Homem de fato e gravata sentado à secretária, com portátil à frente e rato na mão José Marques, presidente da Lactogal

“O futuro do sector não passa por produzir mais leite, passa por criar mais valor a partir de cada litro”

Ao assinalar 30 anos, a Lactogal escolheu não olhar apenas para o caminho percorrido, mas promover uma reflexão sobre o futuro da fileira. José Marques, presidente do conselho de administração do grupo, defende um sector mais unido, inovador e sustentado pela ciência, capaz de valorizar a produção nacional e criar mais valor a partir de cada litro de leite.

O Grupo Lactogal promoveu a Cimeira do Leite num momento em que o sector agroalimentar enfrenta desafios muito exigentes. Qual foi o principal objetivo desta iniciativa?

Celebrar 30 anos de história era importante, mas entendemos que a melhor forma de o fazer não era olhar para o passado. Era contribuir para construir o futuro.

A Lactogal nasceu para valorizar o leite e criar condições para o desenvolvimento sustentável da fileira. Três décadas depois, somos a maior empresa láctea da Península Ibérica e essa dimensão traz-nos também uma responsabilidade acrescida. Não basta liderar o mercado; é preciso ajudar a liderar a reflexão sobre o futuro do sector.

Vivemos um momento de profunda transformação. As alterações geopolíticas, a pressão sobre os custos de produção, as exigências ambientais, a evolução dos hábitos de consumo e o ritmo da inovação estão a mudar profundamente a forma como produzimos, transformamos e consumimos alimentos.

Foi por isso que promovemos a Cimeira do Leite. Quisemos reunir produtores, indústria, comunidade científica, academia e decisores públicos para discutir, com conhecimento e ambição, o futuro de um sector que continua a ser estratégico para Portugal.

Mais do que uma celebração, esta foi uma afirmação de responsabilidade.

Porquê realizar agora uma cimeira dedicada ao leite? Que mensagem pretendem deixar ao sector, aos consumidores e aos decisores públicos?

Realizámos esta Cimeira do Leite agora porque acreditamos que este é um momento decisivo. O leite é um alimento essencial e a produção leiteira desempenha um papel económico, social e territorial insubstituível. Mas nada disso pode ser dado como adquirido. O futuro constrói-se todos os dias, através da capacidade de criar valor ao longo de toda a cadeia.

A mensagem que quisemos deixar é simples: o futuro do sector depende da nossa capacidade para trabalhar em conjunto. Nenhum produtor, nenhuma empresa, nenhuma universidade ou nenhuma entidade pública conseguirá responder, isoladamente, aos desafios que temos pela frente.

Aos consumidores, queremos transmitir confiança. O sector evoluiu muito, investe continuamente em qualidade, segurança alimentar, bem-estar animal, inovação e sustentabilidade, e esse esforço merece ser conhecido.

Aos decisores públicos, quisemos mostrar que estamos perante um sector estratégico para o país. Um sector que contribui para a soberania alimentar, para a valorização dos territórios, para o emprego e para as exportações, e que necessita de políticas que promovam competitividade, inovação e investimento de longo prazo.

“O futuro do sector depende da nossa capacidade para trabalhar em conjunto. Nenhum produtor, nenhuma empresa, nenhuma universidade ou nenhuma entidade pública conseguirá responder, isoladamente, aos desafios que temos pela frente”

O programa da cimeira cruzou três grandes temas: origem e sustentabilidade, nutrição e saúde, tecnologia e inovação. São estes os três pilares que vão definir o futuro do sector leiteiro?

Sem dúvida. Estes três temas traduzem aquilo que acreditamos ser o futuro do sector.

A origem é o ponto de partida. Sem produtores economicamente sustentáveis, sem valorização do leite e sem capacidade para atrair novas gerações para a atividade, não existe futuro para a fileira. Cuidar da origem significa cuidar das pessoas, dos territórios e da qualidade do leite que chega aos consumidores.

A nutrição e a saúde remetem-nos para outra responsabilidade: colocar a ciência no centro do debate. O leite é um dos alimentos mais estudados do mundo e continua a demonstrar o seu valor nutricional. É importante que esta discussão seja feita com base na evidência científica e não em perceções ou tendências passageiras. A cimeira mostrou isso de forma muito clara. Houve contributos muito relevantes que ajudam a rever algumas perceções instaladas e a reforçar o valor dos lacticínios numa alimentação equilibrada.

