Encontrar motoristas de pesados continua a ser um dos maiores desafios do transporte rodoviário europeu e tudo indica que o problema está longe de ser resolvido. Mesmo em 2025, a escassez de profissionais manteve-se crítica em vários países, agravada pela saída de motoristas para o estrangeiro, pela mudança de sector e pelo envelhecimento da força de trabalho.
Perante este cenário, as empresas estão a rever profundamente as suas estratégias de recrutamento, retenção e operação.
O market report da Eurowag para 2026 analisa a realidade em países como a Chéquia, a Eslováquia, a Polónia, a Hungria, a Roménia, Espanha e Portugal, revelando uma tendência clara: a solução passa por uma combinação entre gestão de pessoas, formação estruturada e investimento em tecnologia.
Recrutar mais cedo, formar melhor
Com a pressão para manter operações ativas, algumas empresas começaram a contratar motoristas antes de concluírem todos os processos administrativos, tratando internamente os requisitos pendentes. Paralelamente, cresce a aposta no recrutamento de profissionais mais jovens ou com menos experiência, integrados de forma gradual em funções de maior responsabilidade.
Na Polónia, a Elmex é um dos exemplos mais citados no relatório. A empresa desenvolveu um programa internacional próprio, com centros de formação em vários países, recrutando inicialmente motoristas da Ucrânia e, mais tarde, de países asiáticos. O objetivo é formar profissionais adaptados às exigências do mercado europeu, tanto para a empresa como para outros operadores.
Também a eslovaca TOPNAD planeia recrutar motoristas fora da União Europeia. Já na Chéquia, a Diplo defende que a escassez não se resolve apenas com recrutamento agressivo, mas sobretudo com boas condições de trabalho. “Quem entra, normalmente fica. Procuramos criar um ambiente humano e previsível”, afirma o cofundador, Michal Bubeník, ele próprio antigo motorista.
A mesma lógica é seguida pela Multitrans CZ, que aposta numa abordagem personalizada e no trabalho em equipa, reconhecendo que a antiga atratividade salarial da profissão já não é suficiente. A resposta passa, hoje, pela melhoria da frota e das condições de trabalho.
Equilíbrio entre vida profissional e pessoal
Em Espanha, a Barquín y Otxoa identifica o afastamento prolongado da família como um dos principais entraves à profissão. A empresa ajustou a sua operação para garantir que 90% das rotas permitem aos motoristas dormir em casa, mantendo horários claros e previsíveis, mesmo num sector – o alimentar – que exige trabalho aos fins de semana e feriados.
Na Roménia, a Bipmobile aposta num conjunto flexível de benefícios, enquanto na Hungria a Domino Trans desenvolveu um programa de desenvolvimento de talento apoiado pelo Fundo Nacional de Emprego. O projeto destina-se a jovens com carta de condução da categoria B, oferecendo uma entrada gradual na profissão e um contrato de trabalho no final do percurso formativo.
Tecnologia ao serviço da eficiência e da retenção
A transformação do sector passa também pela digitalização e pela telemática. As empresas já não monitorizam apenas a localização dos veículos, mas analisam o estilo de condução, o consumo de combustível, o uso de travões e do controlo de cruzeiro. Estes dados permitem avaliações regulares e ações de formação direcionadas, com impacto direto na redução de custos e no desgaste da frota.
A Elmex utiliza há mais de 15 anos o sistema Marcos TMS da Eurowag para gestão operacional e financeira. Já a polaca RP-TRANS recorre ao módulo de telemática GBOx para otimizar o planeamento de transportes e ajustar rotas em tempo real.
Em Portugal, a TRANSMARSIL integra a telemática e os tacógrafos digitais na sua operação diária e prepara-se para aplicar inteligência artificial ao planeamento de rotas e à análise de custos, utilizando dados provenientes dos cartões de combustível da Eurowag como base para estes modelos.
A TOPNAD, por sua vez, desenvolveu software próprio e utiliza IA para maximizar a eficiência das rotas e dos retornos, gerando relatórios automáticos detalhados sobre o desempenho dos motoristas, sem necessidade de intervenção manual.
Uma questão estratégica e comercial
A estabilidade das equipas tornou-se um fator crítico de competitividade. Menos rotatividade significa menos atrasos, menos danos e maior previsibilidade, critérios cada vez mais valorizados pelos clientes e, em alguns países, já considerados em concursos públicos.
Segundo Radoslaw Tatarski, responsável da Eurowag na Polónia, “até 2026, as empresas terão de ser percecionadas como empregadoras atrativas, oferecendo remunerações competitivas, condições seguras de trabalho e ferramentas eficazes de comunicação e reporting”.
A dimensão do problema é significativa. No final de 2024, faltavam quase meio milhão de motoristas na União Europeia, lembra Miroslav Novák, diretor da Eurowag para os mercados checo e eslovaco. O envelhecimento da força de trabalho e o desinteresse das gerações mais jovens continuam a agravar a situação, tornando a tecnologia um aliado central para tornar a profissão mais atrativa.
Uma abordagem de longo prazo
O market report da Eurowag, “Transforming Transportation in 2026”, conclui que não existem soluções imediatas para a escassez de motoristas. O caminho passa por uma estratégia consistente e de longo prazo, onde a gestão de pessoas e a tecnologia caminham lado a lado. Num contexto de pressão sobre preços, custos e desempenho, esta combinação surge como a principal resposta para garantir a sustentabilidade e a competitividade do transporte rodoviário na Europa.







