda cerca de 80 lojas Carrefour e unidades Monoprix entre os operadores afetados.

O impacto financeiro total ainda não está fechado, mas Thierry Cotillard, responsável pelo grupo Les Mousquetaires, estimou perdas de dezenas de milhões de euros num único dia.

Frigoríficos passaram de equipamento operacional a alvo

O elemento mais relevante do ataque é o alvo escolhido. Os hackers não procuraram apenas aceder a bases de dados ou sistemas de pagamento. Atacaram diretamente os controladores ligados aos equipamentos de refrigeração, essenciais para preservar os alimentos frescos e congelados.

A investigação aponta para equipamentos Danfoss com firmware desatualizado e exposição remota inadequada. A fabricante afirmou estar a trabalhar com os clientes em atualizações de firmware, reforço das proteções de rede e remoção da exposição direta à Internet quando aplicável.

O caso transforma a cibersegurança numa questão direta de segurança alimentar e continuidade operacional.

Ataque pode não estar limitado a França

As autoridades francesas estão a coordenar-se com parceiros europeus devido à possibilidade de sistemas semelhantes estarem expostos noutros países. Entre os mercados mencionados nas investigações estão Espanha, Portugal, Polónia, Alemanha e Bélgica, embora isto não signifique que existam ataques confirmados em todos estes países. Até ao momento, não há confirmação pública de supermercados portugueses afetados.

Uma análise realizada após o ataque identificou mais de 800 controladores de refrigeração e sistemas de gestão de edifícios expostos diretamente à Internet no Reino Unido, de vários fabricantes. Os autores sublinham que o número deverá ser entendido como um mínimo e não como um levantamento exaustivo. O dado ajuda a perceber que a vulnerabilidade estrutural não é exclusiva do mercado francês: equipamentos operacionais conectados podem estar acessíveis em vários países quando não são corretamente segmentados ou atualizados.

Ahold Delhaize sofre incidente separado

Quase em simultâneo, a Ahold Delhaize confirmou um problema de segurança na sua rede e colocou vários sistemas offline como medida de precaução. O incidente afetou serviços digitais de marcas como Albert Heijn, Etos e Gall & Gall nos Países Baixos, além de operações do grupo noutros mercados.

Nos Estados Unidos, os websites da Food Lion, Hannaford, Stop & Shop e Giant ficaram igualmente indisponíveis, com nas encomendas online e entregas.

A Ahold Delhaize afirmou não existir, até ao momento, razão para considerar que o incidente esteja relacionado com o ataque aos sistemas de refrigeração em França.

Estados Unidos já tinham registado falhas semelhantes em agosto

O problema de refrigeração não é totalmente novo. Em agosto, pelo menos seis comissariados militares norte-americanos tiveram falhas simultâneas nos sistemas de refrigeração, obrigando à destruição de milhares de dólares em carne, lacticínios, frutas, legumes e congelados.

O Departamento de Defesa confirmou então uma “possível perturbação de refrigeração” em várias lojas, mas não determinou publicamente a causa.

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