A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alertou para riscos significativos na segurança alimentar global, na sequência da disrupção do corredor comercial do Estreito de Ormuz, uma das principais artérias do comércio mundial de energia e matérias-primas agrícolas.
Segundo Máximo Torero, economista-chefe da FAO, esta situação está a desencadear “um dos choques mais severos nos fluxos globais de commodities dos últimos anos”, com impactos diretos na produção agrícola, nos custos de fertilizantes e na estabilidade dos mercados alimentares.
Colapso do tráfego marítimo agrava tensões nos mercados
O alerta surge num contexto em que o tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz caiu mais de 90% em poucos dias, afetando um corredor que normalmente transporta cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, cerca de 35% do fluxo global, além de gás natural liquefeito e até 30% dos fertilizantes comercializados internacionalmente.
Esta disrupção está a gerar um efeito dominó, com impactos cruzados nos sistemas energéticos, industriais e agroalimentares. A FAO sublinha que este não é apenas um choque energético, mas um impacto sistémico com repercussões diretas na agricultura.
A região do Golfo é responsável por quase metade do comércio global de enxofre, essencial para a produção de fertilizantes fosfatados. A interrupção no abastecimento ameaça comprometer a produção global destes fertilizantes, com efeitos em cadeia na produtividade agrícola.
Ao mesmo tempo, os custos logísticos dispararam, com os prémios de seguro marítimo a subirem de 0,25% para até 10% do valor dos navios, agravando ainda mais o custo das operações comerciais.
Fertilizantes mais caros pressionam produção agrícola
Os impactos já se fazem sentir no terreno. Os preços dos fertilizantes registaram aumentos significativos, com a ureia a subir até 28% nalguns mercados nas primeiras semanas da crise.
A FAO estima que os preços globais dos fertilizantes possam aumentar entre 15% e 20% na primeira metade de 2026, caso a disrupção se prolongue.
A redução do uso de fertilizantes, uma resposta expectável ao aumento de preços, poderá ter consequências desproporcionais na produção agrícola. Segundo a FAO, mesmo reduções moderadas podem gerar quedas significativas nas colheitas, sobretudo em regiões já vulneráveis.
Culturas como trigo, arroz e milho poderão ser particularmente afetadas, enquanto se prevê uma possível migração para culturas menos intensivas, como a soja.
Impacto desigual entre países
Os efeitos desta crise não serão homogéneos. Países com forte dependência de importações ou em fases críticas do ciclo agrícola estão particularmente expostos. Entre os mais vulneráveis estão o Sri Lanka e o Bangladesh (em períodos críticos de produção de arroz), a Índia (com pressão na produção interna de fertilizantes) , o Egito (dependente de importações de trigo) e países da África Subsariana, como a Somália, o Quénia ou Moçambique
Também grandes exportadores agrícolas, como o Brasil, poderão sentir impactos indiretos com repercussões nos mercados globais.
Duração da crise será determinante
A FAO sublinha que o impacto dependerá essencialmente da duração da disrupção. Num cenário de curto prazo (até um mês), os mercados poderão absorver o choque, beneficiando de níveis ainda confortáveis de stocks globais.
No entanto, uma crise prolongada (três meses ou mais) poderá afetar decisões de plantação, reduzir a produção global e intensificar a volatilidade dos preços alimentares.
Perante este cenário, a FAO defende uma resposta urgente e coordenada. Entre as medidas recomendadas estão a criação de rotas comerciais alternativas e o apoio financeiro a países importadores. A organização destaca ainda o acesso a crédito para agricultores e a diversificação das fontes de fertilizantes, a par do investimento em soluções sustentáveis, como fertilizantes alternativos.








