As lojas da IKEA na Dinamarca poderão assumir uma função muito diferente daquela para que foram concebidas: servir como espaços de emergência em caso de crise.
Segundo informação divulgada pela Reuters, as unidades da retalhista poderiam ser adaptadas para funcionar como centros de alojamento temporário ou hospitais de emergência em situações como falhas prolongadas de eletricidade, inundações ou ataques a infraestruturas críticas.
A lógica assenta nos próprios recursos existentes nas lojas: os restaurantes poderiam fornecer refeições, os geradores manteriam os edifícios operacionais e camas adicionais poderiam ser rapidamente montadas a partir do stock existente nos armazéns.
IKEA integra rede de mais de 200 empresas
A IKEA faz parte da Danish Corporate Coalition for Crisis Preparedness, uma rede que identifica os recursos que empresas privadas podem disponibilizar em situações de emergência. A iniciativa reúne mais de 200 empresas, que empregam mais de 300 mil pessoas, abrangendo retalho, construção, telecomunicações e outros sectores.
O objetivo é permitir que, em caso de crise, as autoridades tenham um ponto de contacto único para identificar rapidamente empresas com capacidade para fornecer recursos, desde camas e alimentos até veículos, equipamentos ou trabalhadores especializados.
Na Dinamarca, a participação continua a ser voluntária e está a ser desenvolvido um mecanismo de compensação pública para as empresas chamadas a disponibilizar recursos.
Salling prepara 51 lojas para operar sem eletricidade ou internet
A preparação não se limita à IKEA. O Salling Group, maior operador de supermercados da Dinamarca, está a preparar 51 lojas capazes de funcionar durante 48 horas sem eletricidade ou ligação à internet.
A medida mostra como o retalho alimentar pode assumir uma importância crítica em cenários de emergência, assegurando o acesso a bens essenciais mesmo quando partes da infraestrutura tecnológica ou energética deixam de funcionar.
Esta crescente integração das empresas na preparação civil está alinhada com a Preparedness Union Strategy, lançada pela União Europeia em março de 2025, que incentiva uma maior cooperação entre Estados e sector privado.
Modelo já foi testado em situações reais
A utilização de lojas IKEA como abrigo não é apenas uma possibilidade teórica. Durante as inundações que atingiram Valência, em outubro de 2024, uma loja da IKEA acolheu mais de 600 pessoas.
Na própria Dinamarca, em dezembro de 2021, uma tempestade de neve obrigou seis clientes e cerca de duas dezenas de trabalhadores a passar a noite numa loja IKEA em Aalborg, utilizando as camas expostas no espaço de venda.
A IKEA esclareceu, no entanto, que não existe um programa global único de preparação para emergências e que as iniciativas são organizadas país a país.
Empresas ganham papel crescente na preparação civil europeia
A Dinamarca não é caso isolado. Na Estónia, cerca de 300 empresas estão legalmente obrigadas a contribuir para a continuidade de serviços considerados críticos em caso de crise.
A Finlândia dispõe de uma rede que articula entidades públicas, organizações não governamentais e empresas em torno da segurança do abastecimento, enquanto na Polónia algumas companhias podem ser obrigadas a disponibilizar veículos, equipamento ou instalações às forças armadas em situações de emergência.
A tendência mostra que infraestruturas comerciais tradicionalmente pensadas apenas para consumo e distribuição começam também a ser consideradas ativos estratégicos de resiliência civil.









