Num contexto de aumento de portagens, combustíveis e exigências ambientais, o transporte rodoviário de mercadorias em Portugal enfrenta uma transformação estrutural. A telemática e a inteligência artificial emergem como ferramentas decisivas para poupar tempo, reduzir custos e responder à crescente exigência de transparência dos clientes.
O sector do transporte rodoviário de mercadorias (CRT) em Portugal atravessa uma fase de profunda reconfiguração. Depois de um 2024 marcado por uma quebra de 14% no transporte internacional, o mercado prepara-se para um crescimento moderado, impulsionado por previsões económicas de 2% em 2025 e 2,1% em 2026. Ainda assim, o ambiente permanece desafiante: margens comprimidas, forte dependência do mercado espanhol – que absorve mais de 65% do volume internacional – e uma pressão crescente para acelerar a digitalização e a descarbonização.
Segundo o “EUROWAG REPORT 2025: Transforming Transportation“, a resiliência do sector português é evidente, mas a competitividade futura dependerá da rapidez com que as empresas integrarem tecnologia e adotarem modelos mais sustentáveis.
Em 2024, o volume de carga rodoviária atingiu 30.562 milhões de toneladas-quilómetro (tkm), registando uma variação negativa de 3.739 milhões de tkm face ao ano anterior. Já os novos registos de veículos pesados, entre o primeiro e o terceiro trimestre de 2025, totalizaram 4.258 unidades, menos 8,2% do que no período homólogo.
A estrutura empresarial continua fragmentada, dominada por micro e pequenas empresas que sustentam a economia local, mas que enfrentam maiores dificuldades na adoção de soluções tecnológicas avançadas.
A falta de motoristas qualificados mantém-se como um dos principais entraves ao crescimento. O envelhecimento da profissão e a dificuldade em atrair jovens agravam a escassez. Em paralelo, Portugal apresenta um défice significativo de parques de estacionamento certificados para pesados, comprometendo a segurança e o cumprimento dos tempos de descanso.
Telemática: de vantagem competitiva a ferramenta essencial
O ano de 2025 revelou-se particularmente dispendioso para os operadores. O aumento das portagens, a subida dos preços dos combustíveis e a exigência crescente dos clientes por informação detalhada reduziram drasticamente a margem de manobra. Reforçar equipas tornou-se difícil. Neste contexto, a digitalização deixou de ser opcional.
A telemática assume um papel central, não apenas como ferramenta de gestão, mas como apoio direto aos motoristas de pesados, ajudando a poupar tempo e custos. Permite escolher rotas mais curtas ou económicas, reagir a imprevistos rodoviários e melhorar estilos de condução.
Entre as prioridades de digitalização destacam-se o planeamento de rotas, a integração de sistemas telemáticos e o processamento acelerado de documentação. Adiciona-se a faturação antecipada, a redução de viagens em vazio e a automação de tarefas administrativas.
Casos europeus ilustram nova geração de operadores
A polaca RP-TRANS começou a utilizar o sistema GBox da Eurowag para otimizar rotas e antecipar atrasos. “Quando detetamos um potencial atraso causado por condições rodoviárias imprevisíveis, conseguimos reagir rapidamente, redirecionando o veículo para garantir que a carga chega a tempo”, afirma Damian Brywczyński, membro do conselho de administração da RP-TRANS.
O GBox integra estimativas de hora de chegada (ETA), atualizando em tempo real a distância restante com base no tráfego, nas condições da estrada e nos tempos de condução.
Já a espanhola Barquín y Otxoa utiliza sensores inteligentes para monitorizar consumo de combustível, tempos de condução, disponibilidade dos motoristas, temperatura da carga e abertura de portas.
Integração de sistemas: o verdadeiro fator diferenciador
As empresas mais avançadas não utilizam aplicações isoladas, mas ecossistemas interligados. A romena Bipmobile desenvolveu um sistema ERP/TMS próprio, totalmente automatizado e ligado a inteligência artificial, que integra monitorização GPS, gestão de carregamentos e otimização de rotas.
A checa Šmídl Holding construiu um ecossistema digital integrado que interliga sistemas ERP, DMS, telemática e bases de dados contratuais. A automatização reduziu significativamente erros administrativos e tempos de processamento de faturas. “Conseguimos poupar milhares de horas de trabalho por ano, que os nossos colaboradores podem agora dedicar a atividades de maior valor acrescentado”, afirma Martina Šmídlová, presidente do conselho de administração da empresa.
Na Eslováquia, a TOPNAD desenvolveu um software próprio de gestão de transportes, integrando cartões de combustível, sistemas de portagens e contabilidade. O próximo desafio é o eCMR – a guia eletrónica de transporte – que promete eliminar dezenas ou centenas de documentos em papel por motorista.
Inteligência artificial: acelerar decisões e eliminar rotinas
Com dados centralizados, a inteligência artificial tornou-se uma evolução natural. As soluções apoiam o planeamento operacional, a avaliação do estilo de condução e a extração automática de dados de faturas. Acresce ainda a comunicação com clientes e a produção de relatórios estratégicos. A IA permite analisar grandes volumes de informação em tempo real, reduzir tarefas repetitivas e apoiar decisões com maior rapidez e precisão.
A digitalização responde também a uma mudança no comportamento dos clientes. Hoje, estes querem saber como foi entregue a encomenda, quanto custou o transporte e qual foi a pegada ambiental da operação.
No passado, a resposta implicava volumes significativos de documentação em papel. Atualmente, pode ser fornecida em formato digital e, muitas vezes, em tempo real. Os relatórios tornaram-se mais detalhados e sofisticados.
O market report da Eurowag, que analisou transportadores de seis mercados europeus, mostra que o ritmo de digitalização varia entre países, mas a direção é inequívoca: quem não digitalizar perde competitividade.
Casos portugueses: inovação em diferentes frentes
O documento também destaca boas práticas em Portugal. A Jotavio – Transportes S.A, registou um crescimento de 22% nas receitas no primeiro semestre de 2025. A especialista no transporte de produtos frescos prepara a introdução de camiões elétricos em 2026 e investe em software de IA para finanças e faturação.
Já a Transmarsil – Transportes Lda., com sede no Algarve, destaca-se pela eficiência digital e pela criação de um sistema de lavagem de pesados que recupera 80% da água utilizada.
Outro exemplo é o da Manuel & Miranda Transportes. Pioneira na adoção de gás natural liquefeito desde 2018, mantém auditorias energéticas anuais e formação contínua para condução eficiente.
Descarbonização: inevitável, mas onerosa
A transição energética representa o próximo grande desafio. Os veículos elétricos podem custar até três vezes mais do que modelos a diesel e os incentivos públicos ainda são considerados insuficientes pelo sector.
Apesar disso, a digitalização já oferece ganhos imediatos de eficiência e posiciona as empresas para responder às futuras exigências regulatórias europeias.
O transporte rodoviário português está a evoluir de um modelo puramente operacional para um modelo baseado em dados, eficiência e responsabilidade ambiental. A telemática deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica para se tornar um instrumento estratégico – tanto para gestores como para motoristas. A inteligência artificial deixou de ser experimental e passou a integrar decisões diárias.
Num sector onde cada quilómetro conta, a diferença entre sobreviver e liderar pode residir na capacidade de transformar dados em ação e custos em vantagem competitiva.








