O comércio agêntico deverá passar de uma fase experimental para uma etapa de adoção massificada nos próximos anos. De acordo com um novo estudo da Juniper Research, o número de utilizadores de comércio agêntico deverá atingir 1,3 mil milhões a nível global até 2031, contra menos de 300 milhões este ano.
A consultora estima que este crescimento, próximo de 350%, será impulsionado por três fatores: o apoio direto dos grandes retalhistas, o aumento da confiança e familiaridade dos consumidores com sistemas de inteligência artificial e a maior disponibilidade de infraestruturas de pagamento preparadas para este tipo de transações.
O que é comércio agêntico?
O comércio agêntico é um modelo em que agentes de inteligência artificial participam diretamente nas transações. Na prática, estes sistemas podem interpretar uma necessidade expressa em linguagem natural, procurar produtos ou serviços em diferentes plataformas, comparar alternativas, avaliar preço, disponibilidade e condições de entrega e, quando autorizados, concluir a compra em nome do utilizador.
A diferença face aos atuais recomendadores de produto está no grau de autonomia. O agente deixa de apenas sugerir opções e passa a poder executar partes da jornada de compra.
Mercado poderá movimentar 1,29 biliões de euros em 2030
A Juniper Research estima que o comércio agêntico possa movimentar 1,5 biliões de dólares em 2030, cerca de 1,29 biliões de euros.
Apesar do potencial, a consultora alerta que a confiança será um dos principais fatores a condicionar a velocidade de adoção. Consumidores e empresas terão de confiar que os agentes protegem os dados pessoais e financeiros, interpretam corretamente as preferências, respeitam os limites de autorização e executam os pagamentos de forma segura.
A evolução deverá acontecer por etapas. Numa primeira fase, os agentes de IA concentram-se na descoberta e recomendação de produtos. Depois, poderão integrar compras dentro de ambientes conversacionais, selecionar alternativas, negociar condições, pedir autorização final ao utilizador e, em casos mais avançados, executar compras de forma autónoma.
Este percurso não significa o desaparecimento imediato das lojas online tradicionais. Pelo contrário, o comércio agêntico deverá surgir como um novo canal dentro do ecossistema digital.
Retalhistas terão de fornecer dados estruturados
Para funcionarem corretamente, os agentes precisam de aceder a informação atualizada e fiável sobre inventário, características de produto, preços, prazos de entrega, avaliações, políticas de devolução e métodos de pagamento.
A Juniper Research sublinha que a qualidade da informação disponibilizada pelos comerciantes será determinante. Dados incompletos, inconsistentes ou mal categorizados podem prejudicar a visibilidade dos produtos, gerar recomendações incorretas e degradar a experiência do consumidor.
A nova lógica de compra coloca uma pressão adicional sobre marcas e retalhistas. Já não bastará aparecer perante uma pessoa num motor de busca, numa rede social ou numa plataforma de e-commerce. Os produtos terão também de ser compreensíveis para agentes capazes de filtrar milhares de opções segundo preço, disponibilidade, reputação, entrega e preferências acumuladas do utilizador.
Isto reforça a importância de catálogos normalizados, dados de produto estruturados, API, informação de stock em tempo real e políticas comerciais claras.
Pagamentos por cartão lideram numa fase inicial
A infraestrutura de pagamentos será um dos elementos críticos para a evolução do comércio agêntico. Segundo a Juniper Research, os pagamentos por cartão estão a assumir uma liderança inicial, devido ao envolvimento das redes de cartões em projetos-piloto e novos enquadramentos técnicos.
No entanto, a consultora alerta que a capacidade de os utilizadores pagarem com o método da sua preferência será decisiva para o crescimento do mercado.
Nick Maynard, vice-presidente de investigação da Juniper Research, considera que os cartões estão a ganhar relevância nas transações agênticas através da tokenização, mas defende que uma dependência excessiva deste método não será positiva para o mercado.
Segundo o responsável, se o comércio agêntico não suportar métodos locais, como carteiras digitais e pagamentos conta a conta, o mercado poderá limitar o seu potencial de crescimento.
