José Marques, presidente do Conselho de Administração do Grupo Lactogal, discursa num palco institucional durante um evento comemorativo dos 30 anos da empresa. O responsável surge de pé atrás de um púlpito branco e azul identificado com o seu nome e cargo, utilizando um fato cinzento escuro e gravata rosa. O cenário é dominado por um ecrã de grandes dimensões com elementos gráficos em tons de azul e branco, reforçando a identidade visual da Lactogal. Em primeiro plano, vê-se uma mesa de apoio com uma garrafa de água e um copo, num ambiente corporativo e formal José Marques
Alimentar

Cimeira do Leite aponta inovação e sustentabilidade como caminhos para o sector lácteo

A Cimeira do Leite, organizada pelo Grupo Lactogal, encerrou com um apelo à transformação e à colaboração no sector lácteo, defendendo uma visão assente na inovação científica, sustentabilidade ambiental, bem-estar animal, economia circular e valorização nutricional dos produtos lácteos.

Realizado no Super Bock Arena, no Porto, sob o tema “Cuidamos da Origem, Alimentamos o Futuro”, o evento assinalou o 30.º aniversário da Lactogal, o maior grupo lácteo da Península Ibérica, e reuniu especialistas nacionais e internacionais, representantes institucionais e decisores políticos.

Sector lácteo é “estruturante” para Portugal

Na abertura da cimeira, José Marques, presidente do conselho de administração do Grupo Lactogal, sublinhou a necessidade de uma reflexão estratégica sobre o futuro da fileira. “Quisemos que este fosse, acima de tudo, um momento de reflexão séria sobre o futuro. O sector atravessa uma transformação profunda e esta cimeira nasce da vontade de antecipar tendências e construir uma visão para o futuro, em conjunto”, afirmou.

A importância económica, social e territorial do sector foi reforçada por Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e da Energia, que presidiu à sessão de abertura. “Podemos afirmar que o sector do leite é estruturante no país. E não apenas por representar um valor anual superior aos mil milhões de euros, mas porque tem um impacto direto na vitalidade dos territórios, na ocupação do território, na coesão social e na nossa soberania e segurança alimentar”, sublinhou.

Pecuária pode ter papel regenerativo

O primeiro painel, dedicado à origem e sustentabilidade, procurou desconstruir a visão da pecuária apenas como problema ambiental, destacando o seu potencial regenerativo quando bem gerida. Humberto Delgado Rosa, ex-diretor para a biodiversidade na Comissão Europeia, defendeu que “uma pecuária bem dirigida pode trazer grandes vantagens ecológicas”.

O painel, moderado por Fernando Cardoso, diretor executivo da Proleite, abordou ainda o bem-estar animal como dimensão essencial da sustentabilidade. Antoni Dalmau, investigador sénior em bem-estar e comportamento animal do IRTA, classificou o tratamento ético dos animais como uma “obrigação moral”.

George Stilwell, médico veterinário e professor associado da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, acrescentou a perspetiva de “Uma Só Saúde”, integrando saúde humana, animal e ambiental. Segundo o especialista, a redução do uso de antimicrobianos passa pela melhoria do bem-estar animal e pela prevenção.

Ciência reforça valor nutricional dos lácteos

O segundo painel, dedicado à nutrição e saúde, trouxe para o debate algumas conclusões consideradas disruptivas sobre o papel dos lácteos na alimentação.

Arne Astrup, consultor em nutrição médica no Hospital Universitário de Copenhaga, defendeu que a evidência científica atual desafia dogmas instalados sobre a gordura láctea. “A ciência hoje é clara: a gordura saturada proveniente dos lacticínios não está associada a doenças cardiovasculares. O que importa é a matriz alimentar. Alimentos como o iogurte e o queijo estão, na verdade, associados a uma vida mais longa e a um menor risco de doenças cardíacas, AVC e cancro”, afirmou.

Já Nuno Borges, nutricionista e professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, quantificou a relevância dos lácteos na dieta nacional. “Os lacticínios contribuem com quase metade do cálcio e, nas crianças, quase 60% do iodo da dieta dos portugueses. Isto é crucial num país onde 60% das mulheres não atinge a dose recomendada de cálcio”, referiu.

Pós-bióticos apontados como futuro da nutrição funcional

No mesmo painel, moderado por Liliana Ferreira, presidente da direção da Associação Portuguesa de Nutrição, Richard Day, vice-presidente da ADM Health & Wellness, destacou o potencial dos pós-bióticos na inovação alimentar. O responsável descreveu os pós-bióticos como “microrganismos inativados que mantêm os seus benefícios para a saúde com a vantagem crucial da estabilidade”.

Segundo a abordagem apresentada, esta inovação pode permitir enriquecer produtos como o leite com novas funcionalidades ligadas à saúde digestiva e imunitária.

Tecnologia abre novas fronteiras

O último painel da cimeira foi dedicado à tecnologia e inovação, demonstrando como a ciência pode alargar as possibilidades da fileira láctea. Miguel Cerqueira, investigador do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, apresentou o potencial da nanotecnologia inspirada nas próprias estruturas do leite, quer para criar ingredientes de maior valor, quer para desenvolver embalagens biodegradáveis.

Já Juan Lema, professor emérito de Engenharia Química na Universidade de Santiago de Compostela, defendeu uma nova visão sobre os efluentes da indústria. “Temos de passar de um sistema que consome energia para tratar a água, para um sistema que recupera energia e recursos. As águas residuais são uma oportunidade”, afirmou, apontando soluções capazes de gerar biogás e outros subprodutos.

Laurence Rycken, diretora-geral da International Dairy Federation, trouxe uma perspetiva internacional ao debate, sublinhando a necessidade de “padrões globais harmonizados e baseados em ciência”. Para a responsável, esta harmonização é essencial para que o sector consiga responder, de forma coerente, aos desafios futuros, num contexto em que sustentabilidade, saúde, segurança alimentar e inovação estão cada vez mais interligadas.

Na mensagem vídeo de encerramento, José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura, reforçou o papel vital do sector lácteo para Portugal. “O vosso trabalho permite que Portugal tenha sido considerado, recentemente, como líder mundial no que diz respeito à resiliência alimentar. Nem sempre temos consciência da qualidade e acessibilidade dos nossos produtos. É fundamental continuar a apoiar o sector, pois a agricultura é competitividade, inovação e sustentabilidade”, afirmou.

Lactogal processou mais de 1.252 milhões de litros de leite em 2025

Fundado em 1996, a partir da união das cooperativas de produtores de leite Agros, Proleite e Lacticoop, o Grupo Lactogal é atualmente o maior grupo lácteo da Península Ibérica. Em 2025, processou mais de 1.252 milhões de litros de leite recolhidos em Portugal e Espanha, provenientes de cerca de dois mil produtores.

O grupo integra empresas como Lactogal Produtos Alimentares, Lacticínios Vigor, Etanor Penha, Pronicol, Leche Celta e Queijos Santiago, operando 12 unidades industriais na Península Ibérica e empregando mais de 2.500 colaboradores.

A atividade está centrada na produção e comercialização de produtos lácteos, que representam mais de 98% do volume de negócios, abrangendo marcas como Mimosa, Agros, Matinal, Gresso, Vigor, Pleno, Castelões, Milhafre dos Açores, Primor, Queijos Santiago, Alavão, Serra da Penha e Fresky.

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