Imagem de uma visita institucional a uma unidade industrial — associada ao universo Novadelta / Grupo Nabeiro (Delta Cafés) — onde um grupo de responsáveis e convidados percorre a fábrica equipado com batas e toucas de proteção

Delta Cafés duplica capacidade de produção e mira o top 10 mundial a partir de Campo Maior

Investimento superior a 20 milhões de euros transforma a Novadelta na maior torrefação da Península Ibérica

O Grupo Nabeiro-Delta Cafés escolheu o dia em que recebeu o primeiro ministro, Luís Montenegro, na sua fábrica alentejana para anunciar o maior investimento industrial da sua história: mais de 20 milhões de euros aplicados na modernização e expansão da Novadelta, a unidade de torrefação que passa a ter uma capacidade teórica de 200 toneladas de café por dia, o dobro do que produzia há seis anos.

A cerimónia, realizada no Auditório Comendador Rui Nabeiro, no Centro Ciência do Café de Campo Maior, reuniu família, colaboradores, responsáveis autárquicos e o Governo num momento que foi, simultaneamente, de balanço e declaração de intenções. “Estamos a encerrar o maior investimento de sempre na nossa história industrial e quisemos que este momento fosse partilhado”, disse Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro-Delta Cafés, ao subir ao palco.

A frase resume bem o espírito do evento: não se tratava apenas de inaugurar equipamento, mas de afirmar que uma empresa portuguesa, nascida no interior do Alentejo, tem um plano para chegar ao top 10 mundial das marcas de café e que esse plano passa por continuar a crescer a partir de Campo Maior.

De 100 para 200 toneladas: a lógica do investimento

O projeto, iniciado em 2019, vai muito além da simples compra de equipamento. Ao longo de seis anos, a Delta foi modernizando a fábrica peça a peça: novos silos de café verde com capacidade para garantir seis meses de produção ininterrupta, um novo armazém, um novo torrador de grande capacidade, novos moinhos industriais, novas linhas de embalamento e, agora, a nova linha de produção de cápsulas, inaugurada esta semana.

A tudo isto junta-se um novo parque fotovoltaico que reforça a autonomia energética da unidade e a integração de sistemas avançados de automação, digitalização e inteligência artificial na gestão da produção.

O resultado é uma fábrica transformada. “Passámos de uma capacidade de 100 toneladas por dia, há cinco anos, para uma capacidade de 200 toneladas por dia hoje em dia”, explicou o CEO durante a visita à unidade, sublinhando que o salto não é apenas de escala. “Não é só mais torradores, é mais eficiência, software diferente que nos permite uma dinâmica diferente”. A flexibilidade industrial, acrescentou, é essencial para entrar em mercados com exigências de produto distintas.

Com este salto de capacidade, a Novadelta consolida-se como a maior torrefação de café da Península Ibérica, um título com valor estratégico num mercado onde a concorrência é intensa e onde a Delta já tem uma posição relevante, nomeadamente em Espanha e em França.

Top 20 conquistado, top 10 na mira

Os números do Grupo Nabeiro em 2025 falam por si: faturação superior a 650 milhões de euros, presença em mais de 50 países, operações diretas em oito deles – Espanha, França, Luxemburgo, Suíça, Angola, Brasil, China e, recentemente, Andorra –, e exportações que representam já 35% do volume de negócios. A empresa emprega mais de quatro mil colaboradores, com uma fatia significativa concentrada em Campo Maior (cerca de 1.400).

E há uma conquista que o CEO não escondeu o orgulho em anunciar: em 2024, a Delta estava na 22.ª posição do ranking mundial das marcas de café. Em 2026, entrou oficialmente no top 20. “Dois lugares. Dois anos. Um salto que não se faz sem uma equipa absolutamente comprometida”, disse Rui Miguel Nabeiro.

O objetivo a 15 anos é entrar no top 10 e há um plano concreto para lá chegar. “Não se trata de uma aspiração, mas sim de uma estratégia muito clara de crescimento”, garantiu. A Europa é, neste momento, a prioridade geográfica: para além das posições já consolidadas em Espanha, França, Luxemburgo e Suíça, a empresa tem planos de expansão para mercados onde ainda não está presente, como a Áustria. O Brasil – especificamente a sua região leste – é outro mercado no horizonte. “Só levantamos um pé quando já temos o acompanhamento no chão”, resumiu Rui Miguel Nabeiro, numa fórmula que traduz a filosofia de crescimento prudente, mas determinado, que herdou do pai e do avô.

Delta Cafés

Inovação como cultura, não como departamento

Para Rui Miguel Nabeiro, a capacidade industrial ampliada é condição necessária, mas não suficiente. “Uma fábrica maior não significa que produza melhor, nem diferente”, advertiu. “Para crescer a este nível, temos de inovar de forma contínua e estrutural”. Na Delta, explicou, a inovação não é um departamento, é uma cultura, operacionalizada através de um modelo interno que envolve todas as equipas na procura de oportunidades e na melhoria contínua de produtos e processos.

Paralelamente, a empresa criou a Delta Ventures, uma plataforma de abertura ao ecossistema externo de inovação, através da qual estabelece parcerias com startups e explora novos modelos de negócio. “Esta combinação – escala industrial e capacidade de inovar – é o que nos dá a confiança para afirmar o objetivo de chegar ao top 10”, disse o CEO. A estratégia de não competir pelo preço mais baixo é, aliás, um traço identitário: “A Delta não compete nunca por ser o mais barato. Compete por trazer inovação e, sobretudo, valor acrescentado aos seus clientes e consumidores”.