A Juniper Research publicou também uma classificação de fornecedores de infraestrutura de pagamentos para comércio agêntico em 2026. A Mastercard surge na primeira posição, seguida da Visa e da Stripe.
A avaliação considerou 14 empresas, analisando capacidades específicas para facilitar operações realizadas por agentes e participação nos protocolos que estão a definir o mercado.
Confiança será a principal barreira
Apesar das previsões de crescimento, a confiança continuará a ser o maior obstáculo. O comércio agêntico exige que os utilizadores concedam autoridade a sistemas de IA para agir em seu nome. Esse salto é mais exigente do que usar um recomendador de produtos ou comprar numa loja online convencional.
O consumidor terá de acreditar que o agente compreende as suas preferências, protege a informação pessoal e financeira, respeita os limites definidos e não executa operações indesejadas.
O comércio agêntico levanta ainda uma questão jurídica por resolver: quem é responsável quando uma transação não autorizada, defeituosa ou inadequada é realizada por um sistema autónomo? A responsabilidade poderá recair sobre o utilizador, o fornecedor do agente, o comerciante, a plataforma intermediária ou o prestador de pagamentos. A falta de clareza regulatória pode travar a adoção e aumentar o risco de litígios, devoluções e reclamações.
Fraude terá novas formas
A entrada de agentes de IA na jornada de compra obrigará também a reformular os sistemas de prevenção da fraude. Atualmente, muitos modelos de risco analisam dispositivos, endereços IP, sessões, localização e padrões históricos de compra. Quando a operação é executada por um agente, ganham importância outros sinais, como a identidade do sistema, a autorização concedida, a sequência de ações e o comportamento entre plataformas.
A Juniper Research alerta que os modelos atuais de risco não estão necessariamente preparados para interpretar este novo tipo de informação.
Apesar dos riscos, os agentes de IA também poderão ajudar a proteger os consumidores. Um agente bem treinado poderá evitar anúncios com preços anormalmente baixos, identificar sites suspeitos, analisar a reputação dos vendedores, comparar avaliações e recusar ofertas potencialmente fraudulentas.
Esta capacidade poderá tornar-se especialmente relevante em categorias com elevado risco de falsificação, promoções agressivas ou marketplaces fragmentados.
Compras recorrentes podem abrir caminho
A Juniper Research identifica as compras recorrentes como um dos primeiros casos de uso com maior potencial. Produtos de alimentação, medicamentos, artigos descartáveis, material de escritório ou bens de reposição regular podem funcionar como terreno inicial de adoção, por serem compras simples, repetitivas e de menor risco.
Com autorização do utilizador, um agente poderia ajustar as datas de entrega, substituir produtos indisponíveis, procurar melhores preços ou antecipar necessidades com base no histórico de consumo.
O comércio agêntico poderá também acentuar diferenças entre grandes distribuidores e pequenos operadores. Grandes retalhistas, com infraestruturas tecnológicas avançadas, catálogos normalizados e API, terão maior facilidade em integrar-se nos ecossistemas de agentes.
Já pequenos comerciantes poderão ficar sub-representados se não estruturarem corretamente a sua informação ou não disponibilizarem formas simples de ligação aos seus sistemas.
A comunicação comercial terá de ser relevante não apenas para pessoas, mas também para sistemas automatizados que ordenam opções com base em dados e regras de decisão. Isto significa que argumentos de marca, diferenciação, certificações, disponibilidade, preço, avaliações, sustentabilidade e condições de entrega terão de ser claros, verificáveis e legíveis por agentes.
Para marcas e retalhistas, nasce uma nova batalha por visibilidade: a capacidade de serem escolhidos por sistemas que filtram e justificam recomendações antes de o consumidor chegar ao ponto de compra.
E-commerce não desaparece
A Juniper Research não prevê, contudo, que o comércio agêntico substitua de imediato as lojas online tradicionais. A evolução dependerá da melhoria simultânea de quatro elementos: capacidade dos agentes, qualidade da informação de produto, a infraestrutura de pagamentos e a confiança de consumidores e empresas.
As compras de maior valor deverão continuar a exigir autorização humana enquanto não existirem garantias mais robustas sobre identidade, segurança, responsabilidade e correção de erros.







