Carles Rosell, CEO da Welfair Carles Rosell, CEO da Welfair

“O bem-estar animal não é uma questão estética nem emocional: é um domínio técnico, mensurável e verificável”

Avaliar diretamente o animal — e não apenas as condições do seu ambiente — é o princípio fundador da Welfair, a certificação de bem-estar alimentar independente, gerida pelo Institute of Agrifood Research and Technology da Catalunha (IRTA) em colaboração com a Neiker-Tecnalia e baseada no projeto European Welfare Quality e no projeto European AWIN. Em entrevista à Grande Consumo, Carles Rosell, CEO da Welfair, explica como a certificação, assente em evidência científica, auditorias independentes e critérios homogéneos, se afirma como um novo eixo competitivo no sector agroalimentar europeu, com crescente adesão de produtores, marcas e retalhistas, incluindo em Portugal.

Como descreveria a missão da Welfair e o impacto que procura gerar no sector agroalimentar europeu?

A missão da Welfair é promover um modelo de bem-estar animal fundamentado na ciência, na observação direta do animal e na melhoria contínua. O nosso trabalho centra-se em medir como cada espécie está realmente, com base em indicadores objetivos e normalizados e não em perceções ou condições indiretas.

O impacto que procuramos gerar é que o bem-estar animal seja avaliado segundo critérios homogéneos, verificáveis e comparáveis em qualquer contexto. Para tal, atualizamos constantemente os protocolos e trabalhamos com auditores especificamente formados na avaliação animal-based.

Em suma, a nossa prioridade é contribuir para a melhoria do bem-estar animal de forma rigorosa e transparente, colocando sempre o animal no centro do processo de avaliação.

Que lacuna veio a Welfair colmatar no mercado e de que forma se diferencia de outras certificações ligadas ao bem-estar animal?

No mercado faltava um sistema que avaliasse diretamente o animal e não apenas as condições do seu ambiente. A Welfair adota uma abordagem animal-based, sustentada nos protocolos europeus Welfare Quality e AWIN, que permite observar o estado real do animal, o seu comportamento e a sua resposta ao maneio por parte do produtor. Diferencia-se por aplicar um enquadramento científico comum em todos os países, com metodologias normalizadas que facilitam comparações objetivas. Além disso, aporta maior transparência, reforça a confiança do consumidor e representa, para o produtor, uma forma clara e reconhecida de demonstrar que está a fazer bem.

Quais são os principais critérios de avaliação para a obtenção da certificação Welfair?

Os critérios estão agrupados em quatro grandes princípios: boa alimentação, bom alojamento, boa saúde e comportamento apropriado.

Dentro de cada princípio avaliam-se aspetos como a condição corporal, lesões, mobilidade, interação social, conforto nas áreas de descanso ou resposta aos cuidadores. São indicadores observáveis que permitem refletir de forma fiel a situação do animal.

De que modo o vosso modelo assegura uma avaliação objetiva e independente?

Em primeiro lugar, a Welfair assegura a objetividade através da combinação de auditorias externas, formação especializada e protocolos científicos estandardizados.

As avaliações são realizadas por entidades certificadoras totalmente independentes, cujos auditores concluíram uma formação teórica e prática específica nos referenciais Welfare Quality e AWIN.

Por fim, a Welfair nasceu da ciência, com vocação pública e com total independência face à indústria e assim continuamos.

Que espécies estão atualmente abrangidas pela certificação? Há planos de expansão para novas categorias ou tipos de produção?

Certificamos múltiplas espécies, incluindo vacas, vitelos, ovelhas, cordeiros, suínos, coelhos, perus, codornizes, patos, galinhas e frangos. A certificação abrange também produtos derivados, como leite, ovos, iogurtes, outros produtos lácteos ou enchidos, bem como produtos que os integrem, como refeições preparadas ou alimentos prontos a consumir.

Já temos as primeiras empresas aquícolas certificadas (nomeadamente douradas) e estamos a trabalhar para que, num futuro não muito distante, possamos incluir outras espécies.

As auditorias são realizadas apenas em explorações pecuárias ou também incluem transporte e matadouros?

As auditorias abrangem todas as fases da vida produtiva do animal, desde a sua permanência na exploração até ao abate. Para que um produto possa ostentar o Selo Welfair, tanto a exploração de origem como o matadouro têm de estar certificados.

Além disso, trabalhamos com um sistema de controlo que documenta as diferentes fases da vida e do abate do animal, permitindo verificar que os produtos identificados com o selo provêm de explorações onde os animais são avaliados segundo os padrões Welfair.

