A escalada do conflito no Médio Oriente está a provocar um efeito dominó nos mercados agroalimentares mundiais. O impacto direto é nos preços dos alimentos, nos custos de produção agrícola e na estabilidade das cadeias de abastecimento. O alerta é da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que aponta para um cenário de crescente pressão inflacionista e risco para a segurança alimentar global.
De acordo com a FAO, os conflitos armados permanecem entre as principais causas da fome no mundo. E esta realidade que poderá intensificar-se com a atual instabilidade no Médio Oriente. O diretor-geral daquele organismo, Qu Dongyu, reforça que a situação exige atenção urgente da comunidade internacional. Até porque, alerta, a combinação entre conflitos, alterações climáticas e fragilidades económicas está a colocar pressão crescente sobre os sistemas alimentares globais.
Preços a subir
De acordo com dados recentes da FAO, os preços mundiais dos alimentos aumentaram pelo segundo mês consecutivo em março, refletindo já os efeitos da instabilidade geopolítica. O índice global registou uma subida de 2,4% face a fevereiro, evidenciando uma tendência de pressão crescente nos mercados internacionais.
Este aumento foi impulsionado sobretudo pela valorização de categorias-chave como óleos vegetais, açúcar e cereais. O açúcar liderou as subidas, com um crescimento de 7,2%, seguido dos óleos vegetais (5,1%) e dos cereais (1,5%), com destaque para o trigo.
Apesar desta evolução, os preços permanecem ainda abaixo dos níveis máximos registados em 2022, após a invasão da Ucrânia. Ainda assim, a trajetória ascendente acende sinais de alerta quanto ao comportamento dos mercados nos próximos meses.
Cadeias de abastecimento sob pressão
O principal fator por detrás desta subida é o aumento dos custos energéticos e logísticos, diretamente associado ao conflito. A instabilidade naquela região, crucial para o fornecimento global de petróleo, tem encarecido os combustíveis, o transporte marítimo e os seguros, afetando toda a cadeia agroalimentar.
Outro ponto crítico identificado pela FAO prende-se com o acesso a fertilizantes. O bloqueio ou condicionamento de rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, tem dificultado o acesso a estes insumos essenciais. Como alerta a organização, “qualquer interrupção no fornecimento de fertilizantes pode ter consequências significativas para a produção alimentar global”, com efeitos que poderão prolongar-se no médio prazo.
A FAO alerta que, se o conflito se prolongar, os agricultores poderão ter de reduzir o uso de fertilizantes ou diminuir as áreas cultivadas. Este cenário poderá comprometer as colheitas futuras e prolongar a pressão inflacionista até 2027.
Efeito dominó nos mercados globais
O impacto não se limita à produção agrícola. O aumento dos custos energéticos está também a impulsionar a procura por biocombustíveis, desviando matérias-primas como a cana-de-açúcar e os óleos vegetais da alimentação para a energia, o que contribui para a subida adicional dos preços.
Ao mesmo tempo, o encarecimento do frete marítimo e da logística está a repercutir-se em toda a cadeia de valor, desde os produtores até ao consumidor final. Em países altamente dependentes de importações, este efeito já se traduz em aumentos diretos no custo das refeições.
Oferta global ainda segura, mas por quanto tempo?
Apesar da pressão, a FAO destaca que os atuais níveis de stocks globais de cereais têm funcionado como um amortecedor, evitando um choque mais abrupto nos preços.
No entanto, esta “almofada” poderá não ser suficiente caso o conflito se prolongue. A continuidade das tensões poderá levar a um desequilíbrio estrutural entre oferta e procura, com consequências mais profundas para os mercados alimentares e para a segurança alimentar mundial.
Face a este cenário, a FAO apela a uma resposta coordenada da comunidade internacional. Qu Dongyu defende a necessidade de reforçar a cooperação global para garantir o funcionamento das cadeias de abastecimento e evitar restrições comerciais que agravem a situação.
A organização sublinha ainda a importância de investir em sistemas alimentares mais resilientes, capazes de resistir a choques externos, sejam eles de natureza geopolítica, climática ou económica.
O atual contexto evidencia a vulnerabilidade estrutural do sistema alimentar global. A interligação entre energia, logística e produção agrícola faz com que crises regionais tenham impactos globais quase imediatos.
A FAO alerta que, sem medidas concretas, o mundo poderá enfrentar um agravamento da fome e da insegurança alimentar, num momento em que milhões de pessoas já vivem em situação de fragilidade. Como conclui Qu Dongyu, “é essencial agir agora para proteger os mais vulneráveis e garantir o acesso a alimentos para todos”.








