Vista aérea de um navio porta-contentores a navegar no oceano, transportando dezenas de contentores coloridos organizados em filas. A imagem evidencia a dimensão da operação marítima e o papel do transporte de mercadorias no comércio internacional e na logística global Foto Shutterstock

Economia azul enfrenta desafios à regeneração

Relatório do Fórum Económico Mundial identifica três fatores que aceleram e três que travam a transição para uma economia azul regenerativa.

A transição para uma economia azul regenerativa está a ganhar impulso, mas enfrenta obstáculos que poderão comprometer a recuperação dos oceanos e das comunidades que deles dependem. A conclusão é do novo relatório do Fórum Económico Mundial (World Economic Forum), que identifica seis fatores determinantes para o futuro da economia do mar: três tendências que aceleram a transformação e três riscos que ameaçam travá-la.

Segundo a organização, o oceano deixou de ser encarado apenas como vítima das alterações climáticas para assumir um papel estratégico nas políticas de energia, segurança e sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica e o aparecimento de novos mecanismos de financiamento estão a criar condições para uma gestão mais eficiente dos recursos marinhos e para uma maior participação das comunidades costeiras.

Oceano ganha peso estratégico

O relatório destaca que a crescente importância geopolítica do oceano é um dos principais motores da mudança. A necessidade de reforçar a segurança energética está a acelerar a instalação de energias renováveis offshore na Europa e na Ásia, enquanto acordos internacionais, como o tratado da ONU para a proteção da biodiversidade em alto-mar e o acordo da Organização Mundial do Comércio sobre subsídios à pesca, reforçam a governação dos recursos marinhos.

Outra tendência identificada é a democratização das tecnologias de monitorização. Ferramentas como satélites, drones, inteligência artificial e análise de ADN ambiental tornaram-se mais acessíveis, permitindo que pequenas comunidades piscatórias monitorizem atividades ilegais, acompanhem os ecossistemas e participem de forma mais ativa na gestão dos recursos.

O Fórum Económico Mundial sublinha ainda o crescimento de instrumentos de financiamento, como obrigações azuis, mecanismos de troca de dívida por conservação da natureza e modelos de financiamento misto, que começam a atrair investimento privado para projetos de restauro marinho.

Cooperação internacional sob pressão

Apesar destes avanços, o relatório alerta para três fatores que podem comprometer a transição.

O primeiro prende-se com o enfraquecimento da cooperação internacional. As tensões geopolíticas, a crescente disputa por recursos no Ártico, o debate sobre a mineração em águas profundas e a contestação de algumas políticas ambientais internacionais dificultam a construção de soluções comuns para a proteção dos oceanos.

O segundo desafio resulta da aceleração das alterações climáticas. O documento recorda que muitos ecossistemas marinhos aproximam-se de pontos de não retorno. Entre os exemplos apontados estão o branqueamento recorrente dos recifes de coral e a possibilidade de o Oceano Ártico registar o primeiro verão sem gelo já na década de 2030.

Segundo os autores, a conservação local continuará a ser essencial, mas deixará de ser suficiente se não for acompanhada por uma redução significativa das emissões de gases com efeito de estufa e por soluções de remoção de carbono em larga escala.

Financiamento continua insuficiente

O terceiro entrave identificado prende-se com a falta de investimento adequado. Embora exista um interesse crescente pela economia azul, o Fórum Económico Mundial considera que os recursos financeiros continuam muito aquém das necessidades.

O relatório refere que muitos instrumentos classificados como “azuis” têm servido apenas para refinanciar dívida ou apoiar infraestruturas convencionais, sem impacto ambiental significativo. Além disso, a saída de várias instituições financeiras de iniciativas ligadas às metas de neutralidade carbónica reflete, segundo os autores, uma tendência de privilegiar riscos políticos de curto prazo em detrimento dos objetivos climáticos de longo prazo.

Para inverter este cenário, o documento defende um aumento do financiamento filantrópico, o reforço de modelos de financiamento misto e a mobilização de investidores dispostos a apoiar projetos de recuperação ecológica com horizontes temporais mais longos.

O Fórum Económico Mundial conclui que o sucesso da economia azul regenerativa será determinante para garantir a segurança alimentar, a estabilidade climática e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

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