Bárbara Bouçon, Manager Director do district.space Bárbara Bouçon, Manager Director do district.space

“ESG não é extra, é estratégia”: a nova exigência dos espaços de trabalho

O escritório deixou de ser um custo fixo para se tornar uma decisão estratégica. É esta a leitura de Bárbara Bouçon, Manager Director do district.space, para quem localização e preço já não bastam: bem-estar, flexibilidade e critérios ESG entraram de vez na equação de quem escolhe onde trabalhar. Nesta entrevista à Grande Consumo, explica como o coworking deixou de ser coisa de freelancers e startups para se tornar ferramenta de gestão nas grandes empresas, e detalha a abordagem do district.space, projeto nascido com ESG incorporado desde a conceção, não como resposta tardia ao mercado.

Bárbara Bouçon fala ainda do papel da regeneração urbana, do caso de Setúbal, e antecipa que os critérios ESG deixarão de ser diferencial para passarem a requisito de base nos próximos cinco anos. Argumenta também que sustentabilidade e retorno económico não são objetivos opostos, e que é essa a conversa que falta ter com os gestores financeiros.

Nos últimos anos, assistimos a uma transformação profunda da forma como as empresas encaram o trabalho. O que mudou definitivamente e o que ainda está por mudar?

Mudou, desde logo, a forma como as empresas encaram o escritório. Hoje, deixou de ser visto como um custo fixo ou uma necessidade incontornável e passou a assumir-se como uma decisão estratégica, capaz de influenciar a produtividade, a colaboração, a cultura organizacional e a capacidade de atrair talento.

O que ainda falta é evoluir na forma como avaliamos esse investimento. Continuamos a privilegiar indicadores tradicionais, como a área ocupada ou o valor da renda, quando deveríamos medir também o impacto que o espaço tem no desempenho das equipas, na retenção de colaboradores e no bem-estar organizacional. Essa mudança de paradigma ainda está em curso.

O cowork deixou de ser visto apenas como uma solução para freelancers e startups. Como evoluiu este conceito e que papel desempenha hoje na estratégia das empresas?

O coworking evoluiu significativamente. Numa primeira fase, respondeu sobretudo às necessidades de freelancers, empreendedores e startups que procuravam flexibilidade e acesso a infraestruturas de qualidade. Hoje, é uma solução cada vez mais adotada por empresas de média e grande dimensão, que procuram maior agilidade na gestão dos seus espaços de trabalho.

Mais do que uma alternativa ao escritório tradicional, o coworking tornou-se uma ferramenta estratégica que permite ajustar a ocupação às necessidades das equipas, reduzir compromissos imobiliários de longo prazo e acompanhar modelos de trabalho cada vez mais híbridos e dinâmicos.

O que procuram atualmente as empresas quando escolhem um espaço de trabalho: localização, flexibilidade, custos, bem-estar ou sustentabilidade?

Hoje, esses fatores são cada vez menos analisados de forma isolada. A localização e a flexibilidade continuam a ser critérios fundamentais, mas deixaram de ser suficientes.

As empresas procuram espaços capazes de proporcionar uma experiência de trabalho diferenciadora, que promova o bem-estar das equipas, reflita os seus valores e contribua para os seus objetivos de sustentabilidade. Temos assistido, inclusivamente, a um interesse crescente por informação relacionada com o desempenho ESG dos edifícios, algo que, há poucos anos, raramente fazia parte do processo de decisão.

A sustentabilidade está muitas vezes associada ao desempenho ambiental. Na sua perspetiva, porque é que os critérios ESG devem ser encarados de forma mais abrangente?

A sustentabilidade não se esgota na eficiência energética ou na redução da pegada ambiental. Um edifício pode ter excelentes indicadores ambientais e, ainda assim, não proporcionar boas condições de trabalho, não promover a inclusão ou não contribuir positivamente para a comunidade onde está inserido.

Os critérios ESG exigem uma abordagem integrada. A componente ambiental é fundamental, mas o impacto social e a qualidade da governação são igualmente determinantes para construir organizações mais responsáveis, resilientes e preparadas para o futuro.

O district.space nasceu já com critérios ESG integrados na sua estratégia. Que vantagens competitivas resultam dessa abordagem?

Desde a sua criação, o district.space foi concebido com os critérios ESG integrados na sua estratégia de desenvolvimento, e não como uma resposta posterior às exigências do mercado.

Essa abordagem permite-nos atuar com maior consistência, estabelecer relações de confiança com investidores e empresas que valorizam estes princípios e desenvolver um modelo de crescimento coerente com os nossos objetivos de impacto. Mais do que cumprir requisitos, procuramos demonstrar que a sustentabilidade pode ser um fator de criação de valor e de diferenciação competitiva.