A escolha de Campo Maior

Há uma dimensão deste investimento que não aparece nos balanços, mas que o CEO quis colocar em cima da mesa: a decisão de continuar a crescer a partir do interior de Portugal. “Seria mais simples e, em muitos casos, mais barato descentralizar a produção para outras geografias”, reconheceu, acrescentando que se trata de uma escolha “consciente”.

Os dados demográficos que o CEO apresentou na cerimónia são reveladores do contexto: entre os Censos de 2011 e 2021, o Alentejo perdeu mais de 52 mil habitantes, uma queda de 7% em apenas uma década. Campo Maior não é imune a essa pressão, mas resiste de uma forma que o CEO considerou merecedora de atenção. O concelho mantém consistentemente uma das taxas de desemprego mais baixas do Alentejo, serviços de saúde, educação, desporto e cultura e uma dinâmica económica local estável. “O que não acontece de forma espontânea”, sublinhou Rui Miguel Nabeiro. “Acontece porque há aqui uma âncora económica que emprega, que capacita, que investe na comunidade e que não desiste quando os tempos são difíceis”.

Essa âncora tem nome e tem história. O legado do comendador Rui Nabeiro, fundador da empresa, que morreu em 2023, está presente na conversa de todos os que falaram no evento. Para João Manuel Nabeiro, chairman do grupo e filho do comendador, a chave do modelo é a convicção de que “é possível construir uma grande empresa sem nunca perder a proximidade às pessoas”. Uma proximidade que começa local e que o chairman sublinhou de forma literal: “Há mais de 45 anos, fiz uma escolha bastante concreta: a de ter aqui, dentro desta fábrica, a minha própria casa”.

Esse compromisso com a comunidade tem expressão concreta em iniciativas como a Associação Coração Delta, o Centro de Talento Alice Nabeiro, uma clínica de saúde e o apoio ao desporto local, uma rede de responsabilidade social que a empresa gere como parte integrante da sua identidade, não como ação de marketing.

O que o grupo pede ao Estado

Na presença do primeiro ministro, o CEO não desperdiçou a oportunidade para fazer uma comunicação direta ao Governo. O recado foi articulado com precisão: “Decisões de investimento desta escala levam anos a planear, uma geração a amortizar e décadas a consolidar. Não se tomam em ambientes de incerteza”. O que o grupo pede é previsibilidade, estabilidade regulatória, simplificação burocrática e uma política fiscal orientada para a competitividade. “Portugal precisa de um sistema que estimule quem investe, quem exporta e quem cria emprego qualificado. Não deve ser entendido como um favor às empresas, mas como uma estratégia de desenvolvimento do país”.

Luís Montenegro, na sua intervenção, acolheu o argumento e foi mais longe, anunciando o estudo para a ligação de Campo Maior à A6, autoestrada que ligará a cidade à A23, e confirmando a conclusão da ligação de Beja à A2. O objetivo declarado do Governo é que todas as capitais de distrito fiquem ligadas por autoestrada. Luís Montenegro defendeu também que apoiar as empresas na sua competitividade não é um favor aos acionistas: é política social. “Quando criamos condições para as empresas serem mais rentáveis, estamos verdadeiramente a construir uma política social de desenvolvimento”.

Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro-Delta Cafés
Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro-Delta Cafés

“De Campo Maior para o Mundo” – um slogan com substância

A frase que encerra a identidade do grupo – “De Campo Maior para o Mundo” – não é apenas marketing. É, cada vez mais, uma descrição factual. Com 650 milhões de euros de faturação, presença em mais de 50 países, a maior capacidade de torrefação da Península Ibérica e um lugar no top 20 mundial, a Delta é hoje uma multinacional alentejana que compete de igual para igual com marcas com décadas de internacionalização consolidada.

O que a diferencia da maioria não é a dimensão – ainda. É a forma de crescer. A combinação entre ambição global e enraizamento local, entre escala industrial e cultura de proximidade, entre inovação contínua e respeito pelo legado são a fórmula que o Grupo Nabeiro tem vindo a afinar há mais de seis décadas. “O meu avô começou com três pessoas e uma pequena bola de torre”, disse Rui Miguel Nabeiro no final do seu discurso. “Ele deixou-nos muito mais do que uma marca global. Deixou-nos uma forma de estar” .

Essa forma de estar – de Campo Maior para o mundo, com raízes e com ambição – é, ao que tudo indica, o verdadeiro produto que a Delta quer exportar junto com o café.

Grupo Nabeiro-Delta Cafés: dados-chave

  • Faturação (2025): superior a 650 milhões de euros
  • Colaboradores: mais de 4.000
  • Presença: mais de 50 países, com operações diretas em 8
  • Exportações: 35% do volume de negócios
  • Capacidade de produção: 200 toneladas/dia (duplicou nos últimos 6 anos)
  • Investimento na Novadelta: mais de 20 milhões de euros (2019-2026)
  • Posição no ranking mundial: top 20 (era 22.º em 2024)
  • Objetivo a 15 anos: top 10 mundial das marcas de café
Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Siga-nos em sidebar-1