“Em Portugal, a evolução dos últimos anos tem sido particularmente significativa. Desde a emissão do primeiro certificado de explorações, em julho de 2020, o sistema alargou o seu alcance para um total de 170 empresas com explorações certificadas, cerca de 3.400 explorações e 34 matadouros integrados na certificação”

Como tem evoluído a adesão à certificação Welfair por parte de produtores e marcas? E concretamente em Portugal, que avaliação faz do grau de conhecimento e interesse dos operadores portugueses pela certificação?

A adesão à certificação Welfair tem crescido de forma constante. Atualmente, o selo reúne mais de 32 mil explorações certificadas a nível mundial, cerca de 1.100 empresas participantes e mais de 250 marcas que o utilizam em diferentes categorias de produto.

Em Portugal, a evolução dos últimos anos tem sido particularmente significativa. Desde a emissão do primeiro certificado de explorações, em julho de 2020, o sistema alargou o seu alcance para um total de 170 empresas com explorações certificadas, cerca de 3.400 explorações e 34 matadouros integrados na certificação. Os primeiros matadouros portugueses aderiram em 2022, o que permitiu completar a certificação ao longo de toda a cadeia.

Quanto ao conhecimento e interesse dos operadores portugueses, a evolução é claramente positiva. Cada vez mais produtores e empresas da cadeia agroalimentar reconhecem a importância de trabalhar com um esquema que avalia diretamente os animais e que é continuamente atualizado com base na evidência científica. Isto permite-lhes demonstrar boas práticas e comparar, ano após ano, a sua evolução.

Qual é, na sua opinião, o principal obstáculo à adoção da certificação Welfair por parte de produtores e distribuidores?

Um dos principais desafios continua a ser o desconhecimento. Muitas vezes, existe a perceção de que a certificação implica mudanças complexas, quando na realidade muitas melhorias assentam no maneio, na formação e na revisão de práticas.

É também comum o receio face à mudança ou ao aumento do controlo, mas quem se certifica destaca que a certificação Welfair permite identificar oportunidades de melhoria, acompanhar a evolução e reforçar a confiança dos clientes.

O consumidor está cada vez mais atento à origem e às condições de produção dos alimentos. Que tipo de informação e garantias a certificação Welfair oferece a quem compra um produto com o vosso selo?

O selo Welfair indica que os produtos provêm de animais avaliados presencialmente através de auditorias independentes e cujo bem-estar foi analisado com base em indicadores científicos ao longo de toda a sua vida produtiva. Isto permite ao consumidor identificar produtos provenientes de animais que viveram e foram abatidos de acordo com os mais rigorosos padrões de bem-estar.

Que evidência têm sobre a perceção do consumidor relativamente ao selo Welfair? É já um fator de decisão de compra nos mercados onde a certificação tem maior presença?

A perceção do consumidor relativamente ao selo Welfair está claramente a melhorar. De acordo com um estudo interno recente, 43 % dos consumidores reconhece o selo como um distintivo de bem-estar animal. Deste grupo, cerca de 69 % já adquiriu produtos com o selo e 83 % afirma que os recomendaria ou voltaria a fazê-lo.

Nos mercados onde a Welfair tem maior presença, estes dados indicam que o selo já influencia a decisão de compra de um segmento crescente de consumidores que procura um sinal de confiança.

No ponto de venda, de que forma as marcas e o retalho podem comunicar eficazmente o valor da certificação sem recorrer a mensagens vagas ou potencialmente confundíveis com greenwashing?

O essencial é explicar o que é medido, como é observado, quem audita e que fases são avaliadas. A comunicação deve assentar em factos e não em imagens idealizadas. O sector já não se pode permitir mensagens ambíguas; a informação deve ser precisa, verificável e acessível.

O consumidor não precisa de promessas, mas sim de dados que consiga compreender. Este é um dos principais ensinamentos resultantes da desinformação: a comunicação deve ser proativa, transparente e baseada em evidência. Assim, é possível conquistar a confiança de um consumidor que quer saber de onde vem aquilo que consome.

As novas gerações — especialmente os consumidores da Geração Z — têm mostrado maior sensibilidade a causas éticas e ambientais. A Welfair está a adaptar a sua linguagem e ferramentas de comunicação para dialogar com este público mais jovem e digital?

