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Uma nova fronteira na logística europeia

Em junho de 2016, os eleitores britânicos escolheram deixar a União Europeia, provocando um enorme debate em toda a Europa sobre como essa saída poderia ser alcançada e quais seriam os impactos prováveis para as pessoas e as economias envolvidas. Dos 10 principais parceiros comerciais do Reino Unido, em 2015, sete países fazem parte da União Europeia, diz um relatório da PwC Europe. No mesmo ano, cerca de 44% das exportações do Reino Unido destinavam-se aos Estados-membros, enquanto aproximadamente 53% das importações totais eram originárias de países da União Europeia. É certo que, depois da data marcada para a saída do Reino Unido do projeto comunitário, as atuais cadeias de abastecimento globais para vão precisar de ser reequilibradas.

Atualmente, os países da União Europeia, incluindo o Reino Unido, beneficiam plenamente do mercado único. Isto inclui a ausência de impostos e quotas para os Estados-membros que realizam negócios e trocas em toda a União Europeia. O princípio da livre circulação de pessoas também facilita o acesso de trabalhadores e serviços. Além disso, os procedimentos aduaneiros simplificados reduzem os encargos administrativos para as empresas que operam na União Europeia para um nível mínimo. Mas, a partir de 29 de março de 2019, este cenário já não será aplicável ao Reino Unido.

O impacto do Brexit na indústria de logística europeia muito dependerá do acordo afinal. Contudo, é certo que a saída do Reino Unido da União Europeia irá afetar as importações e exportações diretas com estes países, entre os mercados mais importantes da Europa, obrigando ao ajuste das redes integradas das empresas internacionais de logística. “Embora o que venha a acontecer, nos próximos anos, esteja nas mãos dos legisladores britânicos e europeus, continuaremos a fazer o que for necessário para oferecer aos clientes em Portugal e no resto da Europa a continuidade que esperam nos negócios”, refere um porta-voz da UPS. “Da nossa experiência, uma menor regulamentação geralmente aumenta a atividade económica entre parceiros comerciais. Ao mesmo tempo, trabalhamos com clientes em todo o mundo que fazem envios para mercados altamente regulamentados. O comércio global vibrante provou enriquecer a vida das pessoas através de atividades económicas dinâmicas, maior gama de escolha e produtos mais competitivos. Acompanharemos de perto as mudanças nas leis aplicáveis e forneceremos corretagem, desembargo aduaneiro e outros serviços, juntamente com a nossa rede global integrada de transporte. O objetivo da UPS é garantir que os clientes tenham a menor complexidade possível ao importar ou exportar do Reino Unido e da Europa”.

Se o Reino Unido deixar a União Europeia, mas se mantiver na União Aduaneira, o efeito não será muito impactante, pelo menos imediatamente. Já se não houver acordo nesta matéria, irá criar grandes dificuldades ao sector. “Mesmo que o Reino Unido se mantenha na União Aduaneira, acreditamos que haverá sempre um acréscimo de burocracia alfandegária, mesmo que sem custos para os operadores. Para o Reino Unido será terrível se passar a ter 27 fronteiras e, consequentemente, outras tantas alfândegas. Já para a Europa, ou mais especificamente para Portugal, seria só mais um país a aderir ao acordo de direitos da World Trade Organization”, explica Bruce Dawson, chairman do Grupo Garland. “Não havendo acordo para que o Reino Unido integre a União Aduaneira, na Europa, só o comércio entre o Reino Unido e os 27 será afetado. Nesse caso, o Reino Unido passaria a ser mais um país de fora da Europa com que haveria relações comerciais. Ou seja, como acontece com os outros países com que os 27 não têm um acordo aduaneiro, o comércio transfronteiriço com o Reino Unido seria afetado por aumentos de custos e de burocracia”, diz o responsável do Grupo Garland.

Mudanças
Ainda é cedo para avaliar as implicações na atividade logística do processo do Brexit. Contudo, desde junho de 2016, a libra esterlina desvalorizou 14% face ao euro, o que reduziu o poder de compra dos britânicos para importar, mas aumentou a competitividade das suas exportações, diz o último relatório da Crédito y Caución, que alerta para os efeitos que o longo processo já está a ter no comércio.

A fraqueza da libra impulsionou o crescimento das exportações do Reino Unido para a União Europeia ao seu nível mais alto desde 2011, apoiado pela forte procura nos mercados europeus. Os números mais recentes mostram um crescimento de 6,8% nas exportações do Reino Unido para o resto da União Europeia, em comparação com um aumento de 0,9% no sentido oposto.