Finalmente, a inovação será determinante para criar mais valor. Inovação na indústria, na produção, nas embalagens, na valorização de subprodutos, na digitalização e no desenvolvimento de novos produtos.

No fundo, estes três eixos refletem também a visão da Lactogal: cuidar da origem para alimentar o futuro.

Mulher ruiva a discursar num púlpito na Cimeira do Leite da Lactogal
Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente, discursou na Cimeira do Leite, promovida pela Lactogal

O leite é, simultaneamente, um produto de grande tradição e uma categoria que precisa de se renovar. Como se equilibra esta dupla dimensão?

É precisamente por isso que estamos a reforçar o investimento em categorias como queijos e iogurtes, em que há mais espaço para diferenciação, valor acrescentado e desenvolvimento de novas soluções. Não se trata de abandonar o leite, mas de expandir o que o leite pode ser, mantendo a ligação à tradição, mas projetando o sector para o futuro. A tradição não é uma limitação, é um ativo.

O leite acompanha a alimentação humana há milhares de anos porque reúne características únicas do ponto de vista nutricional e porque conquistou uma relação de confiança com os consumidores.

Mas tradição não significa imobilismo. Os consumidores mudaram, procuram novas experiências, novas conveniências e novas respostas às suas necessidades alimentares. O sector tem de acompanhar essa evolução.

Na Lactogal entendemos que inovar não é substituir o leite, é descobrir novas formas de lhe acrescentar valor. É por isso que continuamos a investir em categorias como os queijos e os iogurtes, em que há mais espaço para diferenciação, em produtos funcionais, em novas tecnologias e em soluções que respondam às expectativas dos consumidores sem perder aquilo que nos distingue: a qualidade da matéria-prima e a ligação à origem.

O desafio não é escolher entre tradição e inovação. É conseguir que uma reforce a outra.

“Estamos a reforçar o investimento em categorias como queijos e iogurtes, em que há mais espaço para diferenciação, valor acrescentado e desenvolvimento de novas soluções. Não se trata de abandonar o leite, mas de expandir o que o leite pode ser, mantendo a ligação à tradição, mas projetando o sector para o futuro”

Que papel quer a Lactogal assumir no debate público sobre o futuro do leite e dos produtos lácteos em Portugal?

Enquanto maior empresa láctea da Península Ibérica, temos a obrigação de contribuir para um debate público mais informado, mais construtivo e mais baseado na evidência. Sentimos que temos essa obrigação, porque a Lactogal tem escala, experiência e responsabilidade acrescida no sector: processamos mais de 1.200 milhões de litros de leite por ano e trabalhamos com cerca de 1.800 produtores. Essa posição dá-nos uma perspetiva única sobre os desafios do sector, mas também nos confere uma responsabilidade acrescida.

Queremos promover um diálogo que aproxime produtores, indústria, comunidade científica, academia e decisores públicos. Quando falamos de alimentação, saúde ou sustentabilidade, o conhecimento científico deve prevalecer sobre a perceção, e as soluções duradouras constroem-se através da colaboração.

É esse o papel que queremos desempenhar: ajudar a criar condições para que o sector continue a gerar valor económico, social e ambiental, reforçando a confiança dos consumidores e assegurando um futuro sustentável para a produção de leite em Portugal.

Como caracteriza atualmente o mercado do leite e dos produtos lácteos em Portugal?  Que mudanças têm sido mais evidentes no comportamento do consumidor português em relação aos lácteos?

O mercado vive um momento de transformação, mas essa transformação deve ser encarada como uma oportunidade e não apenas como um desafio.

O consumidor é hoje mais informado, mais exigente e mais atento àquilo que consome. Procura qualidade, origem, transparência, conveniência e evidência científica. Quer saber de onde vem o leite, como são tratados os animais, qual o impacto ambiental da produção e de que forma aquele alimento contribui para a sua saúde e bem-estar. Isso obriga toda a cadeia de valor a evoluir.

Ao mesmo tempo, verificamos uma crescente valorização de categorias como os queijos, os iogurtes e outros produtos de maior diferenciação, onde existe maior capacidade para criar valor e responder às novas necessidades dos consumidores.

