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O otimismo global registou uma queda acentuada em 2025, de acordo com a 9.ª edição do relatório “Ipsos Global Trends”, o maior estudo mundial sobre perceções sociais, políticas, económicas e tecnológicas.
Apenas 59% dos cidadãos diz estar otimista em relação a si próprio e à família, menos sete pontos percentuais do que no ano anterior. Quando a análise incide sobre a cidade ou comunidade onde vivem, o valor cai para 45%.
A Ipsos alerta que esta descida “tem implicações significativas para líderes políticos e empresariais”, num ano marcado por forte volatilidade.
Um ano de eleições, tensões sociais e fraturas globais
Metade da população mundial foi às urnas em 2024 e, em oito em cada dez eleições, o partido no poder perdeu votos ou perdeu o Governo, uma instabilidade que a Ipsos identifica como fator de aceleração de tendências já detetadas em edições anteriores, como as “sociedades fragmentadas” e as “fraturas da globalização”.
O estudo destaca ainda o aumento de conflitos familiares e geopolíticos, um maior sentimento anti-imigração e um crescimento do apoio a políticas comerciais nacionalistas.
Tecnologia divide opiniões, mas a aceitação da IA aumenta
As atitudes globais face à tecnologia continuam ambivalentes: 56% acredita que a tecnologia pode “destruir as suas vidas”, mas aumenta a percentagem dos que consideram que a IA tem um impacto positivo.
A preocupação com a privacidade permanece elevada, mas não impede a perceção de que a IA está a tornar-se mainstream.
Um dos dados mais marcantes refere-se ao debate sobre identidade de género. 61% dos inquiridos afirma agora que “existem apenas dois géneros”, uma subida face aos 53% registados na anterior edição, tendência que a Ipsos associa ao uso crescente dos temas trans como arma de polarização política.
Imigração: dois terços querem menos entradas no país
A pressão migratória e a perceção de insegurança estão a alimentar um consenso global mais restritivo: 65% considera que há imigrantes a mais nos seus países, um aumento de quatro pontos num ano.
O estudo revela uma mudança estrutural no comportamento de consumo: 52% dos cidadãos afirma estar disposto a pagar mais por marcas cuja imagem se alinhe com os seus valores pessoais, face a 39% em 2013.
Esta tendência reforça o papel das empresas como agentes culturais e identitários e não apenas económicos.
Diferenças regionais acentuadas
O otimismo é mais elevado em países como Indonésia e Peru, enquanto Coreia do Sul e Japão surgem entre os mais pessimistas.
As atitudes perante a IA, imigração, política e género variam de forma marcada entre regiões, reforçando a ideia de um mundo cada vez mais fragmentado.
Segundo Jennifer Bender, global head de Trends & Foresight da Ipsos, “os anos 2020 estão a definir-se por tensões persistentes. Este relatório reflete o aumento dos conflitos geopolíticos, a rápida normalização da IA e uma reconfiguração social profunda”.
O documento integral — baseado em dados recolhidos em 43 mercados e mais de cinco milhões de pontos de análise — descreve a década atual como uneasy, marcada por incerteza e polarização, mas também por oportunidades para marcas e decisores que consigam interpretar estas tensões e responder de forma credível.


