A inteligência artificial (IA) está a deixar de ser um exclusivo das grandes tecnológicas para assumir um papel central na estratégia de empresas dos sectores do consumo, pagamentos, turismo e automóvel. A conclusão é da Freedom24, que analisa a mais recente época de apresentação de resultados e identifica a IA como um dos principais motores da próxima vaga de crescimento empresarial.
Segundo a análise, empresas como Coca-Cola, Ferrari, Visa, Mastercard, Tesla e Chipotle estão a integrar a IA nos seus modelos de negócio para aumentar a produtividade, reduzir custos, personalizar serviços e melhorar a tomada de decisão, numa tendência que se estende muito para além da denominada Big Tech.
Consumo mantém-se resiliente
Apesar do contexto de taxas de juro elevadas, inflação e incerteza geopolítica, as principais empresas de bens de consumo continuam a apresentar resultados sólidos.
A Coca-Cola aumentou as receitas em 7% no segundo trimestre, para 13,4 mil milhões de dólares, enquanto o lucro por ação cresceu 16%. Já a Procter & Gamble registou vendas de 87 mil milhões de dólares no exercício fiscal de 2026 e distribuiu mais de 15 mil milhões de dólares aos acionistas entre dividendos e recompra de ações.
Para a Freedom24, estes resultados demonstram que o consumo de bens essenciais continua a sustentar a economia mundial, mesmo num ambiente económico desafiante.
Luxo e experiências continuam em alta
No segmento premium, a Ferrari voltou a apresentar um desempenho robusto. As receitas cresceram 8%, para 1,94 mil milhões de euros, enquanto o lucro líquido aumentou 9%, apesar de a marca ter entregue menos automóveis do que no período homólogo.
O crescimento foi impulsionado pelo maior peso dos modelos de gama superior e dos programas de personalização, permitindo à construtora italiana rever em alta as previsões para 2026.
Também o sector dos serviços continua a beneficiar da preferência dos consumidores por experiências. A Royal Caribbean registou uma taxa média de ocupação dos navios de 110% e transportou um recorde de 2,4 milhões de passageiros, enquanto a Chipotle aumentou as receitas em 9,3%, suportada pelo crescimento das encomendas digitais e pela expansão da rede de restaurantes.
Pagamentos refletem dinamismo económico
A evolução da Visa e da Mastercard confirma igualmente a solidez do consumo global.
A Visa aumentou as receitas em 14%, para 11,6 mil milhões de dólares, impulsionada pelo crescimento dos pagamentos internacionais e do número de transações. A Mastercard registou um desempenho semelhante, com receitas de 9,3 mil milhões de dólares e um aumento de 19% no lucro líquido.
Segundo a Freedom24, a evolução das duas maiores redes de pagamentos do mundo constitui um importante indicador da atividade económica, mostrando que o consumo continua resiliente em diversos mercados.
IA torna-se ferramenta transversal
É, contudo, na utilização da inteligência artificial que a consultora identifica a principal mudança estrutural.
A Coca-Cola está a recorrer à IA para personalizar campanhas de marketing e acelerar o lançamento de novos produtos. A Chipotle utiliza algoritmos para prever a procura e otimizar a operação dos restaurantes, enquanto a Royal Caribbean aposta na tecnologia para personalizar a experiência dos passageiros.
No sector financeiro, a Mastercard destaca o crescimento da área de serviços de valor acrescentado, que inclui soluções de cibersegurança, prevenção da fraude e análise de dados, enquanto a Visa reforça o investimento em pagamentos inteligentes e serviços baseados em IA.
Automóvel acelera digitalização
A indústria automóvel surge igualmente entre os sectores mais impactados pela nova tecnologia.
A Tesla continua a investir fortemente em inteligência artificial, através do desenvolvimento da rede Robotaxi, do sistema de condução autónoma Full Self-Driving e do robô humanoide Optimus, mesmo à custa de uma redução da rentabilidade no curto prazo.
Também fabricantes tradicionais, como Ford e Stellantis, estão a reforçar o investimento em software, serviços digitais e IA, considerando estas tecnologias essenciais para aumentar a competitividade nos próximos anos.
Nova fase da inteligência artificial
Para a Freedom24, o mercado entrou numa segunda fase da revolução da inteligência artificial. Depois de uma primeira vaga centrada em fabricantes de semicondutores, infraestruturas de cloud e centros de dados, o foco desloca-se agora para empresas que utilizam a IA para transformar operações, melhorar a eficiência e criar novos modelos de negócio.
A análise conclui que, à medida que esta tecnologia se dissemina por toda a economia, o potencial de crescimento deixa de estar concentrado nas grandes tecnológicas e passa a abranger um conjunto muito mais alargado de sectores e empresas.