Para a Lactogal, esta evolução confirma uma convicção antiga: o futuro do sector não passa por produzir mais leite, passa por criar mais valor a partir de cada litro de leite produzido. É essa capacidade de valorização que permitirá garantir melhores condições para os produtores, maior competitividade para a indústria e uma oferta cada vez mais diferenciada para os consumidores.

Auditório com público a assistir a uma apresentação da Cimeira do Leite da Lactogal numa grande tela

O leite é um produto de elevada penetração nos lares, mas nem sempre é percecionado como uma categoria de valor acrescentado. Como se muda esta perceção?

Antes de mais, importa recordar que o leite nunca deixou de ser um alimento de enorme valor. O desafio está menos no produto e mais na forma como o comunicamos.

Durante demasiado tempo, o debate sobre os alimentos foi dominado por perceções e por mensagens simplificadas. Hoje, sabemos que os consumidores valorizam informação credível e fundamentada e isso obriga-nos a comunicar de forma diferente.

Temos de explicar melhor aquilo que a ciência demonstra sobre o papel dos produtos lácteos numa alimentação equilibrada, dar maior visibilidade ao investimento realizado em qualidade, segurança alimentar, bem-estar animal e sustentabilidade, e continuar a inovar, oferecendo produtos que respondam às necessidades das diferentes fases da vida e dos diferentes estilos de consumo.

Quando conseguimos ligar ciência, inovação e confiança, deixamos de falar apenas de um produto alimentar para falar de um alimento com valor nutricional, económico e social. É essa perceção que queremos ajudar a construir.

“O futuro do sector não passa por produzir mais leite, passa por criar mais valor a partir de cada litro de leite produzido. É essa capacidade de valorização que permitirá garantir melhores condições para os produtores, maior competitividade para a indústria e uma oferta cada vez mais diferenciada para os consumidores”

O futuro do leite em Portugal passa por produzir melhor, comunicar melhor e valorizar mais aquilo que começa na origem?

Sem dúvida, mas acrescentaria uma quarta prioridade: trabalhar melhor em conjunto.

A competitividade do sector depende da capacidade de toda a cadeia de valor atuar de forma alinhada. Produtores, indústria, distribuição, academia e decisores públicos têm objetivos diferentes, mas partilham a mesma responsabilidade: garantir que Portugal continua a ter uma produção leiteira forte, sustentável e capaz de responder às necessidades das próximas gerações.

Produzir melhor significa investir continuamente em eficiência, sustentabilidade e bem-estar animal. Comunicar melhor significa explicar, com transparência e base científica, o valor do leite e dos produtos lácteos. Valorizar a origem significa reconhecer que tudo começa no produtor e que só haverá futuro para o sector se conseguirmos criar valor suficiente para assegurar a sustentabilidade económica da produção.

Foi precisamente esta visão integrada que quisemos afirmar na Cimeira do Leite. O futuro constrói-se quando toda a cadeia avança na mesma direção.

30 anos após a sua criação, que visão continua a nortear a atividade do Grupo Lactogal?

A essência da nossa missão mantém-se exatamente a mesma que inspirou a criação da Lactogal em 1996: valorizar o leite, criar valor para os produtores e responder às necessidades dos consumidores.

O contexto é hoje muito diferente. Crescemos, tornámo-nos a maior empresa láctea da Península Ibérica e assumimos uma responsabilidade acrescida perante todo o sector. Mas aquilo que verdadeiramente nos distingue continua a ser a ligação à origem. A Lactogal nasceu da vontade dos produtores de construírem um projeto sólido para valorizar o leite produzido em Portugal e essa identidade continua a orientar todas as nossas decisões.

É isso que sintetizamos na nossa assinatura – “Cuidamos da origem. Alimentamos o futuro”. Cuidar da origem significa apoiar quem produz, investir na sustentabilidade e preservar o valor dos territórios. Alimentar o futuro significa colocar a ciência, a inovação e a criação de valor no centro da nossa estratégia.

Acredito que os próximos 30 anos exigirão ainda mais capacidade de adaptação, mais conhecimento e maior colaboração entre todos os intervenientes da cadeia de valor. A Lactogal quer continuar a liderar esse caminho, não apenas pelo que representa enquanto empresa, mas pelo contributo que pode dar para um setor mais forte, mais inovador e mais sustentável.

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