Profissional a trabalhar num computador portátil durante reunião informal, com colegas em segundo plano, num ambiente colaborativo.

Guia Salarial 2026: novos modelos salariais redefinem o valor do trabalho em Portugal

Em 2026, já não é o cargo que dita o salário, mas a capacidade de gerar impacto num mercado em constante mudança

O mercado de trabalho em Portugal entrou numa nova fase estrutural, em que o salário deixou de estar associado apenas ao cargo ou ao sector e passou a refletir, sobretudo, a capacidade de gerar impacto num contexto económico volátil e altamente tecnológico.

Esta é uma das principais conclusões do “Guia Salarial 2026” da Adecco Portugal, que analisa tendências de remuneração e recrutamento em 14 sectores estratégicos da economia nacional.

De acordo com o estudo, em 2026, são os perfis híbridos – que combinam competências técnicas, humanas, pensamento estratégico, literacia digital e adaptabilidade – que concentram maior valorização salarial. Esta tendência é transversal a áreas como tecnologias de informação, finanças, indústria, shared services, supply chain e sales & marketing.

“O mercado deixou de recompensar apenas o conhecimento técnico ou a senioridade. O talento mais valorizado em 2026 é aquele que consegue transformar ambiguidade em planos de ação, tecnologia em valor acrescentado e estratégia em execução”, explica Bernardo Samuel, country head of permanent recruitment da Adecco Portugal.

Uma das grandes mudanças, face a anos anteriores, é o fim do modelo de compensação uniforme. O “Guia Salarial 2026” mostra que as empresas estão a abandonar o “café para todos” e a apostar em modelos de compensação e benefícios cada vez mais personalizados, ajustados às expectativas, fases de vida e motivações dos colaboradores.

O salário competitivo continua a ser importante, mas já não é o único fator. Progressão transparente, flexibilidade, bem-estar e alinhamento com o propósito da organização surgem como fatores decisivos na fidelização de talento, sobretudo em perfis qualificados e escassos.

Lisboa lidera remunerações mais elevadas

Lisboa mantém-se como o principal polo de remunerações mais elevadas, sobretudo em funções ligadas a tecnologia, banca, finance e liderança estratégica. Em tecnologias de informação, perfis altamente especializados continuam a liderar a tabela salarial: funções como cloud engineer, data engineer ou especialistas em ERP (SAP) podem ultrapassar os 100 mil euros anuais, refletindo a escassez de talento e a elevada exigência técnica associada a estas funções.

Na área financeira, cargos de topo como diretor financeiro podem atingir os 140 mil euros anuais em Lisboa e os 120 mil euros no Porto. Já funções estratégicas intermédias, como business controller, continuam a registar uma valorização consistente, acompanhando a crescente sofisticação da gestão financeira e da tomada de decisão baseada em dados.

No sector da banca e serviços financeiros, áreas como compliance, auditoria interna e análise de crédito permanecem entre as mais valorizadas, impulsionadas pelo aumento da exigência regulatória e pela escassez de perfis especializados.

O Porto continua a afirmar-se como uma localização relevante no contexto das operações internacionais e dos shared service centres, acompanhando a evolução do mercado e a crescente presença de estruturas com atuação multigeográfica. Em estruturas de maior dimensão e responsabilidade global, funções de liderança como head of SSC/GBS podem atingir valores superiores a 100 mil euros anuais, refletindo não apenas a localização, mas sobretudo o âmbito internacional, a complexidade operacional e o impacto estratégico destas funções. Esta evolução acompanha a transformação dos centros de serviços partilhados de estruturas essencialmente operacionais para hubs estratégicos globais.

Middle management ganha novo peso estratégico

Outra tendência clara em 2026 é a crescente valorização do middle management. O guia identifica uma forte procura por gestores intermédios capazes de fazer a ponte entre estratégia e execução, sobretudo em contextos de transformação digital, industrial e operacional.

Estes perfis assumem hoje um papel central na implementação da mudança, na estabilidade das equipas e no controlo de processos, refletindo-se numa valorização salarial progressiva face a anos anteriores, à medida que aumenta a complexidade das organizações.

Sectores com maior pressão salarial

Apesar da valorização generalizada de perfis estratégicos, sectores como retalho, hospitality, construção e algumas áreas de recursos humanos continuam a enfrentar desafios significativos na competitividade salarial, sobretudo nas funções de entrada e operacionais. No retalho, funções de gestão intermédia como store manager apresentam salários anuais entre 20 mil e 30 mil euros, enquanto cargos como national retail manager podem situar-se entre 35 mil e 70 mil euros, valores que contrastam com o nível de responsabilidade, exigência operacional e pressão por resultados associados a estas funções.

Em hospitality, a dificuldade de atração e fidelização de talento mantém-se evidente. Funções como front office manager registam faixas salariais entre 23 mil e 35 mil euros anuais, enquanto cargos de maior responsabilidade, como diretor de F&B, podem atingir valores próximos dos 75 mil euros, evidenciando uma forte assimetria interna e uma pressão acrescida nas posições operacionais e intermédias.

Também na construção, apesar do dinamismo do sector, os salários de entrada continuam relativamente contidos. Funções técnicas como orçamentista situam-se entre 35 mil e 65 mil euros anuais, enquanto posições de maior responsabilidade, como diretor de obra, podem atingir os 70 mil euros, refletindo a crescente complexidade dos projetos, mas também a dificuldade em atrair profissionais qualificados para funções de base.

Em recursos humanos, as funções mais técnicas continuam igualmente sob pressão. Funções como payroll specialist apresentam faixas salariais entre 20 mil e 35 mil euros anuais, enquanto cargos de direção, como HR director, podem ultrapassar os 100 mil euros, reforçando o desafio de tornar as carreiras intermédias mais atrativas e sustentáveis.

Tecnologia aumenta a exigência sobre as pessoas

Contrariamente à ideia de que a tecnologia substitui pessoas, o “Guia Salarial 2026” mostra que a digitalização está a aumentar a exigência sobre o talento humano. A capacidade de usar dados, integrar inteligência artificial nos processos e tomar decisões informadas tornou-se transversal a praticamente todos os sectores, mas sempre acompanhada de competências humanas como pensamento crítico, comunicação e liderança.

O “Guia Salarial 2026” afirma-se como uma ferramenta estratégica para apoiar empresas e profissionais a tomar decisões mais informadas num mercado em rápida transformação.

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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