As famílias em Portugal destinam entre 60% e 80% do seu orçamento a despesas essenciais, como habitação, alimentação ou energia, o que limita significativamente a capacidade de poupança e de resposta a imprevistos. A conclusão consta do relatório “Portugal, Balanço Social: Perspetivas – Quanto sobra ao final do mês?”, desenvolvido pela Fundação “la Caixa”, pelo BPI e pela Nova School of Business and Economics (Nova SBE).
O estudo, baseado em dados do Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023 do Instituto Nacional de Estatística, mostra que o rendimento que sobra depois de pagas as despesas essenciais – o chamado rendimento discricionário – registou um aumento entre 2015 e 2022, mas continua marcado por fortes desigualdades. Em média, situava-se entre 10.402 e 13.379 euros por ano em 2022.
Apesar desta evolução, cerca de 26,5% dos agregados familiares gastam mais do que recebem, registando poupança negativa. Entre as famílias com rendimentos mais baixos, a situação é ainda mais crítica. De facto, 60% gastam acima do que recebem, enquanto entre os agregados de rendimentos mais elevados essa proporção é de apenas 8%.
Diferenças na margem financeira disponível
A análise revela também uma diferença significativa na margem financeira disponível entre os vários grupos de rendimento. As famílias mais ricas apresentam um rendimento discricionário médio entre 24.973 e 30.004 euros anuais, enquanto entre os agregados mais pobres varia apenas entre 1.485 e 2.393 euros por ano. Na prática, os agregados mais ricos dispõem de um rendimento disponível 12 a 17 vezes superior ao das famílias mais vulneráveis.
Mesmo nas despesas essenciais, o peso relativo é maior para quem tem menos rendimentos. Nos agregados mais pobres, estas despesas representam cerca de 65% da despesa total. Já entre os mais ricos correspondem a cerca de 53%, o que reduz ainda mais a margem para poupar ou enfrentar custos inesperados.
A fragilidade financeira torna-se evidente quando se analisam os imprevistos. Apenas 64,3% das famílias afirmam conseguir suportar uma despesa inesperada de 632 euros sem recorrer a empréstimos. Entre os agregados com rendimentos mais baixos, essa percentagem cai para 23,6%. Perante uma despesa inesperada de mil euros, cerca de 34% das famílias mais pobres não saberiam como reagir.
Lisboa com o rendimento discricionário mais elevado
O estudo identifica ainda diferenças regionais relevantes. Lisboa apresenta o rendimento discricionário mais elevado, refletindo níveis de rendimento superiores, apesar de também concentrar custos mais elevados de despesas essenciais. Já Açores e Madeira registam os valores mais baixos de rendimento disponível.
No que diz respeito à poupança negativa, o Algarve lidera com 29,1% dos agregados nessa situação, seguido do norte (28,9%) e da Madeira (26,1%). Em contraste, os Açores apresentam a menor proporção de famílias com poupança negativa, com 18,8%.
Para os investigadores, os resultados mostram que, apesar da melhoria média do rendimento disponível nos últimos anos, persistem fragilidades económicas significativas em parte da população, sobretudo entre os agregados de menores rendimentos, o que limita a capacidade de poupança e de resposta a choques financeiros inesperados.