O impacto social e a regeneração urbana podem gerar retorno económico para um negócio ou continuam a ser vistos como um custo?

Durante muito tempo foram encarados como um custo adicional. No entanto, essa perceção está a mudar à medida que se torna evidente que cidades mais qualificadas, espaços mais atrativos e comunidades mais dinâmicas também geram maior valor económico.

A regeneração urbana atrai empresas, investimento e talento, contribuindo para valorizar os territórios e criar oportunidades de negócio. Existe uma relação cada vez mais evidente entre impacto positivo e competitividade, e acreditamos que essa tendência continuará a reforçar-se.

Como pode um espaço de trabalho contribuir para a produtividade, a criatividade e a retenção de talento?

O espaço de trabalho influencia diretamente a experiência diária dos colaboradores. Elementos como a qualidade da luz natural, o conforto, a acústica, a ergonomia ou a existência de áreas que promovam a interação informal têm impacto na concentração, na criatividade e na colaboração entre equipas.

Ao mesmo tempo, um ambiente de trabalho cuidado transmite uma mensagem clara sobre a cultura da organização. Cada vez mais, as pessoas valorizam empresas que investem na qualidade do espaço onde trabalham, o que também contribui para atrair e reter talento.

As novas gerações valorizam de forma diferente o local onde trabalham. De que forma essa mudança está a influenciar as decisões das empresas?

As novas gerações procuram ambientes de trabalho alinhados com os seus valores e expectativas. Valorizam a flexibilidade, o bem-estar, a sustentabilidade e o sentido de comunidade, e isso influencia naturalmente as decisões das organizações.

Hoje, o escritório é também uma expressão da cultura empresarial. As empresas reconhecem que o espaço onde recebem colaboradores, clientes e parceiros comunica a sua identidade e pode reforçar a sua capacidade de atrair talento num mercado cada vez mais competitivo.

Que erros continuam muitas organizações a cometer quando desenham ou reformulam os seus espaços de trabalho?

Um dos erros mais frequentes é replicar tendências sem considerar a realidade da própria organização. Cada empresa tem uma cultura, uma forma de trabalhar e necessidades específicas, pelo que o espaço deve ser pensado em função dessas características e não apenas das tendências do mercado.

Outro erro recorrente consiste em integrar a sustentabilidade apenas numa fase final do projeto, quando deveria estar presente desde o início do processo de conceção.

Portugal tem condições para se afirmar como um destino de referência para empresas que procuram modelos de trabalho mais flexíveis e sustentáveis?

Portugal reúne várias condições favoráveis, desde a qualidade de vida e o talento disponível até à crescente maturidade do mercado de espaços flexíveis.

Existe uma oportunidade muito relevante para afirmar o país como uma referência nesta área, sobretudo se continuarmos a investir na regeneração urbana, na inovação e na criação de ambientes de trabalho alinhados com os desafios das empresas e das novas formas de trabalhar. Ao mesmo tempo, será importante criar condições para que este desenvolvimento se estenda a outras cidades além dos grandes centros urbanos.

O mercado de escritórios atravessa um período de transformação. Que tendências antecipa para os próximos cinco anos?

Acredito que assistiremos a uma segmentação cada vez mais evidente do mercado. Os edifícios capazes de responder às exigências de sustentabilidade, flexibilidade e bem-estar serão cada vez mais valorizados pelas empresas, enquanto os restantes terão maior dificuldade em manter a sua competitividade.

Ao mesmo tempo, os critérios ESG deixarão de ser um fator diferenciador para passarem a ser um requisito de base. As organizações serão cada vez mais exigentes na escolha dos espaços que ocupam, procurando soluções alinhadas com os seus compromissos ambientais, sociais e de governação.

Que indicadores utiliza para medir o impacto social e ambiental de um projeto como o district.space?

Procuramos acompanhar um conjunto de indicadores alinhados com o enquadramento do SFDR, enquanto veículo classificado ao abrigo do Artigo 8.º, que nos permitem avaliar o desempenho ambiental e social do projeto de forma consistente.

Ao nível ambiental, monitorizamos indicadores como o consumo de energia e de água por metro quadrado e a eficiência na utilização dos espaços. Na componente social, acompanhamos aspetos como a diversidade da nossa comunidade de membros e o impacto das parcerias que desenvolvemos com entidades locais. É um processo em permanente evolução e continuamos a aperfeiçoar os indicadores que utilizamos para medir, de forma cada vez mais rigorosa, o impacto gerado.