O mesmo relatório refere que as atuais exportações britânicas para o resto da União Europeia já representam 48% do total do seu comércio exterior. Por seu turno, o Reino Unido recebe 16% das exportações da União Europeia, excluindo o comércio intracomunitário. Com volumes tão grandes, explica o relatório, qualquer barreira ao comércio, seja na forma de tarifas ou de tempos de espera mais longos na fronteira, pode ter um impacto negativo no comércio. Daí que, indica a STEF, “é importante que se estabeleça um alinhamento entre os diferentes membros da União Europeia que garanta um trânsito fluido de mercadorias com o Reino Unido e que assegure a mesma competitividade e eficiência no desenvolvimento da atividade”.

Segundo a Crédito y Caución, no final de 2015, iniciou-se uma tendência de queda no crescimento das exportações para o Reino Unido em todos os países, exceto em Espanha, onde a desaceleração começou bruscamente em meados de 2016. Quase ao mesmo tempo, em 2016, as exportações belgas estabilizaram e mantiveram-se razoavelmente invariáveis desde então. Em 2017, Alemanha, Espanha e França sofreram retrações nas suas exportações para o Reino Unido, tendência à qual se juntou a Bélgica no final do ano.

Os países que possuem laços comerciais profundos com o Reino Unido são mais vulneráveis ao impacto económico imediato quando o Reino Unido deixar a União Europeia. Embora a Alemanha seja o maior parceiro comercial do Reino Unido em volume, a Irlanda é, de longe, a mais dependente do comércio do Reino Unido em termos de participação no total de importações e exportações, esclarece o relatório da PwC Europe. A Alemanha tem muitos outros importantes destinos de exportação que poderiam compensar um declínio nas exportações para o Reino Unido após o Brexit.

Relativamente às relações com Portugal, o chairman do Grupo Garland afirma que já se nota uma quebra substancial de exportações portuguesas para o Reino Unido, mercado que tem um peso menor a 3% nas operações da empresa. “Esta quebra deverá manter-se porque a economia britânica não está a crescer, o que tem conduzido a uma retração do mercado de consumo, especialmente em sectores como o têxtil e o calçado, que são produtos que o Reino Unido tradicionalmente compra a Portugal e que, por outro lado, são fundamentais para a indústria portuguesa”.

2018-2019
À medida que a notificação oficial do Brexit se aproxima, ainda existem muitas incógnitas para as empresas de logística de como as mudanças podem afetá-las. Nomeadamente, sobre a forma como se vão alterar – ou complicar – os já complexos regulamentos comerciais e aduaneiros no cenário pós-Brexit.

O Reino Unido, contando-se como a quinta maior economia, com um Produto Interno Bruto (PIB) de 2.324.293 milhões de euros, em 2017 (35.200 euros per capita), vai continuar a ser um mercado com um lugar importante nas operações das empresas de logística na Europa.

Contudo, diante dessa incerteza, o ritmo de crescimento da economia britânica abrandou consideravelmente. Alguns dos potenciais impactos resultantes da decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia podem ter um impacto imediato e negativo; outros podem ter benefícios positivos a longo prazo.

Os dados estatísticos publicados pelo Instituto Nacional de Estatística britânico (ONS) não deixam dúvidas. De entre as principais economias mundiais, o Reino Unido foi a única cujo ritmo de crescimento abrandou no ano passado: em 2015, cresceu 2,2%, mas os anos de 2016 e 2017 registaram uma desaceleração para 1,8%.

Para a STEF, o Reino Unido é um dos mercados mais ativos e de relevância da sua oferta de exportação e o qual a empresa tem acompanhado, incrementando a frequência nas saídas semanais. A empresa perspetiva que esta realidade se possa manter nos próximos anos. Assim, “a construção de cenários é importante e, em função destes, as ações que hoje podem ser antecipadas. De um modo geral, a competitividade dos países do sul e do leste, em termos de custo, manter-se-á mesmo nos cenários mais pessimistas de redução de fluxos. Um ponto relevante prende-se cada vez mais, em toda a Europa, com a segurança dos veículos e os cuidados com os fluxos migratórios”.

A Crédito y Caución espera que a libra estabilize, em 2018 e 2019, reduzindo o estímulo às exportações do Reino Unido e diminuindo a tensão dos exportadores na União Europeia. “Não esperamos que esta tendência continue tão forte, à medida que os efeitos da taxa de câmbio se desvaneçam. No entanto, a falta de progresso nas negociações poderia renovar a pressão de baixa sobre a libra, continuar a reduzir as oportunidades de exportação para o Reino Unido e aumentar as exportações do Reino Unido”, conclui fonte da empresa.

Este artigo foi publicado na edição n.º 51 da Grande Consumo.

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