As novas gerações procuram informação direta, clara e uma comunicação próxima. Por isso, na Welfair disponibilizamos o website, FAQs, um canal de LinkedIn e um contacto de e-mail para esclarecimento de dúvidas: [email protected]. A chave não é simplificar o conteúdo, mas explicar com clareza o que significa o selo e o que está verdadeiramente por detrás dele.

Estamos também a trabalhar numa comunicação mais visual, que mostre de forma concisa como os animais são avaliados, que indicadores são observados e porque a metodologia animal-based oferece uma leitura objetiva do bem-estar.

Há diferenças culturais relevantes na forma como o consumidor português ou do sul da Europa interpreta o bem-estar animal, face aos mercados do norte da Europa?

Não. A preocupação em saber o que está por detrás daquilo que comemos e o bem-estar dos animais é transversal.

“A perceção do consumidor relativamente ao selo Welfair está claramente a melhorar. De acordo com um estudo interno recente, 43 % dos consumidores reconhece o selo como um distintivo de bem-estar animal. Deste grupo, cerca de 69 % já adquiriu produtos com o selo e 83 % afirma que os recomendaria ou voltaria a fazê-lo”

O bem-estar animal pode, a seu ver, evoluir de um valor ético para um verdadeiro atributo de marca, tal como já acontece com a sustentabilidade e a nutrição?

Sem dúvida. Os consumidores tomam decisões que influenciam a indústria. Os produtores encontram no selo uma forma de evidenciar o seu trabalho e os produtos com certificação de bem-estar animal tornam-se produtos distintivos, que as marcas estão a adotar. Acredito sinceramente que será cada vez mais necessário demonstrar, de forma séria e objetiva, aquilo que comemos.

O retalho desempenha um papel determinante na valorização de produtos certificados. Como têm trabalhado com as grandes cadeias de distribuição para integrar o selo Welfair nos seus lineares e campanhas de comunicação?

Na Welfair temos trabalhado na sensibilização para o valor da certificação e na explicação do seu significado. O foco tem sido alinhar mensagens que ajudem a distribuição a compreender a importância do bem-estar animal e a valorizar a melhoria contínua.

Existem casos de sucesso de cooperação entre a Welfair, retalhistas e marcas que possam ser partilhados como referência de boas práticas?

Sim, com vários produtores e marcas, algumas de grande dimensão e outras médias ou pequenas, como por exemplo o Grup Viñas ou o Grupo Vergara.

Quais são atualmente os maiores desafios à implementação generalizada de boas práticas de bem-estar animal na cadeia alimentar?

Os desafios mais relevantes passam pela profissionalização das explorações em alguns sectores e o custo de investimento associado; pela formação, face às dificuldades de recrutamento e renovação de pessoal; e as crescentes alterações legislativas.

Que papel pode a certificação Welfair desempenhar na transição para sistemas alimentares mais sustentáveis e éticos?

Embora a certificação não avalie diretamente a sustentabilidade, existe uma relação evidente entre bem-estar animal e eficiência produtiva. Animais bem cuidados tendem a adoecer menos, necessitam de menos tratamentos e desenvolvem-se de forma mais equilibrada, o que tem um impacto direto na sustentabilidade do sistema.

Quais são as prioridades estratégicas da Welfair para os próximos anos, em termos de expansão, digitalização e cooperação internacional?

As prioridades estruturam-se em quatro eixos: melhoria contínua do bem-estar animal, comunicação orientada para o reforço da informação ao consumidor, digitalização e internacionalização, com expansão na Europa e na América Latina, adaptando os pré-requisitos sem perder consistência científica.

“O bem-estar animal não é uma questão estética nem emocional: é um domínio técnico, mensurável e verificável. Portugal tem a oportunidade de avançar de forma consistente nesta área”

A partir da sua experiência à frente da Welfair, acredita que o bem-estar animal será, nos próximos anos, um novo eixo competitivo no sector agroalimentar, ao nível da sustentabilidade ou da qualidade?

Sim. A evolução normativa, a sensibilidade social e a necessidade de informação verificável indicam que o bem-estar animal será um elemento competitivo-chave. As empresas que trabalham com metodologias transparentes estarão mais bem preparadas para um mercado que exige rigor e clareza.

Que mensagem gostaria de deixar aos produtores, marcas e retalhistas portugueses sobre a importância de certificarem as suas práticas de bem-estar animal?

O bem-estar animal não é uma questão estética nem emocional: é um domínio técnico, mensurável e verificável. Portugal tem a oportunidade de avançar de forma consistente nesta área e a Welfair está comprometida em acompanhar esse percurso com uma metodologia clara e permanentemente atualizada.

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