Que papel podem desempenhar empresas, investidores e municípios na regeneração urbana através de projetos desta natureza?

A regeneração urbana só acontece quando existe um compromisso conjunto entre investidores, empresas e entidades públicas, porque cada um desempenha um papel complementar.

Os investidores asseguram o capital necessário para desenvolver projetos com uma visão de longo prazo. As empresas dão-lhes vida, ao ocuparem estes espaços, criarem atividade económica e contribuírem para a dinamização do território. Já os municípios têm um papel decisivo na criação de condições que favoreçam este tipo de investimento, nomeadamente através do planeamento urbano, do licenciamento e da valorização das comunidades locais.

Quando estas três dimensões estão alinhadas, torna-se possível acelerar a regeneração urbana e criar um impacto mais sustentável e duradouro, como tivemos oportunidade de observar no desenvolvimento do nosso projeto em Setúbal.

Enquanto gestora, que aprendizagens retirou da criação de um projeto desenvolvido de raiz e quais foram os maiores desafios?

Criar um projeto de raiz é um exercício permanente de adaptação. Aprendemos rapidamente que nem todas as respostas existem à partida e que muitas decisões têm de ser tomadas com base na melhor informação disponível naquele momento.

Naturalmente, houve desafios associados à gestão da obra, à coordenação entre diferentes parceiros e ao cumprimento dos prazos definidos. No entanto, essas etapas reforçaram a importância do planeamento, da capacidade de adaptação e da construção de relações de confiança com todos os intervenientes envolvidos no projeto.

Se tivesse de identificar uma tendência que vai marcar o futuro dos espaços de trabalho e da gestão das empresas, qual seria?

Diria que será a crescente convergência entre a estratégia imobiliária e a gestão de pessoas.

Durante muitos anos, estas decisões eram tratadas de forma independente. Hoje, o espaço de trabalho passou a ser um instrumento de cultura organizacional, de atração e retenção de talento e de reforço da proposta de valor das empresas. Acredito que esta integração será cada vez mais evidente nos próximos anos.

O investimento em sustentabilidade continua a ser visto por muitas empresas como um centro de custos. O que falta para que seja encarado como um fator de criação de valor?

Falta, sobretudo, capacidade para medir e demonstrar o retorno desse investimento. Quando as empresas conseguem quantificar o impacto da sustentabilidade na eficiência operacional, na redução de custos, na retenção de talento ou na valorização dos seus ativos, a conversa deixa de ser apenas sobre responsabilidade e passa a ser sobre competitividade.

A sustentabilidade cria valor quando é integrada na estratégia do negócio e acompanhada por indicadores claros que permitam avaliar os resultados alcançados.

De que forma os espaços de trabalho podem contribuir para os objetivos de descarbonização das empresas?

Os espaços de trabalho têm um papel relevante nesse processo porque permitem promover uma utilização mais eficiente dos recursos e reduzir desperdícios associados à ocupação dos edifícios.

Os modelos flexíveis favorecem uma utilização mais racional do espaço disponível e facilitam a adoção de soluções de eficiência energética e de gestão sustentável dos recursos. Ao mesmo tempo, permitem às empresas integrar os seus objetivos de descarbonização numa estratégia mais ampla de sustentabilidade e otimização operacional.

O conceito de escritório está a passar de um local de trabalho para uma ferramenta de cultura organizacional?

Sem dúvida. Hoje, o escritório é uma extensão da identidade da empresa. O espaço físico comunica a forma como a organização trabalha, recebe os seus colaboradores e clientes e traduz os valores que pretende afirmar. Cada vez mais, as empresas procuram ambientes que reforcem a colaboração, a inovação e o sentimento de pertença, reconhecendo que estes fatores influenciam diretamente a experiência dos colaboradores.

O escritório deixou de ser apenas um local onde se trabalha e passou a ser um elemento ativo da cultura organizacional.

Como convencer um gestor financeiro de que investir num espaço de trabalho mais sustentável tem retorno para o negócio?

A melhor forma de o fazer é demonstrando que sustentabilidade e desempenho económico não são objetivos incompatíveis.

Um espaço de trabalho mais eficiente pode contribuir para reduzir custos operacionais, melhorar a experiência dos colaboradores, aumentar a capacidade de atração e retenção de talento e reforçar a reputação da organização junto de clientes, investidores e parceiros.

No fundo, trata-se de uma decisão de gestão que reduz riscos, cria valor a médio e longo prazo e prepara as empresas para responder às exigências de um mercado cada vez mais competitivo e mais exigente em matéria de sustentabilidade.

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